Regina Papini Steiner
Entre os Arquivos e o Julgamento da História
Parte III — Entre os Arquivos e o Julgamento da História
Os arquivos do Vaticano, as novas evidências e o debate que continua dividindo historiadores
Por Regina Papini Steiner — Jornal ICONIC
Durante décadas, a figura de Pio XII permaneceu presa entre duas narrativas quase inconciliáveis. Para seus defensores, o pontífice teria agido discretamente para proteger perseguidos e evitar represálias ainda maiores do regime nazista. Para seus críticos, sua prudência diplomática teria ultrapassado os limites da cautela e se transformado em silêncio diante do extermínio de milhões de pessoas.
A abertura dos documentos relativos ao pontificado de Pio XII, iniciada em 2 de março de 2020, foi recebida como uma oportunidade histórica de confrontar essas narrativas com uma quantidade muito maior de evidências. O acervo compreende o período entre 1939 e 1958 e reúne correspondências diplomáticas, anotações internas, relatórios enviados por bispos, pedidos de ajuda, comunicações entre as nunciaturas e a Secretaria de Estado, além de documentos relacionados à Segunda Guerra Mundial, ao Holocausto e ao início da Guerra Fria.
Não se trata de uma pequena coleção capaz de produzir uma resposta rápida. O material é estimado em pelo menos 16 milhões de páginas. O próprio Vaticano reconheceu que serão necessárias décadas de investigação para avaliar plenamente seu conteúdo e relacioná-lo a documentos existentes em arquivos alemães, italianos, norte-americanos, britânicos, franceses, israelenses e de outros países.
A abertura dos arquivos, portanto, não encerrou o debate sobre Pio XII. Ao contrário, tornou-o mais complexo.
"Secreto" não significava necessariamente clandestino
Durante muito tempo, o acervo foi conhecido como Arquivo Secreto do Vaticano. Essa expressão alimentou imagens de documentos misteriosos, conspirações e verdades deliberadamente escondidas.
Historicamente, porém, o termo latino secretum estava ligado à ideia de arquivo privado ou reservado do pontífice, e não necessariamente a um conjunto de documentos clandestinos. Em 2019, o papa Francisco determinou que a instituição passasse a se chamar oficialmente Arquivo Apostólico Vaticano, procurando evitar interpretações equivocadas e atualizar sua denominação pública.
A mudança do nome não eliminou as críticas sobre o tempo durante o qual parte da documentação permaneceu inacessível. Instituições de pesquisa sobre o Holocausto, historiadores e organizações judaicas reivindicaram durante décadas a liberação integral dos registros do pontificado de Pio XII.
Ao anunciar a abertura, Francisco afirmou que a Igreja não deveria temer a história. A decisão reconhecia, de maneira indireta, que a avaliação do pontificado não poderia continuar baseada apenas em documentos previamente selecionados, testemunhos isolados ou interpretações produzidas antes do acesso ao conjunto mais amplo das fontes.
O que os historiadores procuravam
Os pesquisadores chegaram a Roma com perguntas que atravessaram gerações.
O que Pio XII sabia sobre o assassinato sistemático dos judeus europeus? Quando as informações chegaram ao Vaticano? Os relatos foram considerados confiáveis? Por que o pontífice não realizou uma condenação pública e direta do extermínio? Houve ordens expressas para que conventos, mosteiros e instituições religiosas acolhessem perseguidos? Qual foi o papel da diplomacia vaticana diante das deportações? O temor ao comunismo influenciou a forma como a Santa Sé tratou a Alemanha nazista durante e depois da guerra?
Essas perguntas não podem ser respondidas por um único memorando.
Um arquivo institucional registra vozes distintas. Nele aparecem o papa, seus secretários, diplomatas, cardeais, bispos, religiosos, governos estrangeiros, refugiados, familiares de prisioneiros e pessoas desesperadas em busca de proteção. Um mesmo documento pode demonstrar que determinada autoridade recebeu uma informação, mas não necessariamente revela como ela a interpretou, o que decidiu fazer ou quais ações ocorreram fora dos canais oficiais.
