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Pedra Bela,22/10/2026

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Do voto de cabresto aos algoritmos: manipulação política nas eleições

Se no passado o eleitor era vigiado pelos coronéis, hoje redes sociais, desinformação, inteligência artificial e exploração de dados pessoais criam formas mais silenciosas de interferir na liberdade de escolha.

Por Sonia Mathias - Jornal Iconic

Durante a República Velha, o controle político tinha rosto, endereço e território. O coronel conhecia os eleitores, dominava economicamente a região e utilizava sua influência para determinar em quem cada pessoa deveria votar. Mais de um século depois, a urna tornou-se secreta e o processo eleitoral ganhou instituições de fiscalização, mas as tentativas de manipular a vontade popular não desapareceram.

Elas mudaram de método.

O antigo cabo eleitoral que fiscalizava o voto foi substituído, em parte, por sistemas digitais capazes de identificar preferências, medos e insatisfações. O comício na praça passou a dividir espaço com vídeos curtos, mensagens encaminhadas em grupos privados, anúncios direcionados e conteúdos selecionados por algoritmos.

A manipulação contemporânea já não precisa obrigar fisicamente o eleitor a escolher determinado candidato. Muitas vezes, basta controlar ou distorcer as informações que chegam até ele.

Quando o voto não era verdadeiramente livre

O chamado voto de cabresto marcou especialmente a política brasileira durante a Primeira República, entre 1889 e 1930. Naquele período, o voto não era secreto e grande parte da população dependia economicamente de proprietários rurais e chefes políticos locais, conhecidos como coronéis.

Esses líderes exerciam influência sobre empregos, terras, favores, segurança e acesso a serviços básicos. Eleitores podiam ser pressionados, ameaçados ou obrigados a votar nos candidatos indicados pelos grupos dominantes.

Fraudes também eram frequentes. Registros podiam ser adulterados, pessoas votavam mais de uma vez e até nomes de mortos apareciam nas listas eleitorais. A expressão “eleição a bico de pena” descrevia justamente os resultados fabricados por meio de atas e documentos preenchidos conforme os interesses das elites.

A Câmara dos Deputados registra que as fraudes e o voto de cabresto eram comuns, permitindo aos detentores do poder econômico e político manipular os resultados. Câmara dos Deputados

A criação da Justiça Eleitoral, em 1932, e a adoção do voto secreto representaram avanços decisivos. O objetivo era retirar das mãos dos chefes políticos locais o controle da votação e garantir maior liberdade ao eleitor. Senado Federal

Rádio e televisão transformam a propaganda

Com a urbanização e o crescimento dos meios de comunicação, a influência política ganhou novas dimensões. O rádio permitiu que discursos presidenciais e campanhas alcançassem milhões de pessoas ao mesmo tempo. A voz, a emoção e a repetição das mensagens passaram a exercer papel importante na construção da imagem pública dos governantes.

Mais tarde, a televisão ampliou esse poder. Aparência, gestos, enquadramento, trilha sonora e edição passaram a influenciar a percepção do eleitor. Um debate eleitoral já não era avaliado apenas pelas propostas apresentadas, mas também pelo desempenho diante das câmeras.

A televisão contribuiu para democratizar o acesso às informações políticas, mas também favoreceu campanhas baseadas na imagem, na simplificação das mensagens e no uso intensivo de técnicas publicitárias.

O eleitor deixou de estar diante do coronel da cidade, mas passou a conviver com uma comunicação profissionalizada, planejada para despertar emoções, criar identificação e conduzir escolhas.

Pesquisas informam, mas podem ser distorcidas

As pesquisas eleitorais tornaram-se instrumentos importantes para compreender as tendências do eleitorado. Quando realizadas com metodologia adequada, margem de erro informada e registro na Justiça Eleitoral, elas ajudam a retratar determinado momento da disputa.

O problema aparece quando os números são apresentados de maneira distorcida. Uma pesquisa pode ser utilizada para criar a sensação de que uma candidatura já venceu, estimular o chamado voto útil ou desmobilizar eleitores de adversários.

Também existe confusão entre pesquisa e enquete. Pesquisa eleitoral exige metodologia científica, definição de amostra e registro. Enquete é apenas uma consulta informal, sem controle representativo. O resultado de uma votação feita em uma página da internet não pode ser apresentado como retrato da opinião da sociedade.

Nas eleições de 2026, as empresas responsáveis por pesquisas destinadas ao conhecimento público precisam registrar seus levantamentos no sistema PesqEle até cinco dias antes da divulgação. Desde o início oficial da propaganda, em 16 de agosto, enquetes relacionadas ao processo eleitoral não podem ser realizadas ou divulgadas. Calendário eleitoral do TSE

O novo poder dos algoritmos

Nas redes sociais, o cidadão não recebe necessariamente as informações mais importantes ou verdadeiras. Ele recebe conteúdos selecionados por sistemas automatizados.

Os algoritmos analisam curtidas, comentários, compartilhamentos, tempo de visualização, pesquisas e outros comportamentos. Com esses dados, as plataformas procuram prever o que manterá cada pessoa conectada por mais tempo.

Essa seleção pode criar uma visão limitada da realidade. O usuário passa a receber repetidamente conteúdos semelhantes àquilo em que já acredita, enquanto opiniões diferentes aparecem com menor frequência. Formam-se as chamadas bolhas informacionais.

O risco aumenta porque conteúdos que provocam medo, indignação ou revolta geralmente despertam mais reações. A desinformação pode ganhar velocidade não por ser verdadeira, mas porque é emocionalmente atraente.

