Regina Papini Steiner
Hilda Hilst e O Caderno Rosa de Lori Lamby: o livro que continua desafiando leitores mais de 30 anos
Hilda Hilst e O Caderno Rosa de Lori Lamby: o livro que continuadesafiando leitores mais de 30 anos depois
Por Regina Papini Steiner | Jornal ICONIC
Há livros que atravessamgerações porque contam boas histórias. Outros permanecem vivos porque nuncadeixam de provocar perguntas. O Caderno Rosa de Lori Lamby, publicadopor Hilda Hilst em 1990, pertence claramente ao segundo grupo.
Mais de três décadas apóschegar às livrarias, o romance continua despertando reações intensas. Há quem oconsidere uma obra-prima da literatura brasileira; há quem ainda o veja comdesconforto. E talvez seja justamente essa a maior força do livro: ele nuncapermitiu a indiferença.
Hilda Hilst (1930–2004)sempre foi uma escritora difícil de enquadrar. Poeta, dramaturga, romancista euma das vozes mais originais da literatura brasileira, dedicou sua vida aexplorar temas como a existência, a morte, o desejo, a espiritualidade e oslimites da linguagem. Durante muitos anos foi admirada principalmente nos meiosacadêmicos, mas, após sua morte, sua obra conquistou um público muito maisamplo e passou a ocupar definitivamente o lugar de um dos grandes nomes daliteratura nacional.
O livro que escandalizou o Brasil
Quando O Caderno Rosa deLori Lamby foi lançado, em 1990, o impacto foi imediato. Integrante dachamada "trilogia obscena", ao lado de Contosd'Escárnio e Cartas de um Sedutor, o romance surpreendeu atémesmo leitores acostumados à ousadia de Hilda Hilst.
A própria autora contou, ementrevistas, que decidiu escrever textos mais provocativos depois de ouvir deseu editor que seus livros considerados "sérios" eram admirados, masvendiam muito pouco. A resposta veio em forma de literatura e também deprovocação.
Narrado em primeira pessoapor uma menina chamada Lori Lamby, o romance causa estranhamento desde asprimeiras páginas. A voz infantil, aparentemente inocente, conduz o leitor poruma narrativa desconfortável, construída para questionar não apenas os limitesda ficção, mas também os preconceitos e expectativas de quem lê.
Na época, muitosclassificaram a obra simplesmente como pornografia. Outros chegaram a acusarHilda Hilst de ultrapassar qualquer limite ético. No entanto, com o passar dosanos, a leitura crítica mostrou que o livro vai muito além do choque inicial.
O que Hilda realmente queria dizer?
Hoje, grande parte dospesquisadores entende que O Caderno Rosa de Lori Lamby nunca teve comoobjetivo erotizar a infância ou provocar apenas pelo escândalo.
A intenção da autora eramuito mais complexa. Por meio do exagero e da ironia, Hilda Hilst denunciava ahipocrisia social, criticava a transformação do corpo em mercadoria e expunhaum mercado editorial que, muitas vezes, parecia valorizar mais aquilo queescandaliza do que aquilo que faz pensar.
Essa interpretação ganhouforça especialmente a partir de estudos desenvolvidos por pesquisadores daUniversidade de São Paulo (USP), que relacionam a obra às ideias do filósofofrancês Roland Barthes sobre o chamado "texto de gozo" uma literatura que rompe convenções, tira o leitor da zona de conforto eexige uma leitura ativa, desconfiada e crítica.
Para estudiosos como AlcirPécora, Eliane Robert Moraes e João AdolfoHansen, a chamada fase "obscena" de Hilda Hilst representa,na verdade, um sofisticado exercício de crítica cultural. A pornografia, nessecontexto, torna-se linguagem, ironia e instrumento de reflexão.
Uma crítica ao mercado editorial
Existe outro aspecto frequentementelembrado pelos especialistas: O Caderno Rosa de Lori Lamby também podeser lido como uma provocação dirigida ao próprio mercado do livro.
Ao exagerar elementosconsiderados escandalosos, Hilda Hilst parecia perguntar ao leitor e tambémàs editoras até que ponto o sucesso comercial depende apenas da capacidade decausar impacto.
Em entrevistas reunidasposteriormente no livro Fico Besta Quando Me Entendem, a escritoradizia que queria provocar. Queria fazer o público pensar sobre o consumo da literaturae sobre o modo como o escândalo frequentemente se transforma em produto.
Mais do que vender livros,interessava-lhe desnudar os mecanismos que transformam determinadas obras emfenômenos enquanto outras, igualmente profundas, permanecem quase invisíveis.
Por que esse livro continua atual?
Vivemos uma época marcada porredes sociais, conteúdos virais e debates cada vez mais polarizados. Nessecenário, a obra de Hilda Hilst parece dialogar diretamente com o presente.
Questões como censura,liberdade artística, moralidade, exploração da imagem, espetacularização daviolência e os limites entre ética e ficção continuam presentes nas discussõescontemporâneas.
Talvez por isso O CadernoRosa de Lori Lamby continue despertando tantas interpretações diferentes.O romance não oferece respostas prontas. Pelo contrário: convida o leitor aenfrentar seus próprios limites e a questionar certezas que pareciaminabaláveis.
Essa talvez seja a marca dosgrandes clássicos. Eles não envelhecem porque falam apenas de uma época;permanecem vivos porque continuam fazendo perguntas.
Ao revisitar Hilda Hilsthoje, percebe-se que sua maior provocação nunca foi simplesmente escrever sobresexo ou desafiar convenções. Sua verdadeira ousadia foi acreditar que aliteratura deveria incomodar, provocar reflexão e revelar aquilo que muitasvezes preferimos esconder.
E talvez seja justamente por isso que, mais detrinta anos depois, O Caderno Rosa de Lori Lamby continua sendo um doslivros mais discutidos , e mais necessários ,da literatura brasileira.
*Em 2026, completam-se 22 anos da morte de Hilda Hilst, uma das escritoras mais originais e provocativas da literatura brasileira, cuja obra continua inspirando leitores, pesquisadores e novas gerações de escritores.
No site da TV Omindaré existe um Podcast sobre Hilda Hilst, recomendamos: www.tvomindare.tv.br



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