É nesse ponto que a historiografia se afasta das narrativas conspiratórias. Documentos não falam sozinhos: precisam ser contextualizados, comparados e submetidos à crítica das fontes.
David Kertzer e a diplomacia da cautela
Um dos primeiros historiadores a produzir uma interpretação ampla com base no material aberto em 2020 foi o norte-americano David I. Kertzer, professor da Universidade Brown e vencedor do Prêmio Pulitzer.
Em suas pesquisas, Kertzer sustenta que Pio XII procurou preservar a neutralidade institucional do Vaticano e evitar uma ruptura aberta com Hitler e Mussolini. Para o historiador, essa estratégia levou o pontífice a privilegiar contatos diplomáticos reservados, mensagens indiretas e formulações públicas cuidadosas, mesmo quando o Vaticano recebia informações cada vez mais graves sobre perseguições, deportações e assassinatos.
Os documentos examinados por Kertzer revelaram contatos até então pouco conhecidos entre representantes do Vaticano e interlocutores ligados ao governo de Hitler. A existência desses canais não prova, por si só, uma adesão ao nazismo. Mostra, entretanto, o quanto a Santa Sé valorizava a manutenção do diálogo, inclusive com governos responsáveis por perseguições contra a própria Igreja.
Na interpretação de Kertzer, a preocupação central de Pio XII era proteger a instituição, preservar os católicos sob domínio nazista e impedir que o Vaticano perdesse sua capacidade de negociação. O problema moral, segundo essa leitura, está no preço dessa prudência: o papa teria evitado uma denúncia inequívoca do genocídio mesmo depois de receber informações consistentes sobre o que estava acontecendo.
A pesquisa não descreve Pio XII como um simpatizante pessoal de Hitler. A acusação é diferente e mais complexa: diante de um crime extremo, sua prioridade institucional teria limitado a força de seu testemunho público.
O que Pio XII sabia
A documentação reforçou a conclusão de que informações sobre massacres, deportações e perseguições chegaram ao Vaticano por diferentes caminhos.
Relatos foram enviados por representantes diplomáticos, bispos, sacerdotes, governos aliados, organizações judaicas e testemunhas situadas nos territórios ocupados. Algumas mensagens eram incompletas; outras apresentavam números difíceis de verificar durante a guerra. Ainda assim, a multiplicação dos testemunhos tornou progressivamente mais difícil sustentar que a Santa Sé desconhecia a dimensão da violência.
A questão central deixou de ser apenas se Pio XII sabia. O debate passou a envolver o grau de confirmação que ele considerava necessário, a linguagem que escolheu empregar e as razões pelas quais evitou identificar publicamente, de maneira direta, os responsáveis e as vítimas da política de extermínio.
Em sua mensagem de Natal de 1942, Pio XII mencionou centenas de milhares de pessoas condenadas à morte ou à destruição progressiva em razão de sua nacionalidade ou origem. Seus defensores interpretam a passagem como uma condenação compreensível para o público da época. Seus críticos observam que o pronunciamento não citou nominalmente os judeus, Hitler, o nazismo ou o programa de extermínio.
O mesmo documento, portanto, sustenta interpretações distintas. Para alguns, demonstra que o papa se manifestou dentro dos limites impostos pela guerra. Para outros, comprova que ele conhecia a perseguição, mas optou por uma formulação tão genérica que reduziu o impacto moral da denúncia.
A tese das represálias
Um dos principais argumentos apresentados em defesa de Pio XII é o de que uma condenação frontal poderia provocar represálias contra católicos, judeus escondidos em instituições religiosas e populações submetidas à ocupação alemã.
Esse temor não era imaginário. Os nazistas responderam violentamente a diferentes formas de oposição religiosa, prenderam membros do clero, fecharam organizações católicas e deportaram religiosos para campos de concentração.
