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Pedra Bela,18/08/2026

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Olívia Vieira

Cambuquira: as águas minerais que contam a história e sustentam o futuro da cidade


Cambuquira: as águas minerais que contam a história e sustentam o futuro da cidade

No Sul de Minas Gerais, fontes de diferentes composições transformaram Cambuquira em estância hidromineral, patrimônio cultural e destino turístico. Preservá-las significa proteger a memória, a economia e a identidade da população.

Em Cambuquira, a água não serve apenas para matar a sede. Ela brota da terra carregando minerais, histórias, lembranças e uma relação profunda com os moradores. Foi ao redor dessas nascentes que a cidade cresceu, recebeu visitantes e construiu boa parte de sua identidade.

Localizada no Sul de Minas Gerais e integrante do tradicional Circuito das Águas, Cambuquira possui um conjunto de fontes minerais que se tornou seu principal patrimônio natural e turístico. O Parque das Águas, no centro da cidade, reúne fontes com características distintas, enquanto outras nascentes estão localizadas nas regiões do Marimbeiro e do Laranjal.

Segundo a Prefeitura, o município possui águas classificadas, conforme sua composição, como ferruginosa, alcalina, magnesiana, sulfurosa, gasosa e com presença de lítio. Essa diversidade é resultado do percurso subterrâneo realizado pela água, que entra em contato com diferentes rochas e minerais antes de retornar à superfície. Prefeitura de Cambuquira.

Águas minerais ou termais?

Cambuquira é frequentemente apresentada como uma cidade de águas termais. Entretanto, o termo mais preciso para caracterizar sua vocação histórica é estância hidromineral.

De acordo com o Serviço Geológico do Brasil, água mineral é aquela obtida diretamente de fontes naturais ou da extração de águas subterrâneas, apresentando características relacionadas à sua composição química, propriedades físicas ou presença de determinados minerais.

Já a classificação termal considera a temperatura da água na nascente. Portanto, a palavra “termal” não significa, obrigatoriamente, que todas as fontes sejam quentes como piscinas aquecidas. Algumas podem ser classificadas tecnicamente como frias, hipotermais, mesotermais ou hipertermais, dependendo da temperatura registrada no ponto de surgência. Serviço Geológico do Brasil e Codemge.

O grande diferencial de Cambuquira está principalmente na variedade de suas águas minerais e na gaseificação natural de algumas fontes.

Uma cidade que nasceu em torno das fontes

A história de Cambuquira está diretamente relacionada à procura por suas águas. O registro histórico disponibilizado pelo IBGE relata que as notícias sobre as propriedades atribuídas às nascentes atraíam visitantes para a antiga Fazenda Boa Vista, área onde se desenvolveu o município.

Em 1861, a Câmara Municipal de Campanha considerou a propriedade de utilidade pública e promoveu sua desapropriação. Posteriormente, em 1874, as terras foram vendidas ao Estado de Minas Gerais.

O relato do IBGE também registra uma parte pouco conhecida dessa história: a área central da fazenda havia sido deixada como herança a antigos escravizados da família Silva Gularte. Esses proprietários temiam perder as terras diante da chegada crescente de pessoas atraídas pelas fontes. A formação da cidade, portanto, também carrega uma história de disputas territoriais, pertencimento e resistência da população negra. IBGE — Histórico de Cambuquira.

Com o passar do tempo, hotéis, pensões, estabelecimentos comerciais e serviços foram criados para receber os chamados “aquáticos”, visitantes que permaneciam por temporadas nas estâncias em busca de repouso e tratamentos baseados no uso das águas.

Nas primeiras décadas do século XX, Cambuquira já aparecia em anúncios e publicações nacionais ao lado de Caxambu, Lambari e São Lourenço. Uma pesquisa histórica sobre as estâncias hidrominerais mineiras identificou, por exemplo, uma propaganda publicada em 1907 que apresentava essas localidades como produtoras de águas naturalmente gaseificadas. Fundação Cultural de Varginha.

O Parque das Águas como patrimônio

Mais do que um ponto de visitação, o Parque das Águas representa a memória afetiva dos cambuquirenses. É um espaço de convivência, caminhada, descanso e encontro entre gerações.

As fontes, os fontanários, o balneário, os jardins e a arquitetura constituem uma paisagem cultural na qual natureza e história não podem ser separadas. A Prefeitura relaciona o Parque das Águas entre os bens culturais inventariados do município. Prefeitura de Cambuquira.

