Maude Salazar
Quando a inveja aprende a falar como justiça
INVIDIA | APOCALIPSE VOX®
Quando a inveja aprende afalar como justiça
INVIDIA | APOCALIPSE VOX®
Há sentimentos que entram pela porta da frente.
A inveja não.
Ela prefere chegar disfarçada. Veste a roupa dajustiça, do mérito, da igualdade. Fala com calma, usa bons argumentos e nosconvence de que estamos apenas defendendo o que é certo.
Talvez por isso seja um dos sentimentos maisdifíceis de reconhecer. Quando finalmente percebemos sua presença, ela jáaprendeu a falar com a nossa voz.
Quase ninguém gosta de admitir que inveja. Apalavra pesa. Fere a imagem que fazemos de nós mesmos. Então lhe damos outrosnomes. Dizemos que buscamos reconhecimento. Que queremos equilíbrio. Queestamos apenas reagindo a uma injustiça.
E, sem perceber, transformamos uma dor íntima emdiscurso moral.
Foi dessa inquietação que nasceu Invidia (SubSpecie Iustitiae), uma das composições de APOCALIPSE VOX®.
O projeto parte do significado original da palavra apocalipse.Antes de anunciar destruição, ela significa revelação: retirar o véu,tornar visível aquilo que permanecia escondido.
Cada composição percorre um território diferente daexperiência humana. Não para oferecer respostas prontas, mas para lançar luzsobre perguntas que, muitas vezes, evitamos fazer.
Em Invidia, o véu que se levanta é o da comparação.
A música começa com uma frase repetida quase comouma oração:
"Iustum volo."
"Eu só quero o que é justo."
À primeira vista, parece apenas o desejo porjustiça.
Mas, pouco a pouco, esse discurso começa a revelaroutra coisa.
Em determinado momento, a composição diz:
"Oculi mei te sequuntur... sed utmetiar."
"Meus olhos te seguem... para medir."
A partir daí, o olhar já não procura compreender.
Procura medir.
Quando isso acontece, o outro deixa de ser alguémcom sua própria história e passa a ocupar um lugar bem diferente: torna-se amedida daquilo que acreditamos nos faltar.
Talvez seja aí que a inveja comece a criar raízes.
Não necessariamente quando desejamos o que o outropossui, mas quando passamos a acreditar que o brilho dele diminui a nossaprópria luz.
Mais adiante, outra frase rompe a aparência deequilíbrio.
"Si minor esses... tunc pax rediret."
"Se fosses menor... então a pazvoltaria."
A comparação chega ao limite.
Já não basta desejar crescer.
Surge a ilusão de que a paz depende de que alguémbrilhe menos.
É um engano antigo.
Porque a comparação é uma fome que nunca termina.
Quanto mais a alimentamos, mais ela cresce.
No último refrão, a própria máscara deixa de sesustentar.
"Sub specie iustitiae... latet corinvidum."
"Sob a aparência da justiça... esconde-se umcoração invejoso."
Não há julgamento.
Há revelação.
Talvez seja essa a proposta de APOCALIPSE VOX®:olhar para sentimentos que costumam permanecer escondidos, não paracondená-los, mas para compreendê-los.
No fim, a pergunta já não é sobre o outro.
É sobre nós.
Quantas vezes confundimos comparação com justiça?
Quantas vezes chamamos de indignação aquilo que, nofundo, era apenas uma dor que ainda não sabíamos nomear?
Se essas perguntas também encontraram espaço emvocê, deixo um convite.
Escute Invidia (Sub Specie Iustitiae).
Talvez a música lhe conte esta história de outramaneira.
Ou talvez revele detalhes que escapam às palavras.
Porque algumas experiências precisam ser ouvidasantes de serem compreendidas.



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