Seja bem-vindo
Pedra Bela,22/08/2026

  • A +
  • A -
Publicidade

Carmem de Lucca

Após quase 200 anos, araras-vermelhas voltam a nascer na Mata Atlântica

Foto de Rutpratheep Nilpechr
Após quase 200 anos, araras-vermelhas voltam a nascer na Mata Atlântica

Nascimento de dois filhotes no sul da Bahia marca o retorno de uma espécie localmente extinta e mostra que recuperar uma floresta também significa devolver seus animais e suas relações ecológicas.

por Carmem de Lucca - Jornal Iconic

Durante quase dois séculos, uma voz esteve ausente de parte da Mata Atlântica. O chamado forte da arara-vermelha-grande, que um dia atravessou as florestas do litoral brasileiro, foi silenciado pela destruição do habitat e pela captura ilegal de animais.

Em 2026, esse silêncio começou a ser rompido.

Dois filhotes de arara-vermelha-grande, espécie cientificamente denominada Ara chloropterus, nasceram em liberdade no sul da Bahia. São filhos de aves que haviam vivido em cativeiro depois de serem resgatadas do tráfico ou entregues por antigos mantenedores. Após passarem por um cuidadoso processo de reabilitação, elas foram devolvidas à Mata Atlântica, formaram casais, ocuparam ninhos e conseguiram se reproduzir.

O nascimento representa muito mais do que a chegada de duas aves. É um sinal de que uma parte do ecossistema, danificada durante gerações, começa a recuperar suas antigas relações.

Uma ausência provocada pela ação humana

A arara-vermelha-grande possui ampla distribuição em algumas regiões da América do Sul e ainda pode ser encontrada em outros biomas brasileiros. No litoral da Mata Atlântica, entretanto, a espécie desapareceu há aproximadamente 200 anos.

O avanço do desmatamento eliminou grandes extensões de floresta e reduziu a disponibilidade de alimentos, abrigos e árvores antigas utilizadas para a reprodução. Ao mesmo tempo, a beleza das penas, o tamanho e a inteligência das araras fizeram com que elas se tornassem alvos frequentes do tráfico de animais silvestres.

A retirada de uma arara da natureza não representa somente a perda de um indivíduo. Para capturar um filhote, criminosos podem derrubar árvores, destruir ninhos ou matar os adultos que tentam protegê-lo. Como as araras formam vínculos duradouros e possuem um ritmo reprodutivo relativamente lento, cada perda pode comprometer a recuperação da população.

Com o passar das décadas, as aves deixaram de ocupar áreas onde antes faziam parte da paisagem. A floresta permaneceu, em alguns lugares, aparentemente verde, mas perdeu uma de suas espécies e parte de sua dinâmica ecológica.

Esse fenômeno é conhecido como defaunação: a vegetação continua presente, porém animais essenciais desaparecem. É o que alguns pesquisadores chamam de “floresta vazia”.

O retorno começou com aves resgatadas

O Projeto de Reintrodução da Arara-Vermelha-Grande na Mata Atlântica foi iniciado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, o Ibama, por meio do Centro de Triagem de Animais Silvestres de Porto Seguro.

As aves selecionadas para o programa passaram por avaliações de saúde, quarentena e acompanhamento especializado. Antes da soltura, precisaram desenvolver ou recuperar capacidades fundamentais para sobreviver sem a dependência humana.

Elas foram treinadas para voar, procurar alimentos naturais, reconhecer o ambiente e manter distância das pessoas. Esse afastamento é importante porque uma ave excessivamente habituada ao contato humano pode se aproximar de casas e estradas, tornando-se mais vulnerável à captura, a acidentes e a conflitos.

A preparação contou com a orientação do Laboratório de Etologia Aplicada da Universidade Estadual de Santa Cruz. Viveiros de voo foram financiados pelo World Parrot Trust, enquanto ninhos artificiais foram construídos pela Conservix. A Polícia Militar da Bahia participou da proteção da área de soltura.

A reintrodução, portanto, não aconteceu simplesmente com a abertura de uma gaiola. Ela exigiu ciência, planejamento, recursos, proteção territorial e trabalho conjunto entre instituições públicas, pesquisadores e organizações parceiras.

Uma floresta preparada para recebê-las

A soltura ocorreu em uma paisagem que inclui a Reserva Particular do Patrimônio Natural Estação Veracel. Localizada no sul da Bahia, a área possui cerca de 7 mil hectares de Mata Atlântica em estágio avançado de regeneração e é considerada a maior RPPN do bioma na Região Nordeste.

A presença de uma área protegida foi decisiva para o projeto. Para que uma reintrodução tenha sucesso, não basta devolver o animal ao ponto onde ele vivia no passado. É necessário verificar se o ambiente atual oferece alimento, água, locais de descanso, árvores adequadas para ninhos e segurança contra caçadores e traficantes.

A Estação Veracel também desenvolve atividades de pesquisa, monitoramento e educação ambiental. Câmeras, observações de campo e acompanhamento técnico ajudam a compreender como as espécies utilizam a reserva.

Os pais dos novos filhotes escolheram o local, estabeleceram vínculos, protegeram o ninho e alimentaram a prole. Segundo os responsáveis pelo projeto, os jovens já apresentam comportamentos selvagens, voam pela floresta e exploram o ambiente sob a supervisão dos adultos, sem interferência humana direta.

Essa autonomia é uma das evidências mais importantes do sucesso da reintrodução.

Araras também ajudam a construir a floresta

As araras não são apenas habitantes coloridos da mata. Elas participam dos processos ecológicos que mantêm a floresta viva.