A importância do local também aparece nas iniciativas recentes destinadas a ampliar sua utilização turística. Em 2024, a Prefeitura abriu processo para a exploração de lojas e do balneário, prevendo atividades, serviços e experiências ligadas à temática da água mineral. A proposta demonstra que existe interesse em recuperar a vocação turística do parque e criar novas oportunidades econômicas. Prefeitura de Cambuquira.

Essa exploração, entretanto, precisa respeitar a capacidade das fontes, a conservação da arquitetura e o direito da população de continuar frequentando o espaço.

Saúde: tradição não substitui orientação médica

Durante muitos anos, as estâncias hidrominerais brasileiras foram procuradas para a chamada crenoterapia, prática que utiliza águas minerais em banhos ou ingestão orientada.

Em Cambuquira, diferentes fontes passaram a ser tradicionalmente associadas ao sistema digestivo, à reposição de sais minerais e ao bem-estar. Essas indicações fazem parte da história da cidade e do conhecimento transmitido entre gerações.

Contudo, é necessário ter cautela. A composição varia de uma fonte para outra, e a presença de determinado mineral não transforma automaticamente a água em medicamento. Alegações de cura precisam ser sustentadas por estudos clínicos, análises atualizadas e orientação de profissionais da saúde.

Pessoas com doenças renais, cardiovasculares, pressão alta, restrições de sódio, crianças, gestantes e idosos devem evitar o consumo excessivo ou prolongado sem aconselhamento médico.

A Codemge mantém contratos para análises químicas e microbiológicas das fontes sob seus direitos minerários, indicando a necessidade de controle contínuo da qualidade. Em novembro de 2025, a companhia contratou serviços para coleta, análise química e microbiológica no Circuito das Águas. Codemge.

Turismo, emprego e desenvolvimento local

As águas podem movimentar uma ampla cadeia econômica: hotéis, restaurantes, cafeterias, artesanato, comércio, transporte, guias turísticos, eventos culturais e atividades de bem-estar.

Cambuquira tem condições de combinar o turismo das águas com outras riquezas locais, como a gastronomia mineira, a produção de café, o patrimônio arquitetônico, as áreas verdes, as cachoeiras, o Pico do Piripau e o turismo de observação astronômica.

O desafio é transformar visitantes de passagem em turistas que permaneçam mais tempo na cidade. Para isso, não basta divulgar a qualidade das águas. É necessário investir na manutenção do parque, na sinalização, na acessibilidade, na formação de guias, na programação cultural e na integração entre os atrativos urbanos e rurais.

Um turismo bem organizado pode gerar renda sem romper a relação da comunidade com as fontes. Ao contrário: pode valorizar os moradores como guardiões desse patrimônio.

Água como riqueza ou mercadoria?

As fontes de Cambuquira também estão no centro de um debate sobre exploração econômica e preservação ambiental.

Um estudo desenvolvido por pesquisadores vinculados à Universidade Federal de Lavras e à Universidade do Estado de Minas Gerais identificou duas visões em disputa. De um lado, a água é entendida como bem público, direito humano, patrimônio cultural e base do turismo. Do outro, aparece como mercadoria e recurso sujeito à exploração comercial.

A pesquisa defende uma gestão compartilhada, capaz de considerar diferentes usos e promover a participação da população nas decisões. Management in Perspective — Universidade Federal de Uberlândia.

O engarrafamento pode gerar empregos, receitas e divulgação para a cidade, mas a retirada precisa respeitar os limites naturais dos aquíferos. A extração acima da capacidade de reposição pode alterar a vazão, a pressão, a gaseificação e até a composição das fontes.

Também é necessário proteger as áreas onde a água da chuva penetra no solo e abastece o sistema subterrâneo. Desmatamento, impermeabilização, perfurações inadequadas, contaminação e ocupação desordenada podem afetar uma nascente mesmo quando ocorrem longe do fontanário.

Preservar hoje para continuar brotando amanhã

A maior importância das águas de Cambuquira talvez esteja na união de várias dimensões. Elas são recurso natural, patrimônio cultural, atração turística, elemento econômico e parte da vida cotidiana da comunidade.

Não se trata apenas de perguntar quanto pode ser engarrafado ou comercializado. É preciso perguntar quanto precisa permanecer protegido para que as fontes continuem existindo.

Cambuquira recebeu da natureza uma riqueza rara, mas essa herança exige responsabilidade pública, fiscalização, monitoramento científico e participação popular. Recuperar o turismo hidromineral não significa repetir o passado, e sim construir um modelo atualizado, sustentável e acessível.

Enquanto suas águas continuarem brotando, Cambuquira manterá viva uma história que nasceu debaixo da terra, atravessou gerações e se transformou na própria identidade da cidade.

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