Regina Papini Steiner
Natal entre a fé e o consumo: o que revela a enquete do Jornal Iconic
Natal entre a fé e o consumo: o que revela a enquete do Jornal Iconic
O Natal, historicamente, nasce de um marco religioso: o nascimento de Jesus Cristo, símbolo de esperança, renovação e amor ao próximo para milhões de cristãos ao redor do mundo. Ao longo dos séculos, essa data foi também incorporando valores culturais, familiares e sociais que ultrapassam a religião, tornando-se um período de encontros, reconciliações e reflexão sobre a vida. No entanto, a enquete realizada pelo Jornal Iconic lança luz sobre uma realidade cada vez mais evidente: para a maioria dos nossos leitores e leitoras, o Natal é visto acima, de tudo como uma data de presentes e consumo.
O resultado não surpreende, mas provoca. Ele reflete uma sociedade atravessada pela lógica do mercado, onde o calendário comercial redefine significados e emoções. O que antes era simbolizado pelo nascimento, pelo silêncio e pela partilha, é frequentemente traduzido em vitrines iluminadas, campanhas publicitárias agressivas e na pressão social por comprar, presentear e consumir mesmo quando isso significa endividamento ou frustração.
A religião, nesse contexto, parece perder espaço não apenas no discurso público, mas também na vivência cotidiana do Natal. Isso não significa, necessariamente, um afastamento da fé, mas revela como os rituais religiosos foram, em muitos casos, esvaziados ou substituídos por práticas de mercado. O presépio cede lugar à árvore repleta de embalagens; o momento de oração é trocado pela correria das compras; o sentido do “dar” se transforma em obrigação material, e não em gesto simbólico ou solidário.
Por outro lado, o dado da enquete também pode ser lido como um retrato honesto do nosso tempo. Vivemos em uma sociedade cansada, pressionada economicamente, onde o consumo aparece, muitas vezes, como uma forma de compensação emocional. O Capitalismo acima de tudo. O Natal-consumo não é apenas uma escolha individual, mas o resultado de um sistema que associa felicidade à compra e pertencimento à capacidade de consumir.
A reflexão que se impõe, portanto, não é moralista, mas crítica. Se o Natal foi reduzido a uma data de consumo, o que isso diz sobre nossas prioridades coletivas? Onde fica o espaço para a espiritualidade humana? Onde cabem a empatia, o cuidado, a escuta e a solidariedade valores que, em sua origem, é o coração de qualquer celebração?
A enquete do Jornal Iconic não encerra o debate; ao contrário, ela o inaugura. Ao revelar que o Natal é majoritariamente percebido como um evento comercial, somos convidados a repensar nossos próprios gestos, expectativas e escolhas. Talvez o maior presente não esteja nas vitrines, mas na possibilidade de resgatar sentidos: menos consumo, mais presença; menos obrigação, mais afeto; menos ruído, mais reflexão.
por Regina Papini Steiner



COMENTÁRIOS