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Pedra Bela,21/07/2026

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Maude Salazar

Quando a Escuta se Fecha

SUPERBIA | APOCALIPSE VOX®


Quando a Escuta se Fecha

Quando a Escuta se Fecha

SUPERBIA | APOCALIPSE VOX®

Um ensaio sobre a soberba, a escuta e a condição humana.

Existe uma forma de cegueira que não nasce nos olhos.

Nasce nos ouvidos.

Ela começa de maneira quase imperceptível.

Primeiro deixamos de escutar quem pensa diferente.

Depois deixamos de escutar a realidade.

Por fim, deixamos de escutar qualquer coisa que não confirme aquilo que já acreditamos.

É nesse instante que a tradição deu um nome ao que acontece dentro de nós.

Superbia.

Costumamos imaginar a soberba como arrogância, vaidade ou desejo de parecer superior.

Mas talvez sua forma mais profunda seja outra.

A incapacidade de continuar sendo atravessado pela verdade.

Foi dessa inquietação que nasceu Superbia, uma das composições da ópera rock Apocalipse Vox.

Escrita em latim, a obra não retrata um personagem perverso.

Retrata uma consciência que, pouco a pouco, deixa de dialogar com o mundo e passa a dialogar apenas consigo mesma.

O coral proclama:

"Ego sum rectus.
Ego sum bonus."

"Eu sou justo.
Eu sou bom."

Não são palavras de um vilão.

São palavras que qualquer um de nós poderia pronunciar.

Porque a soberba raramente se anuncia como maldade.

Ela costuma apresentar-se como convicção.

Mas a música avança.

E então ouvimos uma sequência ainda mais inquietante:

"Non video.
Non audio.
Me credo."

"Não vejo.
Não ouço.
Creio em mim."

Talvez aqui esteja o verdadeiro coração da obra.

A queda não começa quando alguém se eleva acima dos outros.

Começa quando deixa de reconhecer qualquer autoridade além da própria consciência.

Quando já não vê.

Já não ouve.

Já não aprende.

A verdade continua existindo.

Mas a consciência fecha as suas portas.

Por isso a música canta:

"Clausum veritati."

"Fechado à verdade."

Não é a verdade que desaparece.

É o ser humano que perde a capacidade de recebê-la.

E toda consciência fechada acaba transformando a própria voz na única voz possível.

Por isso Superbia não fala apenas de um pecado antigo.

Fala de um risco permanente da condição humana.

Toda vez que acreditamos possuir a verdade inteira, deixamos de procurá-la.

Toda vez que confundimos convicção com infalibilidade, a escuta começa a morrer.

A tradição cristã dizia que a soberba era a raiz de todos os pecados.

Talvez porque toda violência comece exatamente onde termina a escuta.

Quando já não conseguimos aprender.

Quando já não conseguimos duvidar.

Quando já não conseguimos ser corrigidos.

No fim da obra, porém, a última palavra não pertence à soberba.

Pertence à luz.

"Lux Manet."

"A luz permanece."

Ela não se apaga.

Não depende das nossas certezas.

Não pertence aos que acreditam possuí-la.

A luz permanece.

Quem pode afastar-se dela somos apenas nós.

Talvez a verdadeira queda nunca aconteça quando deixamos de olhar para o alto.

Talvez aconteça quando deixamos de escutar aquilo que ainda pode nos transformar.





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