Felipe Luiz Araújo
A fuga das telinhas: ler ou não ler, eis a questão!
De heróis a vilões e o preço da leitura
Vivemos numa sociedade em que tudo é consumo. Existimos num lugar no tempo em que passar vários minutos, ou até mesmo horas, diante do celular vendo vídeos é lugar-comum. Isso não nos custa muito, fora o espaço de horas perdidas e talvez o consumo da franquia da operadora. Se estivermos em casa, não custa nada mais do que energia elétrica para abastecer a carga do telemóvel (como dizem os portugueses) e o modem que provê o sinal de Wi-Fi. Mas se mudássemos de hábito e resolvêssemos ler um livro, um gibi, quem sabe? Quanto custaria?
Já viu o preço de um quadrinho da Turma da Mônica ou do Homem-Aranha na banca de revistas perto da sua casa? A verdade é que está difícil até encontrar alguma banca. Qual foi a última vez que você viu alguma delas?
Tudo bem, vamos à livraria buscar alguma coisa boa para ler. Mas percebemos que as livrarias de rua já não existem, e os cinemas, no momento, são lojas de conserto de celular ou igrejas pentecostais (nada contra as lojinhas que vendem capinhas ou colocam telas novas). A única alternativa que nos restou foi ir ao shopping center, o templo sagrado do consumo, onde tudo brilha e é moderno, longe da simplicidade.
Temos que estacionar o veículo em que viemos num lugar caro, mas seguro (até que nos provem o contrário). Se não temos meio de transporte privado, viemos num carro de uma pessoa que trabalha para um aplicativo no seu próprio veículo. Temos também a comodidade de não pagar por nada disso e ir para esse lugar maravilhoso num dos meios de transporte público.
Chegando aos umbrais do lugar onde se vendem as coisas, cada passo é um convite a deixar um rim por um par de tênis, jaqueta, óculos ou qualquer objeto que nos encante a visão. Até esquecemos o que viemos fazer aqui, nesse lugar tão legal. Ah, sim! Viemos à livraria buscar algo bom para ler, em vez de desperdiçar tanto tempo com vídeos fúteis. Passando por lojas de departamentos, roupas, sapatos… encontramos uma das poucas livrarias ainda existentes.
Vitrines bem iluminadas e cheias de… livros! Dos mais variados gostos, tipos e tamanhos. Alguns são técnicos e bem específicos (falam de desbloquear códigos que valem um milhão), outros nem tanto, servem até para quem não sabe ler (vêm com umas canetinhas para colorir), enfim. Vários universos se abriram no instante em que chegamos até aqui, mas até agora não sabemos exatamente o que vamos ler.
Voltemos ao gibi da Turma da Mônica: os preços variam de R159,00 a capa. Uma edição do “cabeça-de-teia-escalador-de-paredes” fica pela base de uns 15 a 155 reais, dependendo da livraria em que estamos. Vejamos então um livro de bolso (repare a ironia) bem legal e interessante (já que gastamos tanto até virmos aqui)… um filósofo, um historiador, quem sabe um romance? Qualquer coisa que possa ser passada no caixa, sem contar as inúmeras tentações em forma de chaveiros, borrachas e lápis com a forma de personagens queridos, não fica por menos de trinta reais.
Voltando para casa, o texto é pesado e cansativo. Também não consultamos ninguém que lê! Voltamos ao telemóvel a procurar quem tem dicas de livros mais legais, para não desperdiçar tempo... então esbarramos nos velhos vídeos de gatinhos que têm a cara de alguém famoso, mas não sabemos quem é, e lá vamos aos comentários descobrir.
A vida seria bem mais fácil se houvesse algum jeito de comprarmos essas obras no conforto do lar, sem sair do sofá.
E não é que temos?
Existem lojas virtuais de “A” a “Z” que, quem sabe, destruíram as pequenas livrarias e bancas de revistas com o comércio virtual. Disputar com empresas multibilionárias é uma tarefa hercúlea, e agora sabemos o resultado do massacre.
Como vimos, o acesso à leitura ficou muito difícil. As poucas bibliotecas que ainda teimam bravamente em ficar de pé estão aos frangalhos. O que nos restou foi ler o que podemos encontrar pela internet. Aí o mundo se abre mais uma vez, mas num terreno bem menos iluminado que outrora era o do paraíso das compras. Baixar PDFs é um risco à economia, dizem os jornais virtuais patrocinados pelas editoras de livros que querem vender os seus nas lojas caras (físicas ou virtuais). É um prejuízo aos cofres públicos acessar um conteúdo que não é pago.
Há muitas controvérsias a respeito do tema, muito debate.
Algumas editoras mudaram a forma de enxergar isso. Existem iniciativas do Estado para mudar o estado das coisas. Entretanto, certas formas de acessar os livros, gibis, de forma democrática ainda estão longe de se tornarem senso comum.
Enquanto isso, passamos as tardes assistindo a vídeos curtos, sem jamais saborearmos o prazer de uma boa leitura, sem nenhum pesar na consciência.



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