Olívia Vieira
Rios brasileiros pedem socorro: a contaminação das águas expõe um desafio que o país ainda não conseguiu vencer
Quem observa um rio pode enxergar apenas água correndo. Mas, para quem depende dele para beber, plantar, pescar ou simplesmente viver, um rio é muito mais do que uma paisagem. Ele é memória, sustento e futuro. Em 2026, porém, os principais levantamentos sobre a qualidade das águas brasileiras revelam uma realidade preocupante: boa parte dos nossos rios continua sofrendo com a poluição, enquanto as soluções avançam em ritmo mais lento do que a degradação.
Na semana em que o mundo voltou seus olhos para a preservação dos recursos hídricos, um levantamento da Fundação SOS Mata Atlântica trouxe um dado que merece atenção. Entre os 162 pontos monitorados em rios de 14 estados brasileiros durante 2025, quase 80% apresentaram qualidade apenas regular, enquanto somente cinco pontos foram classificados como de boa qualidade. Nenhum atingiu o nível considerado ótimo. O resultado demonstra que, apesar de décadas de políticas públicas e investimentos em saneamento, a recuperação dos rios brasileiros ainda está longe de ser uma realidade.
A fotografia mais conhecida desse problema continua sendo o Rio Tietê. Em São Paulo, ele simboliza tanto a força da engenharia para recuperar um rio quanto as dificuldades de combater uma poluição produzida diariamente por milhões de pessoas. Mas o Tietê está longe de ser uma exceção.
O Rio Iguaçu, no Paraná; o Rio dos Sinos, no Rio Grande do Sul; trechos do Rio Paraíba do Sul, que abastece milhões de pessoas entre São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais; além de diversos rios urbanos espalhados pelo país convivem há anos com lançamentos de esgoto sem tratamento, resíduos industriais, lixo urbano e sedimentos provenientes do desmatamento.
Segundo a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), os principais fatores que comprometem a qualidade das águas superficiais brasileiras continuam sendo o lançamento de esgotos domésticos, efluentes industriais e o escoamento de resíduos provenientes das atividades agrícolas. Em muitas regiões, esses fatores atuam simultaneamente, tornando ainda mais difícil a recuperação dos ecossistemas aquáticos.
Nos últimos anos, outro elemento passou a preocupar pesquisadores: a presença crescente de resíduos invisíveis aos olhos da população. Microplásticos, resíduos de medicamentos, hormônios, pesticidas e metais pesados já são encontrados em diferentes bacias hidrográficas brasileiras. Embora muitos desses contaminantes apareçam em concentrações reduzidas, seu efeito acumulativo sobre a fauna, a flora e até mesmo sobre a saúde humana ainda é objeto de estudos científicos.
A agricultura, responsável por uma parcela significativa da economia brasileira, também enfrenta o desafio de reduzir o impacto ambiental. O uso inadequado de fertilizantes e defensivos agrícolas pode atingir córregos e rios por meio das chuvas, provocando processos conhecidos como eutrofização — quando o excesso de nutrientes favorece a proliferação de algas, reduz o oxigênio dissolvido e compromete a sobrevivência de peixes e outros organismos aquáticos.
As mudanças climáticas tornam esse cenário ainda mais complexo. Longos períodos de estiagem diminuem a vazão dos rios, reduzindo sua capacidade natural de diluir poluentes. Quando finalmente chegam as chuvas intensas, elas carregam toneladas de lixo, óleo, sedimentos e produtos químicos das cidades diretamente para os cursos d'água.
O problema deixa de ser apenas ambiental e passa a atingir a economia e a saúde pública. Quanto pior a qualidade da água captada, maior o custo do tratamento para abastecimento das cidades. Em casos extremos, alguns mananciais deixam de ser utilizados, obrigando companhias de saneamento a buscar fontes mais distantes e onerosas.
Especialistas lembram que a recuperação de um rio não depende apenas de grandes obras. Ela exige planejamento urbano, coleta e tratamento de esgoto, fiscalização ambiental, proteção das nascentes, recuperação das matas ciliares e educação ambiental permanente. Países que conseguiram revitalizar rios historicamente poluídos, como o Tâmisa, em Londres, demonstram que a recuperação é possível, mas depende de investimentos contínuos e de políticas públicas mantidas ao longo de décadas.
No Brasil, alguns avanços já podem ser observados. Redes de monitoramento foram ampliadas, sistemas digitais permitem acompanhar a qualidade da água em centenas de milhares de trechos de rios e novos investimentos em saneamento vêm sendo anunciados. Ainda assim, os dados mostram que o ritmo das melhorias permanece insuficiente diante do crescimento das cidades e da pressão sobre os recursos naturais.
Mais do que preservar rios, é preservar vidas
Existe uma frase conhecida entre hidrólogos que diz que "os rios contam a história das cidades". Se isso for verdade, muitos rios brasileiros hoje narram uma história de descuido.
A água que desaparece sob a espuma de um rio poluído não leva apenas resíduos. Leva biodiversidade, qualidade de vida, oportunidades econômicas e parte da nossa própria relação com a natureza.
Recuperar os rios brasileiros não é apenas uma questão ambiental. É uma decisão sobre o país que queremos construir nas próximas décadas. Afinal, nenhuma sociedade consegue prosperar por muito tempo quando trata como descartável aquilo que é essencial para a própria vida.
por Olívia Vieira



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