Thiago Moreno
CHAMELEO transforma experiências pessoais em música no novo EP “Versão dos Fatos”
Artista curitibano abre uma fase mais íntima da carreira e combina pop, música brasileira, eletrônica e ritmos periféricos em trabalho sobre memória, identidade e amadurecimento
PorThiago Moreno
O cantor e compositor CHAMELEO, nome artístico do curitibano Leonardo Fabbri, inicia uma nova fase em sua trajetória com o EP Versão dos Fatos. Lançado em agosto de 2026, o trabalho apresenta um artista mais intimista, disposto a revisitar experiências pessoais e transformá-las em uma narrativa musical sobre memória, identidade, insegurança e amadurecimento.
O próprio nome do projeto sugere que uma história nunca permanece exatamente igual ao longo do tempo. As lembranças são reconstruídas conforme mudamos, e cada pessoa guarda sua própria interpretação dos acontecimentos. A partir dessa ideia, CHAMELEO conduz o ouvinte por diferentes momentos de uma mesma experiência afetiva, sem procurar estabelecer verdades absolutas.
Antes da chegada do EP, o artista apresentou os singles “Impostor”, “Curvas” e “Volto Logo”. As músicas anteciparam uma sonoridade mais emocional, mas sem abandonar a inquietação criativa que acompanha sua produção desde o começo da carreira. Em Versão dos Fatos, o pop continua sendo o ponto de partida, porém aparece atravessado por elementos de jazz, piseiro, pagodão baiano, música eletrônica e pós-punk. A produção foi conduzida, em sua maior parte, por Vivian Kuczynski, colaboradora frequente do cantor. Tenho Mais Discos Que Amigos!
Uma identidade em permanente transformação
O nome CHAMELEO — pronunciado “Kamílio” — nasceu de uma referência à palavra inglesa chameleon, que significa camaleão. A escolha traduz conceitos como mudança, adaptação e transformação, características presentes tanto na música quanto na identidade visual do artista.
Natural de Curitiba, CHAMELEO entrou para o teatro e começou a estudar guitarra ainda na infância. Mais tarde, estudou música nos Estados Unidos e formou-se em Produção Sonora pela Universidade da Califórnia em Los Angeles, a UCLA. No final da década de 2010, mudou-se para São Paulo para se dedicar integralmente à carreira artística. Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira
Cantor, compositor, produtor e performer, ele desenvolveu uma linguagem que procura integrar música, imagem, figurino, videoclipes e encenação. Seus trabalhos não se limitam a uma sequência de canções: são construídos como universos audiovisuais, nos quais cada escolha estética ajuda a contar uma história.
A transformação também possui um significado pessoal. Após enfrentar um câncer em 2018, o artista passou a tratar a música como espaço de reconstrução e liberdade. Essa experiência inspirou diretamente seu primeiro álbum, ECDISE, lançado em 2021. O título corresponde ao processo de troca de pele realizado por alguns animais e funciona, no disco, como metáfora de renascimento.
Com 13 faixas, ECDISE reuniu diferentes vertentes do pop, do hyperpop e do rock, além de participações de nomes como Pabllo Vittar, Carol Biazin, Johnny Hooker, Alice Caymmi, Konai e Number Teddie. O álbum colocou no centro temas relacionados à transformação, à aceitação, às relações humanas e à construção da própria identidade. Globo/RPC
Da ansiedade às pistas de dança
Em 2023, CHAMELEO lançou seu segundo álbum, ALTA TENSÃO. Mais elétrico e dançante, o trabalho abordou a ansiedade, a agitação cotidiana e as pressões da vida contemporânea por meio de uma linguagem bem-humorada e provocadora.
No lugar de tratar essas inquietações apenas pelo sofrimento, o cantor procurou transformá-las em ritmo, movimento e energia. Funk, reggaeton, música eletrônica e pop se encontraram em um álbum concebido para provocar identificação, mas também para levar o público às pistas de dança. Rolling Stone Brasil
Esse universo ganhou uma extensão em 2025, quando o artista apresentou SOBRECARGA (ALTA TENSÃO DELUXE). O projeto ampliou as experiências eletrônicas do disco anterior por meio de remixes e novas possibilidades sonoras, aproximando o trabalho da cultura das festas e da diversidade da música produzida para as pistas.
Agora, com Versão dos Fatos, CHAMELEO parece reduzir a velocidade para olhar para dentro. A energia continua presente, mas divide espaço com uma composição mais vulnerável e reflexiva. O artista não abandona as cores, os contrastes ou a experimentação; apenas utiliza esses recursos para revelar outras camadas de sua personalidade.
Um pop brasileiro sem fronteiras
A trajetória de CHAMELEO evidencia uma característica importante da atual música independente brasileira: a liberdade para circular entre estilos sem a necessidade de permanecer preso a uma única definição. Seus trabalhos absorvem referências internacionais, mas dialogam cada vez mais com ritmos e expressões culturais do Brasil.
Essa mistura não ocorre apenas como recurso comercial. Ela traduz uma geração de artistas que cresceu em contato com diferentes linguagens, plataformas e cenas musicais. Para esses criadores, o pop não representa uma fórmula fechada, mas um território no qual funk, rock, música eletrônica, piseiro, jazz e pagodão podem conviver.
Em Versão dos Fatos, CHAMELEO transforma contradições em matéria artística. Força e fragilidade, passado e presente, memória e realidade aparecem lado a lado. O resultado é o retrato de um cantor que continua mudando de pele sem perder aquilo que sustenta sua obra: a busca por uma identidade própria.
Ao construir sua carreira em torno da transformação, CHAMELEO não utiliza o camaleão apenas como nome ou símbolo visual. A mudança tornou-se seu método de criação. Cada novo projeto apresenta outra cor, outra sonoridade e outra perspectiva — como se a música fosse também uma maneira de compreender quem fomos, quem somos e quem ainda podemos nos tornar.



COMENTÁRIOS