A Unesco alerta que algoritmos voltados à maximização do engajamento podem favorecer conteúdos de baixa confiabilidade. A instituição defende mais transparência sobre o funcionamento das plataformas e maior responsabilidade na moderação. Unesco

O cabresto antigo era visível. O algoritmo é silencioso: seleciona o que cada pessoa vê sem revelar integralmente por que determinado conteúdo apareceu.

A política do medo e da indignação

A manipulação digital não depende apenas de notícias completamente falsas. Ela também pode utilizar informações verdadeiras retiradas de contexto, imagens antigas apresentadas como atuais, títulos enganosos, cortes de entrevistas e estatísticas sem explicação.

Outra estratégia é repetir uma afirmação tantas vezes que ela passa a ser percebida como verdadeira. Contas automatizadas e redes coordenadas podem criar artificialmente a impressão de que um assunto domina a opinião pública.

Nesse ambiente, a disputa eleitoral deixa de acontecer apenas entre programas de governo. Ela passa a envolver narrativas construídas para despertar medo, raiva, ressentimento ou desconfiança.

O objetivo nem sempre é convencer o eleitor a apoiar alguém. Pode ser suficiente confundi-lo, desmobilizá-lo ou fazê-lo desacreditar das instituições, do jornalismo e do próprio processo eleitoral.

Inteligência artificial eleva o risco

A inteligência artificial generativa permite produzir textos, fotografias, áudios e vídeos falsos com aparência cada vez mais convincente.

Por meio dos chamados deepfakes, é possível simular a voz ou a imagem de uma pessoa e fazê-la parecer responsável por declarações que nunca fez. Um vídeo falso publicado poucas horas antes de uma eleição pode circular rapidamente, alcançar milhões de pessoas e causar danos antes que sua falsidade seja comprovada.

A mesma tecnologia pode ser empregada para criar grande quantidade de perfis, mensagens e comentários, dando aparência de apoio popular espontâneo a uma determinada narrativa.

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico alerta que a inteligência artificial aumenta o risco de desinformação porque consegue produzir conteúdos falsos com aparência confiável e distribuí-los em grande escala. OCDE

O que determinam as regras para 2026

O Tribunal Superior Eleitoral estabeleceu normas específicas para o uso da inteligência artificial na propaganda de 2026. Conteúdos sintéticos ou manipulados devem apresentar aviso explícito, destacado e acessível, informando o uso de IA e a tecnologia empregada.

A legislação eleitoral proíbe deepfakes e conteúdos fabricados ou manipulados destinados a difundir falsidades capazes de prejudicar ou favorecer candidaturas ou comprometer a integridade do processo eleitoral. Também proíbe o uso de sistemas de inteligência artificial para criar ou disseminar desinformação eleitoral.

As obrigações não recaem apenas sobre candidatos e partidos. Dependendo do caso, provedores e plataformas podem ser responsabilizados pela circulação de conteúdos irregulares quando deixam de cumprir as determinações aplicáveis. Regras do TSE sobre inteligência artificial

Na internet, a propaganda eleitoral paga é proibida, com exceção do impulsionamento realizado conforme as regras eleitorais. Esse impulsionamento deve ser contratado pelos agentes autorizados e identificado como publicidade. TSE — propaganda eleitoral em 2026

Nem toda influência é manipulação

É preciso diferenciar persuasão política legítima de manipulação.

Apresentar propostas, defender ideias, criticar decisões públicas e tentar conquistar votos fazem parte da democracia. A liberdade de expressão protege o debate político, inclusive manifestações contundentes.

A manipulação acontece quando são utilizados engano, ameaça, ocultação deliberada, fraude, abuso do poder econômico, falsificação de conteúdos ou exploração clandestina de dados para impedir uma escolha verdadeiramente livre.

Combater a desinformação também não pode servir de justificativa para censurar críticas, opiniões ou o trabalho da imprensa. O desafio democrático é proteger simultaneamente a liberdade de expressão e a integridade das informações.

Como o eleitor pode se proteger

Nenhuma legislação, sozinha, conseguirá impedir toda tentativa de manipulação. A proteção também depende de uma atitude crítica do eleitor.

Antes de compartilhar uma informação política, é necessário verificar quem publicou, quando o conteúdo foi produzido e se outros veículos confiáveis confirmam o fato. Vídeos muito curtos, imagens sem origem e mensagens que exigem compartilhamento imediato merecem atenção redobrada.

Também é importante consultar diretamente os planos de governo, acompanhar entrevistas completas e comparar diferentes fontes. Quando uma publicação desperta raiva ou medo instantaneamente, vale interromper a reação e verificar seu contexto.

No caso das pesquisas, o cidadão pode consultar o registro no PesqEle e observar quem contratou o levantamento, o tamanho da amostra, as datas das entrevistas e a margem de erro.

O direito de escolher sem cabresto

A história eleitoral brasileira revela uma disputa permanente entre a liberdade do voto e as tentativas de controlar a vontade popular.

O voto de cabresto dependia da vigilância do coronel. A propaganda de massa utilizou o alcance do rádio e da televisão. A manipulação digital opera com dados pessoais, segmentação, velocidade e conteúdos personalizados.

Apesar das diferenças, permanece o mesmo objetivo: reduzir a autonomia do eleitor.

A tecnologia também pode fortalecer a democracia, ampliar o acesso às informações e aproximar representantes e cidadãos. O problema não está na ferramenta, mas na maneira como ela é utilizada, em quem controla seus mecanismos e na falta de transparência.

Em 2026, defender eleições livres significa mais do que proteger a urna. Significa garantir que o cidadão possa formar sua opinião sem ameaças, mentiras fabricadas ou sistemas invisíveis capazes de explorar suas vulnerabilidades.



























































O antigo cabresto podia ser visto. O atual cabe na tela do celular e, muitas vezes, apresenta-se como se fosse uma escolha espontânea




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