Os defensores do pontífice também recorrem ao caso dos Países Baixos. Depois de lideranças católicas denunciarem publicamente as deportações, as autoridades nazistas ampliaram medidas contra judeus convertidos ao catolicismo. O episódio teria reforçado no Vaticano a convicção de que manifestações públicas poderiam piorar a situação das vítimas.
Entretanto, historiadores como Michael Phayer, Susan Zuccotti e Kertzer questionam se essa justificativa é suficiente para explicar toda a atuação de Pio XII. Eles reconhecem o risco das represálias, mas perguntam por que o Vaticano não combinou a cautela diplomática com orientações institucionais mais claras, denúncias mais diretas ou pressão pública consistente.
A controvérsia não está na existência do perigo. Está na avaliação sobre o que poderia — e deveria — ter sido feito diante dele.
Os pedidos de socorro conservados nos arquivos
Uma das séries documentais de maior significado humano reúne pedidos dirigidos ao Vaticano por judeus perseguidos e por suas famílias.
Esses documentos registram solicitações de vistos, intervenções diplomáticas, notícias sobre prisões, tentativas de localizar parentes, pedidos de libertação e apelos de pessoas que já percebiam que as vias normais de sobrevivência estavam sendo fechadas.
Em 2022, o Vaticano tornou disponível uma série documental intitulada Ebrei, ligada às solicitações de ajuda recebidas durante o período. O conjunto permite acompanhar não apenas decisões administrativas, mas também trajetórias individuais frequentemente reduzidas a números nas grandes narrativas da guerra.
Os registros mostram que o Vaticano recebeu muitos pedidos e que seus escritórios tentaram intervir em parte deles. Contudo, a existência de uma solicitação registrada não significa que a ajuda tenha sido efetivada. Em vários casos, os resultados permanecem desconhecidos; em outros, a burocracia diplomática avançou lentamente diante de uma perseguição que se acelerava.
Esses papéis modificam o centro da discussão. O debate deixa de tratar apenas do que o papa declarou e passa a perguntar como a estrutura institucional respondeu às pessoas que bateram às suas portas.
O acolhimento em conventos e instituições religiosas
Outro ponto decisivo refere-se ao acolhimento de judeus em conventos, mosteiros, seminários e residências religiosas, especialmente durante a ocupação alemã de Roma.
Há ampla documentação de religiosos e religiosas que esconderam perseguidos, forneceram alimentos, criaram documentos, abriram espaços de abrigo e assumiram riscos pessoais. Essas ações salvaram vidas e fazem parte da história da resistência humanitária ao nazismo.
A divergência está em determinar até que ponto essas iniciativas foram ordenadas, coordenadas ou expressamente autorizadas por Pio XII.
Defensores do pontífice consideram improvável que tantas instituições romanas tivessem agido sem seu conhecimento ou consentimento. Críticos respondem que consentimento presumido não equivale a uma ordem documentada e que grande parte das iniciativas pode ter surgido da consciência individual de sacerdotes, freiras, superiores religiosos e leigos.
Os novos arquivos podem esclarecer partes dessa estrutura, mas dificilmente produzirão uma única ordem que explique todas as ações. A Igreja não funcionava como uma máquina perfeitamente centralizada, sobretudo em uma Europa marcada por ocupações militares, fronteiras interrompidas e comunicações precárias.
Reconhecer o heroísmo de religiosos que salvaram perseguidos não obriga o historiador a absolver toda a diplomacia vaticana. Da mesma forma, criticar as escolhas de Pio XII não significa apagar as ações humanitárias realizadas por membros da Igreja.
O caso da deportação dos judeus de Roma
A prisão e a deportação de judeus romanos, em outubro de 1943, permanece como um dos episódios mais dolorosos do debate.
As detenções ocorreram a poucos quilômetros do Vaticano. A Santa Sé recebeu informações sobre a operação, enquanto diplomatas e religiosos discutiam possíveis formas de intervenção.
