
A NATUREZA NÃO DÁ SALTOS
Quando a criança ferida toma a palavra
Há uma sabedoria antiga que diz: a
natureza não dá saltos. E talvez isso explique por que certas conversas se
tornam impossíveis.
Não se pode obrigar alguém a
compreender aquilo para o qual ainda não desenvolveu discernimento. Tampouco é
simples desfazer uma crença que, de tanto ser repetida e alimentada pela
manipulação, acabou se confundindo com a própria verdade.
Mas existe outra dimensão nesse
comportamento, talvez ainda mais profunda: a incapacidade de suportar a
frustração.
Há adultos que envelheceram sem
amadurecer emocionalmente. Carregam dentro de si uma criança ferida que não
aprendeu a ouvir um não, a perder, a esperar ou a reconhecer que o mundo não
existe para satisfazer seus desejos.
Quando contrariados, não argumentam.
Fazem birra. Gritam, ironizam, ofendem, ridicularizam. Como a criança que
esperneia diante de um brinquedo negado, tentam transformar a intensidade da
própria reação em instrumento de poder.
A diferença é que agora a birra ganhou
voz adulta, discurso político e, muitas vezes, uma plateia que a aplaude.
Na perspectiva psicanalítica, podemos
reconhecer aí mecanismos de defesa contra a frustração. Quando uma crença se
torna parte fundamental da identidade, questioná-la pode ser vivido como uma
agressão pessoal. O sujeito já não distingue a crítica à sua ideia de um ataque
à sua própria existência.
E então surge a raiva.
Não necessariamente porque o outro
esteja errado, mas porque a realidade se recusa a obedecer ao seu desejo.
É nesse território que a manipulação
encontra terreno fértil. Quem não tolera a frustração pode se agarrar a
narrativas que lhe prometem uma explicação confortável para cada derrota. Se perdeu,
foi roubado. Se foi contrariado, está sendo perseguido. Se os fatos desmentem
suas certezas, os fatos é que devem estar errados.
A realidade deixa de ser algo a
compreender e passa a ser algo a combater.
Entretanto, seria um equívoco imaginar
que toda pessoa intolerante à contradição carrega necessariamente uma infância
traumática. A imaturidade emocional também pode ser alimentada por ambientes
que recompensam a agressividade, pela repetição de mentiras e pela ausência do
exercício da autocrítica.
A maturidade começa quando
compreendemos que nossos desejos não são leis universais e que perder não
significa ser destruído.
A natureza não dá saltos. O
amadurecimento exige tempo, experiência, elaboração e, sobretudo, disposição
para reconhecer os próprios limites.
Não se ensina a caminhar a quem insiste
em permanecer no chão esperneando. Podemos oferecer a mão, mas não podemos dar
os passos pelo outro.
E talvez a grande tragédia de certas
discussões seja esta: acreditamos estar conversando com o adulto que temos
diante de nós, quando, naquele instante, quem responde é uma criança assustada,
enfurecida e incapaz de aceitar que o mundo não gira ao redor de suas vontades.
Porque crescer é inevitável.
Amadurecer, não.
Maúde Salazar é cantora lírica, escritora e pesquisadora da voz.
Doutoranda em Psicanálise e Teologia, desenvolve sua trajetória na confluência entre arte, espiritualidade e investigação da voz como experiência humana, simbólica e estética.
Com mais de três décadas dedicadas aos palcos, à escrita e à pesquisa, reúne rigor intelectual e sensibilidade artística em uma obra que atravessa a música, a performance, a escuta e a memória emocional.




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