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Pedra Bela,21/07/2026

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Regina Papini Steiner

Quando o crime organizado deixa de procurar políticos e passa a produzir políticos

Divulgação
Quando o crime organizado deixa de procurar políticos e passa a produzir políticos

Há um momento na história de toda democracia em queo maior perigo deixa de estar nas armas e passa a ocupar os gabinetes.

O Brasil parece caminhar exatamente por esseterritório.

Durante décadas, nos acostumamos a enxergar o crimeorganizado como um problema restrito às periferias, aos presídios e às páginaspoliciais. Enquanto isso, silenciosamente, organizações criminosas compreenderamalgo que talvez o Estado tenha demorado demais para perceber: é muito maiseficiente influenciar quem faz as leis do que simplesmente desrespeitá-las.

O resultado dessa estratégia está diante dos olhosdo país.

Facções ampliam seus negócios. Milícias expandemseus territórios. Recursos públicos desaparecem. Investigações tornam-se maisdifíceis. Testemunhas têm medo. Jornalistas são atacados. E a democracia vaisendo corroída não por um golpe clássico, mas pela infiltração gradual do podercriminoso nas estruturas do Estado.

Esse talvez seja o maior desafio institucional doBrasil contemporâneo. Não se trata mais de perguntar se o crime organizadotenta interferir nas eleições. A pergunta correta é outra: Quanto da políticabrasileira já foi contaminada por essa lógica?

Ao longo dos últimos anos, uma sucessão deinvestigações, reportagens e documentos revelou conexões políticas que jamaispoderiam ser consideradas banais. Veículos como CartaCapital, TheIntercept Brasil, Brasil 247 e ICL Notícias dedicaraminúmeras reportagens às relações entre personagens da política nacional eindivíduos posteriormente investigados ou apontados em investigações envolvendomilícias e outras organizações criminosas.

Entre esses episódios, destacam-se as controvérsiasenvolvendo integrantes da família Bolsonaro. Ex-assessores investigados,homenagens prestadas a pessoas posteriormente associadas às milícias, vínculospolíticos amplamente debatidos pela imprensa e investigações sobre o caso das"rachadinhas", assassinatos, alimentaram uma sequência dequestionamentos públicos que ainda repercutem no cenário político nacional.Esses fatos tiveram diferentes desdobramentos judiciais e políticos e continuamsendo objeto de debate público e cobertura jornalística.

Uma democracia saudável exige que tais episódiossejam esclarecidos de forma transparente. Infelizmente, no Brasil, qualquertentativa de investigação costuma ser imediatamente transformada em batalhaideológica.

Perguntar virou ofensa. Investigar virouperseguição. Publicar documentos virou militância.

Esse ambiente interessa a quem? Certamente não àsociedade. Interessa aos que preferem substituir respostas por discursosinflamados. Interessa aos que transformam seguidores em torcidas organizadasincapazes de admitir qualquer questionamento. Interessa, sobretudo, a quemdeseja que o debate público seja dominado pela emoção e não pelos fatos.

Quando a política se transforma em culto àpersonalidade, desaparece o controle democrático. E onde não existefiscalização, prospera a corrupção. Prospera a impunidade. Prosperam asorganizações criminosas.

Não existe democracia verdadeira quandodeterminadas regiões vivem sob o comando do medo. Não existe liberdadeeleitoral quando comunidades inteiras sabem que contrariar determinados interessespode significar perder o emprego, sofrer represálias ou colocar a própriafamília em risco. Não existe voto plenamente livre quando o Estado perdeuespaço para grupos armados.

As eleições deixam de representar a vontade popularpara representar a capacidade de intimidação de quem controla territórios. Esseprocesso não acontece apenas com armas. Ele acontece também através da capturadas instituições. Capturam-se partidos. Capturam-se lideranças. Capturam-sediscursos. Captura-se a verdade. E talvez este seja o aspecto mais perverso docenário brasileiro.

Vivemos uma época em que parte da população passoua defender políticos da mesma forma que torcidas defendem clubes de futebol. Poucoimporta o que as investigações revelem.nPouco importam documentos. Poucoimportam contradições. Importa apenas proteger o líder. Essa lógica destróiqualquer possibilidade de controle democrático.

Nenhum agente público deveria ser blindado da investigação.Nem Bolsonaro. Nem Lula. Nem governadores. Nem prefeitos. Nem parlamentares. Quemexerce poder deve aceitar o escrutínio público como condição básica dademocracia.

O jornalismo existe justamente para isso. Não paracondenar. Não para absolver. Mas para perguntar aquilo que muitos prefeririammanter escondido.

Atacar jornalistas, desacreditar a imprensa outransformar qualquer investigação em "perseguição política" tornou-seuma estratégia recorrente daqueles que compreendem que a dúvida pública podeser mais perigosa do que uma sentença judicial.

A história ensina que regimes autoritários começamjustamente quando a sociedade passa a desconfiar mais dos jornalistas do quedos poderosos. O Brasil chega às eleições carregando uma responsabilidade histórica.

Mais importante do que escolher candidatos serádecidir que tipo de democracia desejamos preservar. Uma democracia ondeorganizações criminosas disputam espaço institucional? Ou uma democracia capazde investigar qualquer autoridade, independentemente do sobrenome, da ideologiaou do capital eleitoral?

A captura do Estado pelo crime organizado nãoacontece de uma única vez. Ela avança lentamente. Primeiro ocupa bairros. Depoisprefeituras. Mais tarde assembleias. Por fim, aproxima-se do coração dasinstituições nacionais.

Quando a sociedade percebe, o combate deixa de sercontra criminosos armados. Passa a ser contra estruturas inteiras de poder. Etalvez esse seja o maior alerta que as eleições de 2026 deixam ao Brasil.

O verdadeiro adversário da democracia não é apenaso candidato de quem discordamos. É qualquer projeto de poder que normalize aconvivência entre política e criminalidade, trate investigações comoperseguição e transforme instituições públicas em escudos particulares. Porque,quando o crime organizado deixa de procurar políticos e passa a produzirpolíticos, não é apenas uma eleição que está em risco.

É a própria República.

Por Regina Papini Steiner



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