Rubens Bernardo Tomas
Fim de ano no Brasil: celebração para alguns, medo para muitas e muitos trans
2026 começa, mas a transfobia insiste em continuar
O calendário virou. O Brasil entrou em 2026 sob discursos de reconstrução democrática, promessas de direitos humanos e a retórica de um país que deseja se reencontrar consigo mesmo. No entanto, para mulheres e homens trans, o início do ano não representa necessariamente recomeço mas a continuidade de uma luta pela sobrevivência.
Se o fim de 2025 foi marcado por números alarmantes de violência, o começo de 2026 carrega uma pergunta incômoda: o que, de fato, mudou para a população trans no Brasil?
O país segue ocupando uma posição que deveria causar vergonha nacional. Em 2024, ao menos 105 pessoas trans foram assassinadas, segundo a Rede Trans Brasil, mantendo o Brasil como o país que mais mata pessoas trans no mundo. Ainda que o número represente leve queda em relação ao ano anterior, especialistas alertam: não há tendência de reversão estrutural, apenas oscilações estatísticas dentro de um cenário crônico de violência.
A maioria das vítimas continua tendo o mesmo perfil: mulheres trans e travestis, majoritariamente negras, jovens e em situação de vulnerabilidade social. Corpos considerados descartáveis por uma sociedade que falha sistematicamente em garantir direitos básicos como moradia, trabalho, saúde e segurança.
Violência que atravessa o réveillon e entra em janeiro
Datas festivas, como Natal e Ano Novo, intensificam o isolamento de muitas pessoas trans. Rejeições familiares, exposição em espaços públicos hostis e aumento do consumo de álcool fatores conhecidos por elevar índices de agressão tornam esse período ainda mais perigoso.
“O medo não entra em recesso”, afirma Isabella Santorinne, da Rede Trans Brasil. “Mesmo quando os números parecem cair, a violência cotidiana segue intacta. O que falta é política pública efetiva, orçamento e vontade política.”
Dados da Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos indicam que as denúncias de violência contra pessoas trans cresceram cerca de 45% em 2024, um sinal de que o preconceito não apenas persiste, mas se reorganiza agora também nos ambientes digitais, nas escolas e nos serviços públicos.
Viver em alerta: relatos que atravessam o país
Depoimentos coletados por organizações e plataformas independentes mostram que o início do ano não traz alívio emocional para muitas pessoas trans.
“Janeiro começa e a sensação é a mesma: olhar para os lados, calcular trajetos, medir palavras. A gente não planeja o futuro planeja sobreviver.”
Caique Moreira — homem trans, Sudeste do Brasil
Outro relato recorrente evidencia o impacto social mais amplo da transfobia:
“Fui agredida porque acharam que eu era trans. Isso mostra que o ódio não é só contra pessoas trans, é contra qualquer corpo que desafie padrões.”
Fernanda Toledo — mulher cis, relato registrado em grupo de apoio
Essas vozes revelam que a transfobia não é um problema individual, mas um projeto social de exclusão, que atinge toda a sociedade.
Especialistas alertam: sem ação, 2026 repetirá o passado
Pesquisadores em direitos humanos e ativistas internacionais apontam que o Brasil entra em 2026 diante de uma encruzilhada. Para a Transgender Europe (TGEU), há um crescimento global da violência direcionada não apenas a pessoas trans, mas especificamente a lideranças e ativistas, numa tentativa clara de silenciar resistências.
“Cada ativista assassinado é uma mensagem de intimidação coletiva”, alerta a organização. No Brasil, onde defensoras e defensores de direitos humanos já vivem sob risco, esse cenário exige respostas urgentes do Estado.
Expectativas para 2026: o que precisa acontecer
Se 2026 pretende ser mais do que uma mudança simbólica no calendário, algumas medidas são inadiáveis:
Políticas públicas com orçamento específico para população trans;
Dados oficiais unificados e transparentes sobre violência de gênero;
Formação obrigatória em diversidade e direitos humanos para forças de segurança;
Inserção real no mercado de trabalho, indo além de programas-piloto;
Educação antidiscriminatória, desde a infância, como política de Estado.
Sem isso, 2026 corre o risco de ser apenas mais um ano somado às estatísticas de morte.
Não é sobre expectativa é sobre responsabilidade
Esperança, para a população trans, não pode ser uma abstração. Ela precisa ser materializada em proteção, direitos e dignidade. O Brasil não pode continuar tratando a morte de pessoas trans como uma tragédia recorrente e inevitável.
O início de 2026 nos confronta com uma escolha coletiva: seguir naturalizando a transfobia ou enfrentá-la como a violação de direitos humanos que ela é.
Porque enquanto pessoas trans continuarem morrendo, não haverá novo ano — apenas a repetição de uma violência que já passou do limite do aceitável.
por Rubens Bernardo Tomas



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