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Pedra Bela,25/08/2026

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Carmem de Lucca

Oceanos batem recorde de calor e crise ameaça pescadores e ilhas do Sul Global

By Negoia Bei
Oceanos batem recorde de calor e crise ameaça pescadores e ilhas do Sul Global

Temperatura média da superfície do mar chegou a 21,1°C; aquecimento compromete recifes, pesca artesanal, segurança alimentar e a sobrevivência de comunidades costeiras.

O planeta registrou um novo e preocupante marco climático. A temperatura média diária da superfície dos oceanos, considerando a faixa entre 60° sul e 60° norte, alcançou 21,1°C em 22 de agosto de 2026. O resultado superou ligeiramente o recorde anterior, de 21,09°C, registrado em março de 2024.

por Carmem de Lucca - Jornal Iconic

Os dados foram divulgados pelo Serviço Copernicus de Mudanças Climáticas, da União Europeia, com base no conjunto de informações ERA5, que permite acompanhar as condições climáticas globais desde 1979.

Embora a diferença entre os dois recordes seja pequena, o momento em que a nova marca foi atingida chama a atenção dos cientistas. Normalmente, a temperatura média global dos oceanos chega aos níveis mais elevados em março ou abril, depois do verão no Hemisfério Sul. Desta vez, o recorde ocorreu em agosto.

O Copernicus recomenda que um resultado diário não seja interpretado isoladamente. Entretanto, a nova marca integra uma sequência prolongada de temperaturas oceânicas excepcionalmente elevadas, associada ao aquecimento global provocado pelas atividades humanas e ao fortalecimento do fenômeno El Niño.

El Niño aumenta a pressão sobre um oceano já aquecido

A Organização Meteorológica Mundial informou, em 31 de julho, que um El Niño forte estava em desenvolvimento e deveria se intensificar entre agosto e outubro de 2026. O fenômeno ocorre quando as águas do Pacífico tropical ficam mais quentes que o normal, alterando a circulação dos ventos e os regimes de chuva em diferentes partes do planeta.

O El Niño é um fenômeno natural, mas seus efeitos agora acontecem sobre um planeta que já acumula décadas de aquecimento provocado principalmente pela queima de carvão, petróleo e gás. Essa combinação pode ampliar ondas de calor, secas, chuvas intensas, enchentes e incêndios florestais.

As consequências, porém, não são iguais em todos os territórios. Países pobres, comunidades costeiras e pequenos Estados insulares possuem menos recursos para financiar sistemas de alerta, reconstruir moradias ou compensar trabalhadores que perdem suas fontes de renda.

Pescadores percebem a mudança antes das estatísticas

Para quem depende da pesca artesanal, o aquecimento do mar não é apenas um dado científico. Ele pode significar redes vazias, viagens mais longas, aumento dos custos com combustível e desaparecimento de espécies tradicionalmente capturadas perto da costa.

Com a elevação da temperatura, peixes e outros organismos marinhos podem migrar em busca de águas mais frias. Corais sofrem branqueamento e mortalidade, enquanto manguezais e bancos de vegetação marinha enfrentam pressões causadas também pela elevação do nível do mar, pela acidificação e pela redução do oxigênio na água.

Esses ambientes funcionam como áreas de reprodução e proteção para diversas espécies. Quando são degradados, toda a cadeia alimentar é afetada — da pequena comunidade pesqueira até os mercados urbanos abastecidos por ela.

Na costa do Chile, pescadores artesanais já relatam mudanças na quantidade e na disponibilidade de espécies, segundo levantamento da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura. Na comunidade de El Manzano, onde grande parte da população depende da pesca, da coleta de mariscos e do cultivo de algas, os trabalhadores precisam adaptar ou complementar suas atividades para conseguir sobreviver.

Nas Filipinas, um estudo divulgado pela FAO mostra que pescadores de pequena escala enfrentam elevação do nível do mar, degradação de habitats, tempestades mais severas e danos aos equipamentos de trabalho. As comunidades reivindicam proteção social, assistência financeira e participação nas políticas de adaptação climática.

Pequenas ilhas enfrentam ameaça à própria existência

Os pequenos Estados insulares estão entre os territórios mais vulneráveis. De acordo com as Nações Unidas, esse grupo é formado por 39 países e 18 territórios associados, distribuídos pelo Caribe, Pacífico, Atlântico, Oceano Índico e Mar do Sul da China.

Juntos, esses territórios possuem aproximadamente 65 milhões de habitantes — menos de 1% da população mundial. Apesar de sua pequena contribuição para as emissões históricas de gases de efeito estufa, enfrentam riscos desproporcionais.

A elevação do nível do mar ameaça moradias, estradas, portos, escolas e unidades de saúde. A entrada de água salgada pode contaminar aquíferos e prejudicar a agricultura. Já a perda dos recifes compromete a pesca, o turismo e a proteção natural contra ondas e tempestades.

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas alerta que o aumento da temperatura oceânica, a acidificação, a perda de oxigênio e os eventos extremos prejudicam recifes, manguezais e pradarias marinhas. Essas perdas afetam diretamente a alimentação e a renda das populações insulares, que obtêm parte importante de suas proteínas e recursos econômicos do mar.

Mesmo que o aquecimento global seja limitado a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais, as Nações Unidas reconhecem que os pequenos Estados insulares continuarão enfrentando perdas e danos severos.

A desigualdade também está no mar

A crise oceânica revela uma das maiores injustiças do nosso tempo. Os países industrializados acumularam riqueza emitindo a maior parte dos gases responsáveis pelo aquecimento global. Entretanto, pescadores artesanais, povos tradicionais e habitantes de pequenas ilhas — que pouco contribuíram para o problema — estão entre os primeiros a perder renda, moradia e território.

Por isso, as respostas não podem se limitar à divulgação de novos recordes. É necessário fortalecer fundos internacionais destinados à adaptação e à reparação por perdas e danos, proteger manguezais e recifes, apoiar a pesca artesanal e garantir participação das comunidades nas decisões.

Também são necessárias políticas de segurança alimentar e proteção social para os períodos em que a pesca se torna inviável. Sistemas de alerta e infraestrutura costeira precisam chegar às periferias, aldeias e ilhas remotas, e não permanecer concentrados apenas nas áreas turísticas ou economicamente valorizadas.

Um oceano mais quente modifica chuvas, tempestades, ecossistemas e economias inteiras. O recorde de 21,1°C não representa somente uma nova linha em um gráfico climático: é um aviso sobre o futuro de milhões de pessoas cuja casa, cultura e sobrevivência dependem diretamente do mar.

Fontes: Copernicus — recorde da temperatura da superfície dos oceanos, Organização Meteorológica Mundial — fortalecimento do El Niño, IPCC — mudanças climáticas e pequenas ilhas, ONU — pequenos Estados insulares, FAO — pescadores artesanais do Chile e FAO — impactos sobre a pesca nas Filipinas



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