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Pedra Bela,26/07/2026

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Maude Salazar

MEA CULPA

ALÉM DO ERRO, EU EXISTO


MEA CULPA

MEA CULPA | APOCALIPSE VOX®

Um ensaio sobre a culpa, a memória e o tribunalinterior.

Existe uma prisão que não precisa de muros.

Ela é construída por lembranças.

Começa com um erro.

Depois transforma esse erro numa memória.

E, lentamente, transforma a memória numaidentidade.

É nesse instante que a tradição lhe dá um nome.

Mea culpa.

Costumamos imaginar a culpa como um sentimento.

Algo que aparece depois do erro e desaparece com otempo.

Mas talvez sua forma mais profunda seja outra.

A incapacidade de deixar o passado permanecer nopassado.

Foi dessa inquietação que nasceu Mea Culpa, uma dascomposições da ópera rock APOCALIPSE VOX.

Escrita em latim, a obra não retrata um pecadordiante de Deus.

Retrata uma consciência diante de si mesma.

Desde os primeiros versos percebemos que ojulgamento já aconteceu.

“Guardo o que fiz como ferro aceso.”

O erro deixou de ser um acontecimento.

Tornou-se uma marca.

Uma inscrição invisível sobre a própria existência.

Por isso a canção continua:

“Cada passo retorna ao mesmo lugar.”

A culpa raramente caminha para frente.

Ela gira.

Repete.

Reconstrói o mesmo instante até convencer aconsciência de que nada mais existe além dele.

Então o coral retorna.

“Mea culpa.
Mea culpa.”

Mas a frase seguinte muda completamente o sentidoda antiga oração.

“Eu me ajoelho diante de mim.”

Já não existe tribunal exterior.

O juiz habita a própria consciência.

A sentença é repetida todos os dias.

E não existe condenação mais severa do que aquela pronunciadapela própria voz.

A música então nos conduz a um dos versos maisinquietantes da obra.

“Quem me acusa usa minha voz.
Quem me julga respira em mim.”

Talvez seja esse o verdadeiro rosto da culpa.

Ela aprende a falar como se fosse a própriaconsciência.

Já não parece uma acusação.

Parece verdade.

Mas a obra faz uma pergunta inesperada.

“E se não existe culpa,
quem construiu este altar?”

Não é uma negação da responsabilidade.

Também não é uma tentativa de apagar o passado.

A pergunta é outra.

Em que momento deixamos de reconhecer um erro paracomeçar a adorá-lo?

Porque toda culpa que permanece tempo suficienteacaba exigindo rituais.

Memórias repetidas.

Acusações repetidas.

Condenações repetidas.

Até que o ser humano passe a acreditar que nãocarrega uma culpa.

É a própria culpa.

Mas então a música silencia.

E, pela primeira vez, rompe o ciclo.

“Non sum culpa.”

“Não sou culpa.”

Não é um pedido de absolvição.

É um reconhecimento.

Existe uma diferença entre responder pelos própriosatos e transformar os próprios atos em identidade.

É dessa separação que nasce a liberdade.

Nos versos finais ouvimos:

“Se eu observo, isso se rompe.
Se eu não alimento, isso cai.”

A culpa continua existindo.

O passado também.

Mas já não ocupa o centro da consciência.

Porque aquilo que pode ser observado jamais éaquilo que observa.

E então resta apenas uma afirmação.

Talvez a mais importante de toda a obra.

“Eu existo.
Além do erro e do peso antigo.”

MEA CULPA não fala sobre esquecer.

Nem sobre inocência.

Fala sobre um instante raro.

O instante em que a consciência compreende que podeassumir toda a verdade do passado sem entregar a ele o direito de definir quemela é.


Maúde Salazar é cantora lírica, escritora epesquisadora da voz.

Doutoranda em Psicanálise e Teologia, dedica-se àinvestigação da vocalidade humana em suas dimensões artísticas, simbólicas,culturais e subjetivas.

Ao longo de mais de quatro décadas de atuaçãoprofissional, construiu uma trajetória que articula canto, pesquisa, escrita eformação artística, desenvolvendo trabalhos sobre voz, performance, escuta,memória e experiência humana.



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