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Pedra Bela,16/03/2026

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Regina Papini Steiner

Quando a mulher é reduzida a um órgão.


Quando a mulher é reduzida a um órgão.

Quando a mulher é reduzida a um órgão

Há algo profundamente revelador na forma como parte da sociedade ainda tenta definir o que é ser mulher. Para muitos, a resposta parece estar restrita a uma anatomia: ovários, útero, cromossomos. Como se a complexidade humana pudesse caber em uma ficha biológica. Como se a identidade feminina fosse apenas uma função reprodutiva.

Essa visão não é apenas simplista, é profundamente machista e misógina.

Se aceitarmos esse raciocínio, surge uma pergunta inevitável: uma mulher que passou por uma histerectomia deixa de ser mulher? Uma mulher que não pode ou não deseja ter filhos perde sua identidade? Uma mulher na menopausa deixa de existir como mulher? Evidentemente não. Ainda assim, discursos conservadores insistem em reduzir a mulher a um conjunto de órgãos, ignorando história, identidade, cultura, experiência e dignidade.

Esse pensamento revela uma mentalidade pequena, quase medieval, que enxerga a mulher como um corpo funcional, não como sujeito pleno, e claro, sempre reforçada por um homem., que não tem o direito de falar sobre Mulher.

Nesse contexto, a presença política de figuras como Erika Hilton provoca reações intensas justamente porque desafia essa lógica limitada. A deputada federal tornou-se uma das vozes mais visíveis na defesa de direitos humanos e da diversidade no país, sendo a primeira mulher trans negra eleita para a Câmara dos Deputados e uma figura central nas pautas de inclusão social e direitos das mulheres.

Em 2026, ao assumir a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados, Hilton simboliza uma ruptura com a ideia estreita de quem pode ou não ocupar espaços de representação feminina. A comissão tem justamente a função institucional de discutir políticas públicas, combater violências de gênero e ampliar direitos para mulheres em suas múltiplas realidades sociais.

A reação de setores conservadores à sua presença diz mais sobre o medo de perder privilégios do que sobre qualquer debate real sobre mulheres. Porque quando alguém insiste que “ser mulher” depende exclusivamente de um órgão, não está defendendo biologia, está defendendo uma hierarquia social.

O corpo feminino sempre foi campo de disputa política: controlar, definir, limitar. Durante séculos disseram às mulheres que seu valor estava na maternidade, no silêncio ou na submissão. Hoje, quando diferentes mulheres, negras, trans, periféricas, indígenas, trabalhadoras, ocupam os espaços de poder, a velha lógica patriarcal tenta reagir, reduzindo identidades complexas a argumentos biológicos simplórios.

Mas a realidade é mais forte que o preconceito.

Ser mulher nunca foi apenas uma questão de biologia. É também experiência social, trajetória, luta, construção de identidade e reconhecimento. Negar isso é negar a própria história das mulheres que, ao longo de séculos, lutaram para deixar de ser vistas como meros corpos e passarem a ser reconhecidas como cidadãs.

Reduzir uma mulher ao seu útero não é ciência.
É apenas misoginia disfarçada de argumento.

E talvez seja exatamente por isso que figuras como Erika Hilton incomodam tanto: porque sua existência política desmonta, com um simples fato, a fragilidade de uma visão de mundo que já deveria ter ficado no passado.

por Regina Papini Steiner



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