Maude Salazar
MEA CULPA
ALÉM DO ERRO, EU EXISTO
MEA CULPA | APOCALIPSE VOX®
Um ensaio sobre a culpa, a memória e o tribunalinterior.
Existe uma prisão que não precisa de muros.
Ela é construída por lembranças.
Começa com um erro.
Depois transforma esse erro numa memória.
E, lentamente, transforma a memória numaidentidade.
É nesse instante que a tradição lhe dá um nome.
Mea culpa.
Costumamos imaginar a culpa como um sentimento.
Algo que aparece depois do erro e desaparece com otempo.
Mas talvez sua forma mais profunda seja outra.
A incapacidade de deixar o passado permanecer nopassado.
Foi dessa inquietação que nasceu Mea Culpa, uma dascomposições da ópera rock APOCALIPSE VOX.
Escrita em latim, a obra não retrata um pecadordiante de Deus.
Retrata uma consciência diante de si mesma.
Desde os primeiros versos percebemos que ojulgamento já aconteceu.
“Guardo o que fiz como ferro aceso.”
O erro deixou de ser um acontecimento.
Tornou-se uma marca.
Uma inscrição invisível sobre a própria existência.
Por isso a canção continua:
“Cada passo retorna ao mesmo lugar.”
A culpa raramente caminha para frente.
Ela gira.
Repete.
Reconstrói o mesmo instante até convencer aconsciência de que nada mais existe além dele.
Então o coral retorna.
“Mea culpa.
Mea culpa.”
Mas a frase seguinte muda completamente o sentidoda antiga oração.
“Eu me ajoelho diante de mim.”
Já não existe tribunal exterior.
O juiz habita a própria consciência.
A sentença é repetida todos os dias.
E não existe condenação mais severa do que aquela pronunciadapela própria voz.
A música então nos conduz a um dos versos maisinquietantes da obra.
“Quem me acusa usa minha voz.
Quem me julga respira em mim.”
Talvez seja esse o verdadeiro rosto da culpa.
Ela aprende a falar como se fosse a própriaconsciência.
Já não parece uma acusação.
Parece verdade.
Mas a obra faz uma pergunta inesperada.
“E se não existe culpa,
quem construiu este altar?”
Não é uma negação da responsabilidade.
Também não é uma tentativa de apagar o passado.
A pergunta é outra.
Em que momento deixamos de reconhecer um erro paracomeçar a adorá-lo?
Porque toda culpa que permanece tempo suficienteacaba exigindo rituais.
Memórias repetidas.
Acusações repetidas.
Condenações repetidas.
Até que o ser humano passe a acreditar que nãocarrega uma culpa.
É a própria culpa.
Mas então a música silencia.
E, pela primeira vez, rompe o ciclo.
“Non sum culpa.”
“Não sou culpa.”
Não é um pedido de absolvição.
É um reconhecimento.
Existe uma diferença entre responder pelos própriosatos e transformar os próprios atos em identidade.
É dessa separação que nasce a liberdade.
Nos versos finais ouvimos:
“Se eu observo, isso se rompe.
Se eu não alimento, isso cai.”
A culpa continua existindo.
O passado também.
Mas já não ocupa o centro da consciência.
Porque aquilo que pode ser observado jamais éaquilo que observa.
E então resta apenas uma afirmação.
Talvez a mais importante de toda a obra.
“Eu existo.
Além do erro e do peso antigo.”
MEA CULPA não fala sobre esquecer.
Nem sobre inocência.
Fala sobre um instante raro.
O instante em que a consciência compreende que podeassumir toda a verdade do passado sem entregar a ele o direito de definir quemela é.
Maúde Salazar é cantora lírica, escritora epesquisadora da voz.
Doutoranda em Psicanálise e Teologia, dedica-se àinvestigação da vocalidade humana em suas dimensões artísticas, simbólicas,culturais e subjetivas.
Ao longo de mais de quatro décadas de atuaçãoprofissional, construiu uma trajetória que articula canto, pesquisa, escrita eformação artística, desenvolvendo trabalhos sobre voz, performance, escuta,memória e experiência humana.



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