Maude Salazar
ABSOLVO ME | APOCALIPSE VOX®
APOCALIPSE VOX®
ABSOLVO ME | APOCALIPSE VOX®
Culpa, superego e o difícil direito de interromper a própria condenação.
Existe uma diferença entre ouvir uma voz e acreditar nela.
Uma acusação repetida durante muito tempo pode adquirir a aparência de verdade. Já não parece uma voz interior. Parece uma certeza.
É nesse território que nasce ABSOLVO ME, contraponto a MEA CULPA, obra anterior de APOCALIPSE VOX®.
Se MEA CULPA revelou o tribunal interior, ABSOLVO ME pergunta por que continuamos obedecendo à sua sentença.
O passado terminou no tempo, mas pode continuar acontecendo psiquicamente. A mente retorna à mesma cena, repete a acusação, reconstrói o julgamento.
É quando a música diz:
“O peso que eu guardo
se alimenta de mim.”
Certas culpas sobrevivem porque continuam sendo alimentadas pela ruminação, pela repetição e pela crença de que continuar sofrendo é uma forma de demonstrar arrependimento.
Então surge:
“Não apago o que foi,
mas não sustento a prisão.”
A absolvição, aqui, não significa inocência.
O acontecimento permanece verdadeiro. A responsabilidade também.
O que se rompe é outra coisa: a ideia de que reconhecer um erro exige uma condenação permanente.
Responsabilizar-se é reconhecer o que aconteceu e responder por suas consequências.
Punir-se indefinidamente é manter o acontecimento vivo dentro de si.
A prisão não é o passado.
É a impossibilidade de permitir que ele se torne passado.
A música chega então à pergunta:
“Quem fala em mim há tanto tempo?
Quem condena sem fim?”
Na psicanálise, o superego pode assumir justamente essa dimensão severa e punitiva. Antigas exigências, proibições, julgamentos e ideais podem ser incorporados de tal maneira que passam a falar com a própria voz.
E então surge talvez a frase central de ABSOLVO ME:
“Se eu olho sem acreditar,
isso cai em silêncio.”
Olhar sem acreditar não significa negar aquilo que aconteceu.
Significa perceber a diferença entre o fato e a sentença construída a partir dele.
O fato pode dizer:
“Isso aconteceu.”
A voz punitiva acrescenta:
“Portanto, isso é quem você é.”
É essa segunda afirmação que começa a ser questionada.
Um pensamento pode existir sem ser uma verdade.
Uma lembrança pode retornar sem exigir uma nova condenação.
Uma culpa pode ser reconhecida sem transformar-se em identidade.
Por isso:
“Non sum culpa.”
Não significa que não houve culpa.
Significa:
não sou a culpa.
Mais adiante, a música chega à luz:
“In luce, veritas stat.”
Na luz, a verdade permanece.
Não uma luz de inocência, mas de consciência.
O passado não precisa desaparecer.
Precisa apenas deixar de ocupar todo o presente.
No final, depois da culpa, do julgamento e da repetição, resta uma afirmação quase elementar:
“Je suis.”
“In lumine.”
“Eu sou.”
MEA CULPA revelou o tribunal.
ABSOLVO ME questiona a sentença.
Porque talvez a absolvição psíquica não aconteça quando o passado desaparece.
Talvez aconteça quando ele finalmente perde o poder de decidir sozinho aquilo que alguém poderá ser depois dele.
ABSOLVO ME.
Não a negação da culpa.
O fim de sua sentença perpétua.
Maúde Salazar
APOCALIPSE VOX®



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