Os críticos de Pio XII destacam que não houve uma condenação pública e direta do papa. Para eles, a proximidade física da perseguição torna seu silêncio ainda mais difícil de justificar.
Os defensores argumentam que foram realizadas intervenções discretas e que uma manifestação aberta poderia ter provocado a ocupação do Vaticano, a prisão de religiosos e a ampliação das deportações. Também ressaltam que instituições católicas de Roma acolheram grande número de judeus depois das primeiras detenções.
A documentação reforça a existência de negociações e preocupações internas, mas não elimina a pergunta essencial: por que a autoridade moral mais visível da Igreja Católica não denunciou publicamente o que acontecia diante de suas portas?
As diferentes escolas de interpretação
A historiografia sobre Pio XII não pode ser dividida apenas entre "acusadores" e "defensores". Entre esses extremos existem pesquisadores que procuram reconstruir as circunstâncias sem transformar a análise em julgamento sumário.
Saul Friedländer, um dos maiores estudiosos do Holocausto, destacou a importância de observar tanto o antissemitismo presente nas sociedades cristãs europeias quanto as decisões concretas tomadas por autoridades religiosas. Sua obra ajuda a compreender que o nazismo não criou todos os preconceitos que utilizou; ele radicalizou tradições de exclusão já existentes.
Michael Phayer examinou a atuação da Igreja Católica durante o Holocausto e a influência posterior da Guerra Fria sobre a memória do pontificado. Para ele, o avanço do anticomunismo ajudou a reorganizar prioridades e narrativas depois de 1945.
Susan Zuccotti, ao estudar a perseguição aos judeus na Itália, questionou a existência de uma política papal ampla e claramente documentada de salvamento, embora reconheça a atuação de instituições e indivíduos católicos.
Robert Ventresca, autor de uma importante biografia de Pio XII, propõe uma leitura que evita tanto a demonização quanto a canonização histórica. Seu trabalho procura compreender Eugenio Pacelli como produto da cultura diplomática vaticana, do anticomunismo, das experiências da Primeira Guerra Mundial e da convicção de que a imparcialidade institucional preservaria a capacidade de mediação.
Andrea Riccardi chama atenção para a pluralidade interna do catolicismo e para as redes humanitárias construídas durante a guerra. Sua perspectiva ajuda a distinguir a Santa Sé, o episcopado, as congregações religiosas e as ações individuais dos fiéis.
Hubert Wolf, historiador alemão da Igreja, defende que o trabalho de arquivo exige tempo e cautela. Uma descoberta isolada pode parecer definitiva até ser confrontada com outros departamentos, versões anteriores do mesmo documento ou correspondências mantidas em diferentes países.
Essas abordagens não chegam necessariamente à mesma conclusão. Em conjunto, porém, revelam que a pergunta histórica não deve ser "Pio XII foi herói ou cúmplice?", mas quais informações recebeu, quais escolhas realizou, quais alternativas estavam disponíveis e quais consequências decorreram de suas decisões.
Antissemitismo, antijudaísmo e cultura institucional
Os novos estudos também obrigam os pesquisadores a examinar não apenas as decisões do papa, mas a cultura institucional que cercava a Santa Sé.
Durante séculos, setores do cristianismo europeu reproduziram formas de antijudaísmo religioso. No século XIX e no início do século XX, essas tradições se misturaram, em diferentes ambientes, a preconceitos políticos, sociais e raciais.
O antissemitismo nazista possuía caráter racial e exterminador, incompatível com a doutrina cristã sobre a possibilidade de conversão e com a ideia de origem comum da humanidade. Isso não significa, porém, que membros da Igreja estivessem livres de preconceitos contra os judeus.
Relatórios, comentários internos e formas de classificar os pedidos de ajuda podem revelar atitudes paternalistas, desconfiança religiosa ou distinções entre judeus convertidos e não convertidos. Esses elementos são importantes porque instituições não atuam apenas por meio de decretos formais; atuam também por hábitos, mentalidades e prioridades burocráticas.
