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Pedra Bela,03/02/2026

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Regina Papini Steiner

Demissão de Lígia Amadio expõe fragilidade da política cultural em Minas Gerais

Foto: Reprodução
Demissão de Lígia Amadio expõe fragilidade da política cultural em Minas Gerais

A demissão da maestra Lígia Amadio da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais (OSMG), anunciada no início de 2026, representa mais do que o encerramento de um contrato artístico. O episódio revela, de forma contundente, a fragilidade da política cultural do Estado e a dificuldade histórica das instituições públicas em lidar com críticas estruturais vindas de seus próprios agentes culturais.

Primeira mulher a ocupar o cargo de regente titular da OSMG em quase cinco décadas de existência da orquestra, Amadio assumiu a direção musical em 2023 com um projeto artístico pautado pela excelência técnica, pela valorização do repertório brasileiro e pela ampliação do diálogo com o público. Sua trajetória profissional, reconhecida nacional e internacionalmente, consolidou um trabalho que vinha sendo bem avaliado por músicos e pelo meio especializado.

O estopim para sua saída ocorreu após declarações feitas em audiência pública na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, em novembro de 2025. Na ocasião, a maestra denunciou a precariedade salarial da orquestra, afirmando que a OSMG figurava entre as mais mal remuneradas do país, com vencimentos iniciais em torno de R$ 1.618,72. A fala, longe de ser um ataque institucional, expôs uma realidade conhecida há anos pelos músicos e ignorada por sucessivas gestões.

A resposta da Fundação Clóvis Salgado, responsável pela orquestra, foi o desligamento da regente, sob o argumento de que a temporada de 2026 contaria com “regentes convidados de renome”. A justificativa, contudo, soa insuficiente diante da gravidade das questões levantadas. Substituir um projeto artístico consistente por soluções pontuais evidencia uma lógica administrativa que privilegia a aparência de prestígio em detrimento da construção de políticas culturais duradouras.

O caso ocorre em um momento simbólico: a OSMG se aproxima de seu cinquentenário e a Fundação Clóvis Salgado celebra mais de meio século de existência. Ainda assim, as condições de trabalho dos músicos permanecem frágeis, refletindo um modelo de gestão que trata a cultura como gasto e não como investimento público estratégico.

Há também um aspecto simbólico que não pode ser ignorado. A saída da primeira mulher à frente da OSMG reforça o debate sobre a permanência de estruturas conservadoras e pouco transparentes na música de concerto brasileira, especialmente quando lideranças femininas assumem posições críticas e públicas.

A demissão de Lígia Amadio não encerra a discussão, ao contrário, amplia-a. O episódio lança luz sobre a necessidade urgente de repensar o financiamento da cultura, a valorização dos trabalhadores da música e o papel social das orquestras públicas. Silenciar quem aponta problemas não os resolve; apenas aprofunda a crise de um setor que já luta para sobreviver.

A OSMG tem, agora, uma encruzilhada: repetirá o velho padrão de gestão que silencia vozes críticas e renova apenas a cada ano o seu corpo artístico? Ou aproveitará esse momento para promover um debate profundo sobre financiamento, condições de trabalho e o papel social da música erudita no Brasil? O futuro da orquestra, e de toda a cena cultural mineira, dependerá dessa resposta.

por Regina Papini Steiner



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