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Pedra Bela,24/02/2026

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Rubens Bernardo Tomas

Entre a festa e o risco: o Carnaval e os desafios persistentes para a população LGBTQIA+ no Brasil

por Rubens Bernardo Tomas
Entre a festa e o risco: o Carnaval e os desafios persistentes para a população LGBTQIA+ no Brasil

O Carnaval brasileiro é frequentemente celebrado como um dos maiores símbolos de liberdade, diversidade e expressão cultural do país. No entanto, para a população LGBTQIA+, a festa ainda carrega contradições profundas: enquanto as ruas se enchem de cores, fantasias e discursos de inclusão, os dados e relatos mostram que o perigo e a violência continuam presentes.



foto de Rubens Bernardo Tomas

Uma festa de liberdade… mas para quem?

Historicamente, o Carnaval sempre foi um espaço de resistência e visibilidade para corpos dissidentes, identidades de gênero diversas e expressões afetivas que, em outros contextos, são marginalizadas. Blocos, bailes e desfiles tornaram-se palcos de afirmação política e cultural LGBTQIA+.

No entanto, a realidade fora do imaginário festivo revela tensões. Segundo relatórios de organizações como o Grupo Gay da Bahia e a Associação Nacional de Travestis e Transexuais, o Brasil ainda figura entre os países com maiores índices de violência contra pessoas LGBTQIA+ no mundo.

Como afirma a ativista e pesquisadora Keila Simpson, referência histórica na luta pelos direitos de pessoas trans: “A visibilidade não elimina o risco. Muitas vezes, ela aumenta a exposição à violência.”


Violência, assédio e vulnerabilidade durante a festa

Durante o Carnaval, especialistas apontam que há aumento de situações de vulnerabilidade para pessoas LGBTQIA+, especialmente em espaços com grande circulação de público, consumo de álcool e baixa presença de políticas de proteção.

Relatórios de organizações de direitos humanos indicam que os principais riscos incluem:

  • agressões físicas e verbais

  • assédio sexual e violência de gênero

  • abordagens policiais discriminatórias

  • exclusão de espaços de lazer

A Anistia Internacional já alertou que grandes eventos de massa exigem políticas específicas de proteção a grupos vulneráveis, incluindo a população LGBTQIA+.


Avanços institucionais e campanhas de prevenção

Nos últimos anos, houve avanço na criação de campanhas públicas voltadas à proteção da população LGBTQIA+ durante o Carnaval. Governos estaduais e municipais passaram a adotar ações como:

  • postos de acolhimento e denúncia

  • campanhas educativas contra LGBTfobia

  • treinamentos para agentes de segurança

Em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, iniciativas de conscientização buscam reduzir a violência e garantir um ambiente mais seguro para todos.

Além disso, decisões do Supremo Tribunal Federal, como a criminalização da LGBTfobia equiparada ao crime de racismo, representam avanços legais importantes.


O abismo entre lei e realidade

Apesar dos avanços, ativistas apontam que existe um abismo entre legislação e prática. Falta de preparo das forças de segurança, subnotificação de casos e medo de denunciar ainda são obstáculos frequentes.

Segundo a ANTRA, a população trans e travesti segue sendo a mais vulnerável, especialmente em contextos de rua e festas populares.

Para o pesquisador e ativista Jean Wyllys, “o Brasil vive uma contradição: ao mesmo tempo em que celebra a diversidade no Carnaval, ainda falha em garantir a segurança e a dignidade dessa população no cotidiano”.


Caminhos possíveis

Especialistas e organizações de direitos humanos apontam algumas medidas urgentes:

  • ampliação de campanhas educativas permanentes

  • capacitação das forças de segurança

  • criação de protocolos de atendimento a vítimas

  • incentivo à denúncia com garantia de proteção

  • políticas públicas de inclusão social e econômica

Além disso, a responsabilidade também é coletiva: foliões, organizadores de blocos e a sociedade civil precisam atuar no combate à discriminação.

O Carnaval brasileiro é, sem dúvida, um espaço potente de celebração da diversidade. Mas não pode ser um refúgio temporário de liberdade em meio a uma realidade cotidiana de violência.

Se a festa é símbolo da identidade nacional, ela também deve ser reflexo do país que queremos construir: um país onde pessoas LGBTQIA+ possam viver e festejar com segurança, dignidade e respeito o ano inteiro.

Enquanto a alegria das ruas não se traduzir em direitos garantidos fora delas, o Carnaval seguirá sendo, para muitos, um espaço de celebração atravessado pelo medo.


Referências e fontes

  • Grupo Gay da Bahia – relatórios anuais de violência

  • Associação Nacional de Travestis e Transexuais – dossiês sobre violência contra pessoas trans

  • Anistia Internacional – relatórios sobre direitos humanos e grandes eventos

  • Decisões do Supremo Tribunal Federal sobre criminalização da LGBTfobia

  • Campanhas públicas das prefeituras de São Paulo e Rio de Janeiro


    por Rubens Bernardo Tomas



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