Regina Papini Steiner
Venezuela: a crise que interessa a muitos
Venezuela: a crise que interessa a muitos
Há mais de uma década, a Venezuela deixou de ser apenas um país em crise para se transformar em um símbolo, e também em um campo de batalha narrativo. Para parte da imprensa internacional, trata-se da prova definitiva do fracasso de um projeto político iniciado por Hugo Chávez e continuado por Nicolás Maduro. Para outra parcela do debate político, é o exemplo mais evidente de como pressões externas podem estrangular uma economia já fragilizada. Entre essas duas leituras, existe uma realidade incômoda: a crise venezuelana é resultado de uma combinação de erros internos e interesses geopolíticos externos e ambos têm sido explorados de forma conveniente.
A economia venezuelana sofreu uma contração brutal desde 2013, considerada uma das maiores retrações econômicas em tempos de paz na história contemporânea. A dependência quase absoluta do petróleo, a má gestão econômica, a corrupção e a incapacidade do Estado de diversificar sua base produtiva criaram um sistema vulnerável. Quando o preço internacional do petróleo caiu e a crise política se aprofundou, o país já estava em uma situação delicada.
Foi nesse cenário que entraram em cena as sanções impostas pelos Estados Unidos, a partir de 2017. Apresentadas como instrumentos de pressão política contra o governo de Nicolás Maduro, essas medidas atingiram diretamente o coração da economia venezuelana: o setor petrolífero e o acesso ao sistema financeiro internacional. Reportagens e análises publicadas pela CartaCapital apontam que as sanções contribuíram significativamente para o agravamento do colapso econômico, limitando a capacidade do país de exportar petróleo, importar insumos e estabilizar sua moeda.
O resultado não surpreende: inflação crônica, serviços públicos deteriorados, hospitais sem recursos e um êxodo populacional que ultrapassa os milhões. Trata-se de uma tragédia social em escala continental. Ainda assim, grande parte do debate internacional prefere simplificar o problema em slogans ideológicos.
É evidente que o governo venezuelano carrega responsabilidades. O país vive uma democracia fragilizada, marcada por forte polarização política, acusações de autoritarismo e questionamentos sobre a transparência de processos eleitorais. A concentração de poder no Executivo e a repressão a opositores são fatos que não podem ser ignorados.
Mas também é verdade que a crise venezuelana se tornou útil para muitos atores internacionais. Para setores da política externa norte-americana, ela funciona como exemplo conveniente de um modelo político que deve ser combatido. Para parte da oposição venezuelana, o colapso econômico tornou-se instrumento de disputa pelo poder. E para uma parcela da imprensa internacional, a narrativa simplificada rende manchetes fáceis.
Nesse jogo de interesses, o povo venezuelano permanece como figurante de uma história que se decide longe de suas ruas. A população convive com salários que mal cobrem despesas básicas, hospitais com estrutura precária e uma economia cada vez mais dolarizada de forma informal.
A Venezuela, hoje, é o retrato de um paradoxo latino-americano: um país com umas das maiores reservas de petróleo do planeta e, ao mesmo tempo, incapaz de garantir condições mínimas de vida para grande parte de sua população.
A pergunta que raramente aparece nas manchetes é simples e desconfortável: se todos dizem querer resolver a crise venezuelana, por que ela continua sendo tão útil para tantos interesses?
Talvez porque, em certos casos, a crise não seja apenas um problema. Para alguns, ela se tornou um instrumento político. E instrumentos políticos raramente são abandonados enquanto continuam sendo úteis.
Por Regina Papini Steiner



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