Beto Guimarães Takeshi
América Latina ultrapassa 10 mil ônibus elétricos e avança na transformação do transporte público
São Paulo, Santiago e Bogotá lideram a transição para uma mobilidade urbana mais limpa; frota elétrica já está presente em mais de 80 cidades de 13 países
por Beto Guimarães Takeshi - Jornal Iconic
A América Latina alcançou um marco histórico na busca por cidades menos poluídas: mais de 10 mil ônibus elétricos já estão em circulação na região. Os veículos operam em mais de 80 cidades de 13 países, segundo dados consolidados pela plataforma E-Bus Radar e divulgados pela rede C40 Cities e pelo Conselho Internacional de Transporte Limpo — ICCT.
O resultado mostra que a eletrificação do transporte público deixou de ser apenas uma experiência isolada para se transformar em uma política urbana em expansão. Santiago, no Chile, São Paulo, no Brasil, e Bogotá, na Colômbia, concentram juntas mais de 7 mil veículos elétricos, liderando essa mudança no continente. C40 Cities
A estimativa apresentada pelas organizações é que a operação da frota regional evite mais de 10 milhões de toneladas de dióxido de carbono por ano. Além de contribuir para o enfrentamento das mudanças climáticas, a substituição dos ônibus a diesel reduz a emissão de poluentes associados a doenças respiratórias e cardiovasculares.
São Paulo assume posição de destaque
A capital paulista aparece como a segunda cidade latino-americana com a maior frota elétrica, atrás apenas de Santiago. São Paulo chegou a 1.759 veículos eletrificados, sendo 1.570 ônibus movidos exclusivamente a bateria e 189 trólebus.
De acordo com os dados apresentados pela C40, a frota paulistana evita aproximadamente 130 mil toneladas de emissões de CO₂ por ano, além de reduzir o consumo anual de diesel em cerca de 57 milhões de litros.
O crescimento foi impulsionado pela incorporação de 500 ônibus elétricos de uma só vez, em junho de 2026. Para uma cidade que transporta diariamente milhões de passageiros, a mudança representa não apenas uma renovação tecnológica, mas uma transformação com efeitos diretos sobre a qualidade do ar e a saúde da população.
Em agosto, São Paulo recebeu autorização para contratar financiamentos internacionais com o Banco Interamericano de Desenvolvimento e o Banco Mundial. Dos recursos previstos, cerca de R$ 2,56 bilhões deverão ser destinados à ampliação da eletrificação, com a previsão de incorporar mais de 1.100 veículos elétricos ao sistema municipal. Prefeitura de São Paulo
Benefícios que vão além do meio ambiente
Os ônibus elétricos não emitem gases poluentes pelo escapamento durante sua operação e produzem muito menos ruído do que os veículos convencionais. Para quem espera no ponto, mora próximo aos corredores de transporte ou passa horas trabalhando dentro dos coletivos, essa diferença pode ser sentida no cotidiano.
A redução do barulho torna as viagens mais confortáveis e melhora as condições de trabalho dos motoristas. A diminuição da poluição atmosférica também beneficia principalmente crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias, grupos mais vulneráveis à má qualidade do ar.
A eletrificação ainda pode incentivar a criação de empregos ligados à fabricação de veículos, baterias, sistemas de recarga, manutenção especializada e produção de energia limpa. Dessa maneira, a transição ambiental pode caminhar junto com o desenvolvimento tecnológico e econômico da região.
Desafios ainda precisam ser enfrentados
Apesar do avanço, substituir ônibus a diesel exige investimentos elevados. Além da compra dos veículos, as cidades precisam adaptar garagens, ampliar a rede elétrica, instalar carregadores e capacitar trabalhadores para a manutenção dos novos sistemas.
O preço inicial de um ônibus elétrico continua superior ao de um modelo convencional. Em contrapartida, os veículos podem apresentar custos menores de operação e manutenção ao longo de sua vida útil, especialmente pela redução do consumo de combustível e pela menor quantidade de componentes mecânicos.
Também é necessário discutir a origem da eletricidade utilizada, a durabilidade das baterias e sua destinação ao final da vida útil. Uma mobilidade realmente sustentável depende de planejamento para toda a cadeia, desde a produção dos equipamentos até a reciclagem dos materiais.
Um novo caminho para as cidades
A chegada aos 10 mil ônibus elétricos não significa que o problema da poluição urbana esteja resolvido. A frota a diesel ainda é predominante em grande parte da América Latina e muitas cidades sequer iniciaram sua transição.
Mesmo assim, o marco revela que a mudança é possível. Quando grandes capitais como Santiago, São Paulo e Bogotá adotam a eletrificação em larga escala, criam experiências que podem servir de referência para outros municípios.
Mais do que trocar motores, eletrificar o transporte público significa repensar o modelo de cidade que se deseja construir. Uma cidade com ar mais limpo, ruas menos barulhentas e deslocamentos mais confortáveis. Para milhões de latino-americanos, essa transformação já começou — e passa todos os dias diante dos pontos de ônibus.
Fontes consultadas: C40 Cities, Prefeitura de São Paulo e E-Bus Radar.



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