Debate Presidenciável
O debate dos ausentes: como a Band abriu a temporada eleitoral de 2026
Por Lou Moreira - Jornal Iconic
Neste domingo, 23 de agosto, a Band promoveu o primeiro debate presidencial das eleições de 2026, nos seus estúdios na zona sul de São Paulo, com transmissão simultânea em TV aberta, rádio e plataformas digitais, em parceria com Estadão, Gazeta, TV Cultura e Jovem Pan. Era, em tese, o pontapé inicial de uma tradição que a emissora mantém desde a redemocratização mas o programa que foi ao ar teve pouco a ver com o que havia sido planejado.
Um palco esvaziado
Seis nomes haviam sido convidados: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição; o senador Flávio Bolsonaro (PL); o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD); o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo); o ativista Renan Santos (Missão); e o escritor Augusto Cury (Avante). No fim, apenas três subiram ao palco: Caiado, Renan Santos e Cury juntos, somando algo perto de 14% nas intenções de voto, segundo o Datafolha divulgado na sexta-feira anterior ao debate.
Os dois líderes da corrida Lula, com 39%, e Flávio, com 33% no mesmo levantamento decidiram não comparecer. A campanha petista avisou à emissora que o presidente não participaria, sob a justificativa de que o formato o colocaria em desvantagem diante de cinco adversários simultâneos, dois deles sem presença garantida pela legislação eleitoral. Lula já vinha sinalizando resistência a esse tipo de confronto: em entrevista a um podcast, disse que não pretendia participar de debates para "ouvir bobagem" e que avaliaria caso a caso.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, condicionou sua presença à do presidente. A avaliação de seus estrategistas era simples: sem Lula no palco, o senador se tornaria o alvo natural dos demais candidatos — sobretudo dos concorrentes que disputam o mesmo eleitorado conservador, como Caiado, Zema e Renan Santos, todos interessados em ocupar o espaço à direita.
O terceiro a desistir foi Romeu Zema, que cancelou sua participação já no início da tarde de domingo, horas antes do debate. Segundo sua assessoria, a aposta de disputar o horário ao lado de Lula e Flávio havia sido, inclusive, um dos motivos que levaram a Band a remarcar o debate originalmente previsto para o dia 16 de agosto justamente na tentativa de assegurar a presença dos dois favoritos.
A questão do convite
Por trás da ausência de Lula também está uma discordância sobre quem deveria estar na disputa. A campanha petista reclamou especialmente do convite estendido a Zema e Renan Santos, cujos partidos não atingem o mínimo de cinco representantes eleitos no Congresso Nacional critério que, pela legislação eleitoral, dispensaria a obrigatoriedade de convite. A Band optou por incluí-los mesmo assim, o que desagradou o entorno do presidente.
Um padrão que se repete
A ausência dos favoritos nos primeiros debates não é exatamente uma novidade na política brasileira. Em 1989, Fernando Collor evitou os primeiros confrontos do primeiro turno. Em 1998, Fernando Henrique Cardoso recusou-se a debater e venceu a eleição já no primeiro turno. Em 2006, o próprio Lula se ausentou dos primeiros encontros, aparecendo apenas no segundo turno. Já em 2018, Jair Bolsonaro chegou a participar dos primeiros debates, mas se afastou depois do atentado que sofreu durante a campanha. Uma regra, porém, nunca havia sido quebrada até agora: pelo menos um dos dois principais nomes da corrida sempre esteve presente. Neste domingo, pela primeira vez desde a redemocratização, nenhum dos dois líderes das pesquisas apareceu.
Especialistas ouvidos pela imprensa nos dias anteriores ao debate apontaram a lógica por trás da decisão: para quem lidera a corrida, o cálculo de "custo-benefício" tende a pesar contra a exposição há mais a perder do que a ganhar em confrontos diretos com adversários que têm pouco a perder. Ao mesmo tempo, cientistas políticos alertaram que a ausência dos favoritos esvazia o debate como instrumento democrático, privando o eleitor da chance de comparar diretamente as propostas dos dois nomes que de fato disputam o Planalto.
O que restou
Com Lula, Flávio e Zema fora, o debate acabou reduzido a um confronto entre Caiado, Renan Santos e Cury um grupo que, somado, ainda está longe de ameaçar a liderança da corrida, mas que ganhou, com as ausências, a maior vitrine que teve até agora na campanha. A Band manteve os púlpitos vazios dos ausentes no cenário e mencionou as faltas ao longo da transmissão, que teve cobertura a partir das 19h e foi seguida, às 22h, por uma edição especial do Canal Livre com análises sobre o encontro.
Ainda que fisicamente ausentes, Lula e Flávio permaneceram como personagens centrais da noite: é em torno deles e da eventual disputa entre os dois no segundo turno que gira boa parte do debate público desta eleição, mesmo quando nenhum dos dois está no palco.




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