A análise desses documentos não deve ser usada para declarar que todos os católicos compartilhavam as mesmas opiniões. Ao contrário, a variedade das fontes mostra membros da Igreja reproduzindo preconceitos, outros permanecendo indiferentes e muitos arriscando a própria vida para salvar perseguidos.
A Guerra Fria e a construção da memória
O pontificado de Pio XII não terminou com a derrota do nazismo. Ele permaneceu à frente da Igreja até 1958 e se tornou uma das principais vozes do anticomunismo no início da Guerra Fria — como visto na segunda reportagem desta série.
Essa continuidade é fundamental para compreender como sua imagem foi construída. A denúncia dos crimes nazistas foi progressivamente acompanhada — e, em alguns ambientes, deslocada — pela prioridade de combater o comunismo.
Michael Phayer argumenta que a Guerra Fria influenciou a maneira como as ações do Vaticano durante a guerra foram lembradas e apresentadas. Questionamentos sobre o silêncio diante do Holocausto passaram a disputar espaço com a imagem de Pio XII como defensor do Ocidente cristão contra o domínio soviético.
A memória histórica, portanto, não foi produzida em ambiente neutro. Foi moldada por conflitos políticos posteriores, disputas religiosas, processos de canonização, relações entre católicos e judeus e mudanças na própria compreensão do Holocausto.
O arquivo não é um tribunal
Existe uma expectativa pública de que a abertura de um arquivo produza uma resposta final: culpado ou inocente.
Essa expectativa não corresponde ao trabalho da história.
Arquivos preservam documentos produzidos por instituições, mas também carregam silêncios. Nem toda ordem foi escrita. Nem todo encontro gerou ata. Nem toda ação clandestina deixou registro. Documentos podem ter sido perdidos, destruídos ou arquivados em lugares ainda não identificados.
Além disso, a ausência de uma ordem não prova automaticamente que ela nunca existiu. Da mesma forma, a existência de um plano ou pedido de intervenção não demonstra que ele tenha sido executado.
A pesquisa histórica trabalha com probabilidades, cruzamento de fontes, contextos e evidências acumuladas. Seu objetivo não é substituir a complexidade por uma sentença, mas reconstruir da forma mais responsável possível o campo de decisões disponível naquele momento.
O debate sobre a canonização
A controvérsia histórica também influencia o processo religioso de canonização de Pio XII.
Para seus admiradores, o papa demonstrou prudência, caridade e coragem silenciosa em circunstâncias extraordinárias. Para seus críticos, avançar no reconhecimento de sua santidade antes da conclusão das pesquisas poderia transmitir a impressão de que a Igreja já decidiu qual interpretação histórica considera legítima.
É importante separar os campos. A canonização é um processo religioso, orientado por critérios internos da Igreja Católica. A historiografia é um trabalho crítico, aberto à revisão e baseado em métodos acadêmicos.
Um julgamento religioso não encerra uma discussão histórica, assim como uma crítica historiográfica não determina, por si só, uma decisão de fé.
Nem absolvição automática, nem condenação simplista
Os documentos abertos desde 2020 não sustentam a imagem caricatural de um papa nazista ou de uma aliança ideológica entre Pio XII e Hitler.
Também não permitem manter sem questionamentos a narrativa de um pontífice que teria comandado, de maneira ampla e documentada, uma gigantesca operação centralizada de salvamento.
O quadro revelado até agora é mais desconfortável.
Pio XII não compartilhava do projeto racial nazista e temia a dominação alemã sobre a Europa. Ao mesmo tempo, priorizou a neutralidade vaticana, a sobrevivência institucional da Igreja, a proteção dos católicos e a preservação dos canais diplomáticos. Recebeu informações graves sobre a perseguição aos judeus, mas evitou uma condenação pública, nominal e inequívoca do extermínio.
Religiosos e instituições católicas salvaram vidas, algumas vezes sob risco extremo. Ainda assim, permanece em debate o grau de coordenação exercido pelo pontífice e se a ajuda realizada correspondeu ao máximo que a autoridade internacional da Igreja poderia ter mobilizado.
