Regina Papini Steiner
Entre o enredo e a realidade: o desfile em homenagem a Luiz Inácio Lula da Silva e as trajetórias nordestinas em São Paulo
O desfile da escola de samba de Niterói que homenageou Luiz Inácio Lula da Silva trouxe à avenida uma narrativa que ultrapassa a figura do presidente e se projeta sobre milhões de histórias anônimas. Ao exaltar a trajetória de um retirante nordestino que chegou a São Paulo e se tornou líder político, a escola evocou um símbolo coletivo: o da mobilidade social construída a partir do trabalho, da migração e da persistência.
A escolha de Lula como enredo não é apenas política, mas histórica. Nascido em Pernambuco e migrante para o Sudeste, sua biografia ecoa a de milhares de famílias nordestinas que, sobretudo a partir da segunda metade do século XX, deixaram suas terras em busca de melhores condições de vida na região metropolitana de São Paulo. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o fluxo migratório nordestino para São Paulo foi um dos principais motores da expansão urbana e industrial do estado, especialmente entre as décadas de 1950 e 1980.
Nesse contexto, o desfile dialoga diretamente com a memória dessas famílias. Ao colocar Lula no centro da narrativa, a escola de samba cria uma metáfora visual e simbólica para a luta de trabalhadores que construíram bairros, ocuparam fábricas e transformaram a paisagem econômica e cultural paulista. O que se viu na avenida foi, portanto, uma celebração da resiliência coletiva.
No entanto, a comparação entre a trajetória de Lula e a realidade das famílias nordestinas em São Paulo revela nuances importantes. Se, por um lado, o enredo destaca conquistas e ascensão social, por outro, a realidade ainda mostra desigualdades persistentes. Estudos da Fundação Getulio Vargas apontam que migrantes nordestinos historicamente enfrentaram maiores índices de informalidade, menor renda média e dificuldades de acesso a serviços públicos nas periferias urbanas.
Ainda assim, as vitórias são inegáveis. Hoje, descendentes dessas famílias ocupam espaços diversos: universidades, empresas, movimentos culturais e a própria política. A cultura nordestina, antes marginalizada, tornou-se parte fundamental da identidade paulistana, visível na música, na gastronomia e nas manifestações artísticas.
O desfile, portanto, funciona como um espelho duplo: reflete o percurso de um indivíduo que se tornou símbolo nacional e, ao mesmo tempo, ilumina a saga coletiva de milhões de brasileiros que ajudaram a construir São Paulo. A homenagem a Lula, nesse sentido, não é apenas a um líder político, mas a uma ideia de Brasil forjada pela migração, pela diversidade e pela busca por dignidade.
Em tempos de polarização, o carnaval, espaço de memória e crítica social, reafirma sua função histórica: contar, em forma de arte, as histórias que moldam o país. E, ao levar para a avenida a trajetória de Lula em paralelo à das famílias nordestinas, a escola de Niterói relembra que as maiores conquistas nacionais não são individuais, mas coletivas.
por Regina Papini Steiner



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