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Pedra Bela,23/09/2026

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A conta que nunca fecha: Cúpula do Clima 2026 reabre a pergunta que o Sul Global faz há 17 anos — cadê o dinheiro?

por Lou Moreira - Jornal Iconic

Nova York — Foi a última cúpula climática de António Guterres à frente da ONU, e ele não poupou a indústria do petróleo. Um dia antes de reunir chefes de Estado e de governo na sede da organização para o Evento de Alto Nível sobre Ação Climática e Transição Justa, o secretário-geral acusou as grandes petroleiras de terem tratado a atmosfera como um lixão a céu aberto durante décadas — e de terem lucrado com as consequências. Guterres comparou dois números: os 500 bilhões de dólares em lucros somados pelas grandes companhias de petróleo e gás desde o início de 2022 e os 34 bilhões de dólares disponibilizados no mesmo período para ajudar países em desenvolvimento a se adaptarem ao aquecimento global. A proporção — quinze vezes mais lucro que ajuda — é o retrato mais cru da desigualdade que a cúpula desta quarta-feira tenta, mais uma vez, discutir.

Convocado dez anos depois do Acordo de Paris, o encontro reúne as principais economias do mundo, nações vulneráveis e os maiores produtores e consumidores de energia para debater três frentes: acelerar a transição para renováveis, ampliar o financiamento climático acessível para países em desenvolvimento e reforçar o apoio a comunidades que já sofrem os efeitos do clima extremo. Turquia e Austrália, que dividirão a organização da COP31 em Antália, em novembro, discursam como copresidentes do evento. É, também, a despedida climática de Guterres: seu mandato termina em dezembro, logo depois da conferência turca.

A meta que só foi cumprida com dois anos de atraso — e a que ainda nem começou

A pergunta que dá título a esta reportagem tem uma resposta histórica desconfortável. Em 2009, os países desenvolvidos prometeram mobilizar coletivamente 100 bilhões de dólares por ano até 2020 para apoiar a ação climática nas nações mais pobres. Segundo a OCDE, essa meta só foi cumprida em 2022 — dois anos depois do prazo, e treze anos depois da promessa original. Foram anos de relatórios da própria ONU reconhecendo que o volume prometido, mesmo se cumprido à risca, era insuficiente diante da escala da crise: um levantamento da convenção do clima já indicava, na época, que seriam necessários pelo menos 500 bilhões de dólares no período 2020–2024 apenas para cobrir o mínimo.

Diante disso, a COP29, no Azerbaijão, tentou virar a página com uma Nova Meta Quantificada Coletiva de financiamento climático, para substituir os 100 bilhões anuais por um valor mais realista. Mas o histórico de atraso deixou marcas nas negociações: definir quem paga, quanto paga e o que conta como "financiamento climático" — empréstimos e investimentos privados incluídos, muitas vezes, na mesma conta de doações — segue sendo um dos pontos mais disputados de cada cúpula.

Foi a COP30, sediada em Belém, que tentou dar um passo além, lançando a meta de mobilizar 1,3 trilhão de dólares por ano até 2035 e criando o chamado Mutirão Global, iniciativa da presidência brasileira para articular governos, sociedade civil e empresas na execução, não apenas na promessa, desse financiamento. Um ano depois, a Assembleia Geral da ONU estima que os investimentos globais em energia limpa devem somar 3,4 trilhões de dólares em 2026, dos quais 2,2 trilhões apenas em energias sustentáveis. O problema, reconhece a própria ONU, é que os recursos disponíveis para os países mais pobres seguem escassos e caros, o que amplia o endividamento das nações do Sul global justamente quando elas mais precisam investir em adaptação.

O fundo que existe no papel, mas depende da boa vontade

Há ainda uma segunda frente de cobrança, separada do financiamento para mitigação: o Fundo para Perdas e Danos, criado na COP28 para compensar países que já sofrem prejuízos irreversíveis ilhas que desaparecem, secas que destroem safras, enchentes que arrasam cidades inteiras. O problema estrutural do fundo é conhecido dos negociadores havia anos antes mesmo de ele existir: todas as contribuições são voluntárias. Não há mecanismo de cobrança, meta obrigatória nem sanção para quem não contribui — o que, na prática, devolve à arena da vontade política um mecanismo que deveria ser de reparação.

A transição "justa" para quem exporta a matéria-prima

O ângulo menos discutido da cúpula desta semana é o que diz respeito à própria definição de "transição justa". Segundo a cobertura oficial da ONU sobre o evento, o financiamento prometido deveria também garantir que nações produtoras de minerais críticos — lítio, cobalto, terras raras, fundamentais para baterias e painéis solares — consigam agregar valor à própria produção, em vez de seguir apenas exportando matéria-prima bruta para que a industrialização verde aconteça em outro lugar. É o mesmo padrão histórico de dependência que moveu a economia colonial: o Sul fornece o insumo, o Norte fica com o valor agregado, agora sob a bandeira da energia limpa.

O que fica para o leitor












Passada mais uma cúpula climática, o padrão se repete: discursos duros contra a indústria fóssil, metas ambiciosas anunciadas para a década seguinte, e a lacuna entre o prometido e o entregue segue sendo preenchida majoritariamente por promessas. A cobrança de Guterres às petroleiras, 500 bilhões de lucro contra 34 bilhões de ajuda,resume por que o termo "greenwashing multilateral" resiste ano após ano: não é que a arquitetura financeira climática não exista. É que ela nunca operou, até hoje, na escala e na velocidade da emergência que diz enfrentar.




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