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Pedra Bela,11/07/2026

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Rubens Bernardo Tomas

Quando quem decide não conhece o tema: o despreparo na avaliação de projetos LGBTQIA+ custa caro ao Brasil


Quando quem decide não conhece o tema: o despreparo na avaliação de projetos LGBTQIA+ custa caro ao Brasil

Quando quem decide não conhece o tema: o despreparo na avaliação de projetos LGBTQIA+ custa caro ao Brasil

Por que tantos projetos voltados à população LGBTQIA+ encontram resistência mesmo quando apresentam qualidade técnica? A resposta pode estar menos no mérito das propostas e mais na falta de preparo de quem as analisa.

Muito se fala sobre diversidade, inclusão e responsabilidade social. Empresas estampam bandeiras coloridas durante o mês do orgulho LGBTQIA+, órgãos públicos anunciam editais voltados à promoção dos direitos humanos e discursos institucionais defendem o combate à discriminação. Mas, quando chega o momento de avaliar projetos culturais, sociais ou educacionais voltados à população LGBTQIA+, um problema recorrente emerge: a ausência de formação técnica de muitos dos responsáveis por decidir quais iniciativas merecem apoio.

Não se trata apenas de uma divergência de opiniões. Em diversos processos seletivos, percebe-se que avaliadores desconhecem conceitos básicos relacionados à diversidade sexual e de gênero, às políticas públicas para essa população, à legislação vigente e até mesmo aos indicadores sociais produzidos por universidades, organismos internacionais e pelo próprio Estado brasileiro.

O resultado costuma ser previsível. Projetos consistentes, fundamentados em pesquisa e com potencial de impacto social são rejeitados com pareceres superficiais, justificativas genéricas ou critérios pouco transparentes. Em alguns casos, propostas são reduzidas a uma leitura ideológica, ignorando seus objetivos culturais, educativos, científicos ou de promoção dos direitos humanos.

Essa deficiência técnica não afeta apenas a comunidade LGBTQIA+. Ela compromete a qualidade da gestão pública e da responsabilidade social corporativa. Quem avalia um projeto precisa dominar o tema que está analisando. Exige-se isso de bancas acadêmicas, de concursos públicos, de comissões científicas e de agências de fomento. Não deveria ser diferente em editais culturais, sociais ou institucionais.

Outro aspecto preocupante é a ausência de especialistas nas comissões avaliadoras. Em muitas seleções, profissionais experientes em direitos humanos, diversidade, psicologia, assistência social, antropologia, sociologia ou estudos de gênero são substituídos por avaliadores sem trajetória comprovada nessas áreas. Não se trata de restringir a pluralidade de opiniões, mas de garantir que decisões técnicas sejam tomadas por pessoas tecnicamente capacitadas.

O problema também alcança empresas privadas. Muitas organizações criam programas de diversidade sem investir na formação daqueles que aprovam patrocínios, analisam projetos sociais ou definem políticas internas. O resultado são decisões inconsistentes, frequentemente baseadas em percepções pessoais, receio de repercussão pública ou desconhecimento do tema.

A falta de preparo pode ainda reforçar preconceitos já existentes. A psicologia social demonstra que vieses inconscientes influenciam julgamentos quando não há conhecimento suficiente sobre determinado assunto. Sem capacitação, conceitos equivocados e estereótipos acabam interferindo em decisões que deveriam ser objetivas e fundamentadas em critérios técnicos.

Não basta defender diversidade nos discursos institucionais. É necessário investir na qualificação contínua de gestores, pareceristas e comissões avaliadoras. Transparência nos critérios de seleção, participação de especialistas, formação permanente e diversidade na composição das bancas são medidas capazes de reduzir decisões arbitrárias e aumentar a credibilidade dos processos.

A inclusão não começa apenas quando um projeto é aprovado. Ela começa quando quem decide possui conhecimento suficiente para compreender sua relevância, avaliar seu mérito e reconhecer seu potencial de transformação social.

Enquanto prevalecer o improviso, o desconhecimento ou a ausência de formação específica, muitos projetos importantes continuarão sendo descartados antes mesmo de terem a oportunidade de produzir impacto. Nesse cenário, perde a população LGBTQIA+, perdem as instituições e perde a própria sociedade, que deixa de apoiar iniciativas capazes de ampliar direitos, promover cidadania e fortalecer a democracia.

Por Rubnes Bernardo Tomas


Referências:

  • Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – publicações sobre diversidade, direitos humanos e educação.
  • Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico – estudos sobre diversidade e desempenho institucional.
  • Organização Internacional do Trabalho – pesquisas sobre inclusão LGBTQIA+ no mercado de trabalho.
  • Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – indicadores sobre desenvolvimento humano e inclusão.
  • Associação Nacional de Travestis e Transexuais – dados sobre direitos e violência contra pessoas trans.
  • Grupo Gay da Bahia – levantamentos sobre violência contra a população LGBTQIA+.


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