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Pedra Bela,03/02/2026

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Rubens Bernardo Tomas

Fim de ano no Brasil: celebração para alguns, medo para muitas e muitos trans

Foto de Layton Findlater
Fim de ano no Brasil: celebração para alguns, medo para muitas e muitos trans

2026 começa, mas a transfobia insiste em continuar

O calendário virou. O Brasil entrou em 2026 sob discursos de reconstrução democrática, promessas de direitos humanos e a retórica de um país que deseja se reencontrar consigo mesmo. No entanto, para mulheres e homens trans, o início do ano não representa necessariamente recomeço mas a continuidade de uma luta pela sobrevivência.

Se o fim de 2025 foi marcado por números alarmantes de violência, o começo de 2026 carrega uma pergunta incômoda: o que, de fato, mudou para a população trans no Brasil?

O país segue ocupando uma posição que deveria causar vergonha nacional. Em 2024, ao menos 105 pessoas trans foram assassinadas, segundo a Rede Trans Brasil, mantendo o Brasil como o país que mais mata pessoas trans no mundo. Ainda que o número represente leve queda em relação ao ano anterior, especialistas alertam: não há tendência de reversão estrutural, apenas oscilações estatísticas dentro de um cenário crônico de violência.

A maioria das vítimas continua tendo o mesmo perfil: mulheres trans e travestis, majoritariamente negras, jovens e em situação de vulnerabilidade social. Corpos considerados descartáveis por uma sociedade que falha sistematicamente em garantir direitos básicos como moradia, trabalho, saúde e segurança.


Violência que atravessa o réveillon e entra em janeiro

Datas festivas, como Natal e Ano Novo, intensificam o isolamento de muitas pessoas trans. Rejeições familiares, exposição em espaços públicos hostis e aumento do consumo de álcool  fatores conhecidos por elevar índices de agressão  tornam esse período ainda mais perigoso.

O medo não entra em recesso”, afirma Isabella Santorinne, da Rede Trans Brasil. “Mesmo quando os números parecem cair, a violência cotidiana segue intacta. O que falta é política pública efetiva, orçamento e vontade política.”

Dados da Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos indicam que as denúncias de violência contra pessoas trans cresceram cerca de 45% em 2024, um sinal de que o preconceito não apenas persiste, mas se reorganiza  agora também nos ambientes digitais, nas escolas e nos serviços públicos.


Viver em alerta: relatos que atravessam o país

Depoimentos coletados por organizações e plataformas independentes mostram que o início do ano não traz alívio emocional para muitas pessoas trans.

“Janeiro começa e a sensação é a mesma: olhar para os lados, calcular trajetos, medir palavras. A gente não planeja o futuro  planeja sobreviver.”
Caique Moreira — homem trans, Sudeste do Brasil

Outro relato recorrente evidencia o impacto social mais amplo da transfobia:

“Fui agredida porque acharam que eu era trans. Isso mostra que o ódio não é só contra pessoas trans, é contra qualquer corpo que desafie padrões.”
Fernanda Toledo — mulher cis, relato registrado em grupo de apoio

Essas vozes revelam que a transfobia não é um problema individual, mas um projeto social de exclusão, que atinge toda a sociedade.


Especialistas alertam: sem ação, 2026 repetirá o passado

Pesquisadores em direitos humanos e ativistas internacionais apontam que o Brasil entra em 2026 diante de uma encruzilhada. Para a Transgender Europe (TGEU), há um crescimento global da violência direcionada não apenas a pessoas trans, mas especificamente a lideranças e ativistas, numa tentativa clara de silenciar resistências.

“Cada ativista assassinado é uma mensagem de intimidação coletiva”, alerta a organização. No Brasil, onde defensoras e defensores de direitos humanos já vivem sob risco, esse cenário exige respostas urgentes do Estado.


Expectativas para 2026: o que precisa acontecer

Se 2026 pretende ser mais do que uma mudança simbólica no calendário, algumas medidas são inadiáveis:

  • Políticas públicas com orçamento específico para população trans;

  • Dados oficiais unificados e transparentes sobre violência de gênero;

  • Formação obrigatória em diversidade e direitos humanos para forças de segurança;

  • Inserção real no mercado de trabalho, indo além de programas-piloto;

  • Educação antidiscriminatória, desde a infância, como política de Estado.

Sem isso, 2026 corre o risco de ser apenas mais um ano somado às estatísticas de morte.


Não é sobre expectativa é sobre responsabilidade

Esperança, para a população trans, não pode ser uma abstração. Ela precisa ser materializada em proteção, direitos e dignidade. O Brasil não pode continuar tratando a morte de pessoas trans como uma tragédia recorrente e inevitável.

O início de 2026 nos confronta com uma escolha coletiva: seguir naturalizando a transfobia ou enfrentá-la como a violação de direitos humanos que ela é.

Porque enquanto pessoas trans continuarem morrendo, não haverá novo ano — apenas a repetição de uma violência que já passou do limite do aceitável.

por Rubens Bernardo Tomas



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