Carmem de Lucca
El Niño ganha força: o que muda com a nova previsão e quais os impactos esperados para o Brasil
Após meses de monitoramento das temperaturas do Oceano Pacífico, os principais centros de meteorologia confirmam que o El Niño está se fortalecendo e deverá influenciar o clima global durante o segundo semestre de 2026, com possibilidade de persistir até o início de 2027. A nova avaliação aumenta a preocupação com eventos climáticos extremos, especialmente no Brasil, onde os efeitos do fenômeno costumam variar de acordo com a região.
De acordo com uma nota técnica conjunta elaborada pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) e Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), existe probabilidade superior a 80% de que o El Niño permaneça ativo ao longo do segundo semestre, aumentando o risco de extremos climáticos e seus impactos sobre a economia, a agricultura, o abastecimento de água e a geração de energia.
O CPTEC/INPE, com base em projeções do Climate Prediction Center (CPC/NOAA), vai além: os modelos indicam 99% de probabilidade de manutenção do El Niño entre julho e setembro de 2026. A maioria das simulações aponta que o evento poderá atingir intensidade moderada, forte ou até muito forte durante a primavera, prolongando-se até o início de 2027.
O que muda com o fortalecimento do fenômeno?
O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico Equatorial. Esse aquecimento altera a circulação atmosférica em diversas partes do planeta, modificando padrões de chuva, temperatura e intensidade de eventos extremos.
Quanto mais intenso o fenômeno, maiores tendem a ser seus impactos.
A principal diferença em relação às previsões divulgadas no início do ano é que os modelos passaram a indicar um aquecimento mais consistente das águas superficiais e subsuperficiais do Pacífico, sinalizando um sistema oceânico-atmosférico mais organizado e capaz de produzir efeitos mais expressivos nos próximos meses.
Como o Brasil poderá ser afetado?
Embora os efeitos variem conforme a intensidade do fenômeno, os órgãos meteorológicos apontam alguns cenários mais prováveis:
Região Sul
O Sul do país costuma registrar chuvas acima da média, aumentando o risco de enchentes, deslizamentos de terra e transbordamento de rios, especialmente durante a primavera.
Norte e Nordeste
Grande parte da Amazônia e do Nordeste tende a enfrentar redução das chuvas, favorecendo estiagens, queimadas e dificuldades no abastecimento de água em algumas localidades.
Centro-Oeste
O período seco pode se prolongar, aumentando o risco de incêndios florestais, impactos na agricultura e redução da umidade relativa do ar.
Sudeste
O Sudeste pode alternar períodos de calor intenso com episódios de chuvas concentradas, aumentando a possibilidade de temporais, alagamentos e deslizamentos em áreas urbanas.
Agricultura e energia em alerta
A agricultura é um dos setores mais sensíveis ao El Niño.
Excesso de chuva pode comprometer colheitas no Sul, enquanto a escassez hídrica pode reduzir a produtividade agrícola em regiões do Norte, Nordeste e Centro-Oeste.
O setor elétrico também acompanha atentamente a evolução do fenômeno. Alterações no regime de chuvas afetam diretamente os reservatórios das hidrelétricas, exigindo maior planejamento para garantir a segurança energética.
Além disso, temperaturas acima da média costumam elevar o consumo de energia devido ao uso mais intenso de aparelhos de refrigeração.
Existe risco de um "Super El Niño"?
Alguns modelos climáticos indicam aumento da probabilidade de um evento muito intenso entre o fim de 2026 e o início de 2027. Embora ainda exista incerteza sobre sua magnitude final, especialistas ressaltam que o monitoramento permanece contínuo e que a intensidade definitiva só poderá ser confirmada nos próximos meses.
Como a população pode se preparar?
Especialistas recomendam que estados e municípios reforcem seus planos de prevenção para enchentes, queimadas e eventos extremos. Para a população, algumas medidas podem reduzir riscos:
- acompanhar os alertas da Defesa Civil e dos serviços meteorológicos;
- economizar água em regiões sujeitas à estiagem;
- evitar áreas de risco durante temporais;
- redobrar os cuidados com incêndios em períodos de baixa umidade;
- produtores rurais devem acompanhar boletins climáticos para ajustar o calendário agrícola.
Um desafio crescente em um planeta mais quente
O El Niño é um fenômeno natural, mas seus efeitos tendem a ser potencializados pelo aquecimento global. Temperaturas médias mais elevadas podem intensificar ondas de calor, alterar ainda mais o regime de chuvas e ampliar a frequência de eventos extremos.
Por isso, meteorologistas destacam que acompanhar a evolução do fenômeno deixou de ser apenas uma curiosidade científica. Hoje, trata-se de uma ferramenta essencial para o planejamento urbano, a gestão de recursos hídricos, a produção agrícola e a proteção da população diante de um clima cada vez mais instável.
por Carmem de Lucca
Fontes: Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), CPTEC/INPE, Funceme, Censipam, Climate Prediction Center (NOAA).



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