Essa ambiguidade explica por que a abertura dos arquivos não pacificou o debate. Os documentos não oferecem apenas argumentos para um dos lados. Eles revelam ações humanitárias, cálculos diplomáticos, medos reais, preconceitos presentes na época, oportunidades perdidas e decisões tomadas sob a sombra de dois totalitarismos.
Por que essa discussão permanece atual
O debate sobre Pio XII ultrapassa a história da Igreja Católica.
Ele coloca uma pergunta dirigida a todas as instituições: o que deve fazer uma autoridade quando a preservação de seus canais diplomáticos entra em conflito com a obrigação moral de denunciar um crime?
Governos, organizações internacionais, empresas, igrejas e veículos de comunicação continuam enfrentando versões desse dilema. Em nome da possibilidade de diálogo, muitas instituições evitam acusações diretas. Em nome da estabilidade, relativizam violações. Em nome da proteção de seus integrantes, silenciam diante do sofrimento de outros grupos.
A experiência de Pio XII demonstra que o silêncio institucional também produz consequências históricas. Mesmo quando motivado pelo medo de represálias ou pelo desejo de atuar nos bastidores, ele será posteriormente confrontado com a dimensão pública da responsabilidade moral.
Isso não significa que denunciar seja sempre suficiente ou que toda manifestação pública salve vidas. Significa que a prudência não pode ser tratada como virtude automática. Ela precisa ser avaliada diante da gravidade do crime, das alternativas disponíveis e dos resultados concretos alcançados.
Uma história ainda em construção
A abertura do pontificado de Pio XII aos pesquisadores representou um avanço decisivo, mas o trabalho está longe de terminar.
O Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos passou a incorporar materiais digitalizados provenientes do acervo vaticano, permitindo que sejam confrontados com depoimentos, registros nazistas e documentos diplomáticos conservados em outras coleções.
Esse cruzamento será essencial. Nenhuma instituição preserva sozinha a história completa de uma guerra mundial.
A cada nova pesquisa, a imagem de Pio XII poderá se tornar mais detalhada, ainda que não necessariamente mais confortável. O papa que emerge dos documentos não é apenas o personagem silencioso descrito por seus críticos nem o estrategista humanitário apresentado por seus defensores. É um chefe religioso e diplomático que enfrentou circunstâncias extremas, tomou decisões calculadas e deixou perguntas que continuam abertas.
Talvez o maior valor dos arquivos não seja oferecer uma absolvição ou uma condenação definitiva. Seu valor está em impedir que a memória seja controlada por versões convenientes.
A história não exige que instituições sejam perfeitas. Exige que aceitem ser examinadas.
E, diante do Holocausto, esse exame precisa começar pelo reconhecimento de que nenhuma preocupação diplomática, nenhum cálculo geopolítico e nenhuma estratégia de sobrevivência institucional podem ser discutidos sem colocar no centro aqueles que foram perseguidos, deportados e assassinados.
Os arquivos continuarão sendo abertos, comparados e interpretados. O julgamento historiográfico permanecerá sujeito a revisões. Mas a pergunta moral que atravessa toda esta série dificilmente desaparecerá:
diante de um crime conhecido, até onde pode ir a prudência antes que ela passe a ser lembrada como silêncio?
Referências historiográficas da série
A elaboração desta reportagem em três partes considera os debates presentes nas obras e pesquisas de:
David I. Kertzer; Saul Friedländer; Michael Phayer; Susan Zuccotti; Robert Ventresca; Andrea Riccardi; Hubert Wolf; Timothy Snyder; Richard J. Evans; Ian Kershaw; John Lewis Gaddis; Timothy Garton Ash; Eric Hobsbawm; e John Cornwell.
Também foram consultadas informações institucionais do Arquivo Apostólico Vaticano, da Santa Sé, da Universidade Brown e do Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos.



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