Maude Salazar
Gula Apocalipse Vox®
A geladeira nunca respondeu
Gula Apocalipse Vox®
A geladeira nunca respondeu
Há um fenômeno curioso.
Abrimos a geladeira. Fechamos.
Cinco minutos depois, abrimos de novo.
Como se, nesse intervalo, alguém tivesse colocado lá dentro a resposta para a vida.
É engraçado. E profundamente humano.
A psicanálise sugere que raramente desejamos o objeto em si. Desejamos aquilo que imaginamos sentir ao conquistá-lo. Por isso o desejo não costuma descansar. Apenas muda de endereço.
Hoje é comida.
Amanhã pode ser dinheiro, um novo amor, um celular, uma promoção ou mais alguns minutos de atenção nas redes sociais.
O objeto muda.
A falta permanece.
É justamente essa inquietação que atravessa Gula, obra integrante de Apocalipse Vox®.
Logo no início surge uma pergunta que talvez não pertença apenas à música, mas a qualquer pessoa que já tentou preencher um vazio por fora:
"Vem... doce desejo... Preenche o meu coração... Mas por que continuo vazio?"
Talvez porque exista uma diferença entre alimentar o corpo e silenciar uma ausência.
Vivemos a era da abundância.
Nunca tivemos tantas opções de consumo.
Nunca produzimos tanto.
Nunca acumulamos tantas experiências.
E, ainda assim, continuamos procurando.
Há um verso que sintetiza essa contradição:
"Carrego tuas correntes de ouro."
Nem toda prisão machuca.
Algumas seduzem.
Outras oferecem conforto.
E justamente por isso são mais difíceis de abandonar.
Outro verso amplia ainda mais essa reflexão:
"Amei aquilo que consumia, enquanto consumia a mim mesmo."
Talvez seja esse um dos retratos mais discretos da nossa época.
Consumimos produtos.
Consumimos pessoas.
Consumimos notícias.
Consumimos imagens.
Consumimos até versões idealizadas de nós mesmos.
Enquanto isso, quase nunca nos perguntamos quem é aquele que continua procurando.
No fim, talvez a questão nunca tenha sido a comida.
Nem o dinheiro.
Nem o reconhecimento.
Talvez a verdadeira pergunta seja outra:
O que existe dentro de nós que continua com fome, mesmo depois do banquete?



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