Sua alimentação inclui frutos, sementes, castanhas, flores e outras estruturas vegetais. Ao carregar frutos para outros locais, manipular o alimento com o bico e abandonar sementes longe da planta de origem, determinadas espécies de araras podem contribuir para a dispersão vegetal.

Estudos realizados com grandes psitacídeos mostram que essas aves podem transportar sementes por distâncias consideráveis, ajudando algumas plantas a ocupar novas áreas. Dependendo da espécie vegetal e da forma de consumo, as araras também podem atuar como predadoras de sementes, quebrando-as para se alimentar.

Essas duas funções fazem parte do equilíbrio ecológico. Ao consumir, selecionar, transportar ou descartar sementes, as aves influenciam quais plantas conseguem germinar e onde elas aparecem na paisagem.

Por isso, recuperar uma população animal também pode ajudar a restaurar interações perdidas. Plantar árvores é indispensável, mas uma floresta não é formada somente por troncos e folhas. Ela depende das relações entre plantas, aves, mamíferos, insetos, fungos, rios e solo.

Uma área reflorestada pode levar décadas para recuperar essa complexidade. O retorno de grandes aves indica que o ambiente começa a oferecer condições para restabelecer parte dessa rede.

Nascimento é marco, mas não encerra o trabalho

A chegada dos dois filhotes é uma conquista extraordinária, mas ainda não significa que a população esteja definitivamente restabelecida na Mata Atlântica.

Uma população saudável precisa apresentar diversidade genética, número suficiente de indivíduos e capacidade de se reproduzir ao longo de várias gerações. Também necessita de áreas conectadas para que as aves possam circular, procurar alimentos e formar novos casais.

Se a floresta estiver isolada por estradas, cidades, pastagens ou grandes áreas sem vegetação nativa, os animais ficam confinados em fragmentos. Essa situação aumenta os riscos de atropelamento, eletrocussão em redes elétricas, falta de alimentos e cruzamentos entre indivíduos muito próximos geneticamente.

Os filhotes e seus pais precisarão continuar sendo monitorados. Os pesquisadores terão de observar sua sobrevivência, deslocamento, alimentação e capacidade de ocupar outros pontos da paisagem.

Também será necessário impedir novas capturas ilegais. Uma notícia positiva sobre o nascimento de uma espécie rara pode, paradoxalmente, despertar o interesse de traficantes. Por isso, detalhes sobre a localização de ninhos devem ser tratados com responsabilidade.

A comunidade também protege

A conservação não acontece somente dentro dos laboratórios ou das unidades protegidas. Moradores das áreas próximas possuem um papel fundamental na proteção das aves.

Quando a comunidade compreende a importância ecológica das araras, pode ajudar a denunciar tentativas de captura, evitar a destruição de ninhos e informar as autoridades sobre animais feridos ou em situação de risco.

A educação ambiental também contribui para reduzir a compra de animais silvestres. Sem consumidores, o tráfico perde parte de sua força econômica.

Manter uma arara ilegalmente em casa não é uma demonstração de amor. Mesmo quando recebe alimento, a ave perde a possibilidade de voar grandes distâncias, escolher seu parceiro, formar uma família e desempenhar sua função na natureza.

O lugar de uma arara é na floresta — e uma floresta com araras é ecologicamente mais completa.

Um sinal de equilíbrio ambiental

A Estação Veracel também registrou recentemente o nascimento de uma harpia, uma das maiores aves de rapina do mundo. A reprodução de harpias e araras na mesma paisagem sugere que a área consegue sustentar espécies com diferentes necessidades ecológicas.

A harpia depende de árvores de grande porte, disponibilidade de presas e extensos territórios. A arara precisa de alimento, cavidades para reprodução e espaço para seus deslocamentos. Quando espécies exigentes conseguem criar seus filhotes, isso pode funcionar como um indicador positivo da qualidade do habitat.

Ainda assim, uma reserva isolada não consegue proteger sozinha toda a biodiversidade regional. O futuro dessas aves dependerá da conservação de outros fragmentos, da recuperação das matas ciliares e da formação de corredores ecológicos.

Esses corredores conectam áreas separadas e permitem que os animais se movimentem com maior segurança. Ao mesmo tempo, favorecem a dispersão de sementes e o fluxo genético entre populações.

Dois filhotes e uma floresta com esperança

Durante quase 200 anos, gerações nasceram e morreram sem presenciar a reprodução da arara-vermelha-grande na Mata Atlântica do litoral brasileiro. Em 2026, duas pequenas aves mudaram essa história.

Elas nasceram de pais que haviam sido retirados da natureza ou mantidos em cativeiro, mas que conseguiram reaprender a voar, procurar alimento, formar um casal e proteger uma nova geração.

A história mostra que alguns danos ambientais podem ser parcialmente reparados quando existe floresta protegida, conhecimento científico, fiscalização e continuidade das políticas de conservação.

Também deixa um alerta: reintroduzir uma espécie exige anos de preparação e investimento, enquanto destruí-la pode acontecer rapidamente.

O voo desses filhotes não apaga os dois séculos de ausência. Mas devolve à Mata Atlântica um som, uma cor e uma relação ecológica que pareciam perdidos. É a prova de que conservar não significa apenas impedir novos desaparecimentos. Em alguns casos, significa criar as condições para que a vida encontre o caminho de volta.

Fontes consultadas: RPPN Estação Veracel, estudo sobre a dispersão de sementes por araras, SOS Mata Atlântica e BBC Wildlife.



COMENTÁRIOS

LEIA TAMBÉM

Buscar

Alterar Local

Anuncie Aqui

Escolha abaixo onde deseja anunciar.

Efetue o Login

Recuperar Senha

Baixe o Nosso Aplicativo!

Tenha todas as novidades na palma da sua mão.