Solteiros sul-coreanos buscam o par ideal em retiro em templo budista enquanto país enfrenta crise demográfica
Experiência combina espiritualidade, convivência e reflexão para aproximar jovens em busca de relacionamentos duradouros
Em meio à maior crise demográfica de sua história, a Coreia do Sul tem apostado em iniciativas pouco convencionais para incentivar a formação de casais. Uma das mais curiosas acontece no histórico Templo Naksansa, onde jovens solteiros participam de um retiro budista de dois dias que mistura espiritualidade, meditação, convivência e atividades voltadas ao fortalecimento da confiança entre os participantes. A proposta vai muito além de um simples "encontro às cegas": busca criar um ambiente propício para conexões humanas mais profundas.
O programa, organizado pela Fundação Budista Coreana para o Bem-Estar Social, foi criado em 2023 como parte de um esforço para enfrentar a queda contínua da taxa de natalidade do país, considerada a mais baixa do mundo. O sucesso da iniciativa tem crescido rapidamente. Na edição realizada em julho de 2026, impressionantes 4.225 pessoas se candidataram para apenas 20 vagas, um recorde desde o lançamento do projeto.
Um encontro diferente dos aplicativos
Ao contrário dos aplicativos de relacionamento, onde decisões são tomadas em poucos segundos com base em fotografias, o retiro propõe desacelerar.
Vestindo roupas tradicionais do templo, os participantes são convidados a compartilhar experiências ao longo de um fim de semana inteiro. As atividades incluem caminhadas silenciosas, cerimônias do chá, meditação, yoga à beira-mar, conversas individuais e exercícios de confiança — como caminhar vendado enquanto outra pessoa orienta o caminho sob a supervisão de um monge budista. O objetivo é incentivar a escuta, a empatia e o conhecimento mútuo antes de qualquer decisão afetiva.
As duplas são formadas de maneira aleatória, utilizando sorteios ou objetos pessoais levados pelos próprios participantes, reduzindo a influência de julgamentos superficiais.
A crise demográfica por trás da iniciativa
A Coreia do Sul enfrenta um dos maiores desafios populacionais do planeta.
O governo estima que a população atual, de aproximadamente 51,8 milhões de habitantes, poderá encolher quase um terço até 2072 caso a tendência continue. Embora a taxa de fecundidade tenha apresentado uma leve recuperação — passando de 0,75 filho por mulher em 2024 para 0,80 em 2025 — o índice permanece muito abaixo do necessário para a reposição populacional, estimada em cerca de 2,1 filhos por mulher.
Especialistas apontam diversos fatores para essa realidade:
alto custo da moradia;
jornadas intensas de trabalho;
insegurança econômica;
dificuldade de equilibrar carreira e vida familiar;
mudanças culturais sobre casamento e maternidade.
Nesse contexto, o retiro budista procura atuar justamente na primeira etapa desse processo: facilitar que pessoas interessadas em relacionamentos estáveis possam se conhecer em um ambiente mais humano.
"Aqui conhecemos as pessoas de verdade"
Para muitos participantes, o diferencial está justamente na atmosfera criada pelo templo.
A participante Choi Ye-ri, de 30 anos, afirmou à Reuters que decidiu participar porque acreditava que encontraria pessoas realmente interessadas em construir um relacionamento sério. Já Kim Do-yeon destacou que conversar em um ambiente espiritual proporciona uma experiência completamente diferente daquela vivida nos encontros tradicionais, permitindo conhecer alguém de forma mais sincera e tranquila.
Segundo o venerável Doryun, dirigente da Fundação Budista Coreana para o Bem-Estar Social, o objetivo não é apenas formar casais, mas incentivar uma reflexão coletiva sobre o futuro demográfico do país e sobre novas formas de fortalecer os vínculos sociais.
Um modelo que desperta interesse internacional
A experiência sul-coreana chama atenção por unir tradição religiosa e um problema contemporâneo.
Enquanto muitos países investem exclusivamente em incentivos financeiros para estimular casamentos e nascimentos, o retiro parte de uma lógica diferente: criar oportunidades para que as pessoas estabeleçam relações de confiança antes mesmo de pensar em constituir família.
Embora seja impossível medir o impacto direto da iniciativa sobre a taxa de natalidade, o número crescente de inscrições demonstra que muitos jovens ainda desejam encontrar um parceiro, mas buscam ambientes mais acolhedores e menos competitivos do que aqueles oferecidos pelas redes sociais e pelos aplicativos de namoro.
Mais do que um retiro espiritual, o programa tornou-se um retrato das transformações sociais da Coreia do Sul: um país altamente tecnológico que, diante da solidão crescente e do envelhecimento populacional, redescobre na simplicidade dos templos budistas um espaço para aproximar pessoas e, talvez, ajudar a escrever um novo capítulo de sua história demográfica.
por Helen Marck




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