Regina Papini Steiner
Pedagogia do Abandono ou da Manipulação? Quando o limite ético é ultrapassado.
Pedagogia do Abandono ou da Manipulação? Quando olimite ético é ultrapassado
Em meio a um cenário já saturado por disputas ideológicas sobre educação no Brasil, o documentário “Pedagogia do Abandono”, da Brasil Paralelo, ultrapassa uma linha que não deveria sequer ser cogitada: a do uso indevido da imagem de uma criança.
A recente denúncia feita por Mariana Lopes, de que o vídeo de seu filho foi utilizado sem autorização e, mais grave, possivelmente manipulado não é apenas mais um capítulo de polarização política. Trata-se de algo muito mais sério: uma possível violação de direitos fundamentais.
Quando a narrativa se sobrepõe à verdade.
Se confirmado, o caso revela uma prática alarmante: a construção de uma narrativa que não respeita a integridade do próprio material utilizado. Alterar o contexto de fala de uma criança, ou inserir sentidos que não existiam originalmente, não é apenas antiético é uma distorção deliberada da realidade.
E aqui surge uma pergunta inevitável: até onde vale ir para sustentar um discurso?
O jornalismo, o documentário sério e qualquer produção que se proponha a dialogar com a sociedade têm um compromisso básico: a verdade dos fatos. Quando esse compromisso é rompido, o conteúdo deixa de ser informativo e passa a ser instrumentalizado.
Criança não é argumento!
O ponto mais grave de toda essa situação é o uso de um menor de idade.
No Brasil, a proteção à imagem de crianças não é opcional, é um princípio legal e ético consolidado. Não se trata apenas de autorização formal, mas de respeito à dignidade, à identidade e à integridade da criança.
Utilizar a imagem de um menor:
- sem consentimento claro
- fora do contexto original
- ou associado a uma narrativa controversa
é transformar uma criança em ferramenta. E isso, em qualquer espectro ideológico, deveria ser inaceitável.
A escola como cenário de disputa.
Outro elemento que amplia a gravidade do caso é a utilização de ambientes escolares. A presença de crianças em gravações, ainda que indireta, levanta questionamentos sobre transparência e responsabilidade.
A escola deve ser um espaço de formação, não um campo de batalha narrativa.
Quando produções audiovisuais entram nesse ambiente sem clareza absoluta sobre seus objetivos, o risco é duplo: desinformar e instrumentalizar.
O verdadeiro abandono
O título do documentário fala em abandono, mas talvez o abandono mais evidente aqui seja outro: o abandono da ética.
Abandono do compromisso com a verdade.
Abandono do respeito à infância.
Abandono dos limites que deveriam proteger os mais vulneráveis.
Mais do que uma polêmica!
Reduzir esse episódio a uma disputa entre “lados” é um erro. O que está em jogo não é opinião é responsabilidade.
Porque quando uma criança é exposta de forma indevida, não existe relativização possível.
E quando a verdade é moldada para servir a uma narrativa, o prejuízo não é apenas individual é coletivo.
O caso “Pedagogia do Abandono” deveria servir como um alerta urgente:
não importa a pauta, a causa ou o posicionamento, nenhum projeto se sustenta quando ultrapassa os limites da ética.
E, acima de tudo, nenhuma narrativa pode ser construída às custas daquilo que deveria ser intocável: a proteção de uma criança.
Quando envolve menores de idade, o padrão legal e ético é muito mais rígido. No Brasil, o direito de imagem da criança é protegido pelo ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), e inclui:
- Consentimento claro dos responsáveis
- Proibição de exposição vexatória ou manipulada
- Proteção contra uso indevido ou exploração
E aqui entra um ponto central: borrar o rosto não resolve tudo, como a própria mãe destacou. Se há manipulação ou uso indevido, o problema continua existindo.
por Regina Papini Steiner



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