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Pedra Bela,24/08/2026

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Hyundai retoma negociação após greve colocar inteligência artificial no centro da disputa trabalhista

Paralisação de 40 mil funcionários na Coreia do Sul revela que a automação não é apenas um debate tecnológico: envolve salários, aposentadoria, estabilidade e distribuição dos ganhos de produtividade

por Beto Guimarães Takeshi - Jornal Iconic

Greve na Hyundai: trabalhadores exigem proteção contra demissões provocadas por inteligência artificial e robôs.

A retomada das negociações entre a Hyundai Motor e seu sindicato, nesta segunda-feira, 24 de agosto, ocorre depois de uma mobilização histórica. Cerca de 40 mil trabalhadores participaram, na sexta-feira, da primeira paralisação integral realizada em dez anos nas fábricas sul-coreanas da montadora.

Embora a negociação inclua reivindicações salariais tradicionais, o conflito ganhou uma dimensão maior. No centro da disputa está o avanço da inteligência artificial, da automação industrial e dos robôs humanoides. Os trabalhadores querem garantias de que a modernização das fábricas não será utilizada para eliminar empregos, reduzir salários ou substituir funcionários experientes por contratos temporários e precários.

A greve da Hyundai antecipa uma discussão que deverá alcançar trabalhadores de diferentes países e setores econômicos: afinal, quem ficará com os ganhos de produtividade produzidos pelas novas tecnologias?

O que reivindicam os trabalhadores

O sindicato pede um aumento de 149 mil won no salário-base mensal — aproximadamente US$ 108 — e a ampliação das bonificações anuais. O pagamento reivindicado equivale a 800% do salário-base mensal, ante os atuais 750%.

A categoria também defende a elevação da idade de aposentadoria compulsória dos atuais 60 para 65 anos e garantias formais de emprego diante da introdução da inteligência artificial e da automação.

As principais reivindicações são:



  • reajuste do salário-base mensal;


  • aumento das bonificações;


  • elevação da idade de aposentadoria de 60 para 65 anos;


  • proteção contra demissões provocadas pela automação;


  • participação sindical nas decisões sobre a adoção de robôs humanoides;


  • proteção dos trabalhadores de empresas fornecedoras;


  • combate à recontratação de profissionais aposentados por meio de vínculos temporários e salários inferiores.

O presidente do sindicato da Hyundai, Lee Jong-cheol, afirmou durante a manifestação que trabalhadores que ajudaram a transformar Hyundai e Kia em empresas globais, depois de 35 ou 40 anos de atuação, estariam sendo empurrados para contratos temporários.

A reivindicação sobre a aposentadoria possui peso especial na Coreia do Sul. Segundo a OCDE, a legislação permite aposentadoria compulsória aos 60 anos, três anos antes da idade normal de acesso à aposentadoria. O país também possui elevada pobreza entre idosos e benefícios previdenciários relativamente baixos. Para a entidade, ampliar o período de contribuição poderia melhorar a renda dos aposentados. OCDE — sistema previdenciário da Coreia do Sul

Robôs humanoides deixam de ser ficção

A preocupação dos trabalhadores não é abstrata. A Hyundai controla a Boston Dynamics, fabricante do robô humanoide Atlas, desenvolvido para trabalhar em ambientes industriais.

A estratégia anunciada pela companhia prevê que robôs Atlas sejam empregados, a partir de 2028, em atividades repetitivas de organização e sequenciamento de peças. Posteriormente, os equipamentos poderão assumir tarefas mais complexas nas linhas de montagem.

A Hyundai pretende instalar uma estrutura capaz de produzir até 30 mil robôs por ano até 2028. A primeira aplicação industrial deverá ocorrer na fábrica do grupo no estado da Geórgia, nos Estados Unidos, antes de uma expansão gradual para outras unidades.

Os novos robôs não funcionarão apenas como máquinas mecânicas programadas para repetir um único movimento. Equipados com sistemas de inteligência artificial, eles poderão aprender tarefas, compartilhar conhecimentos com outros robôs da mesma rede e receber atualizações remotamente.

A própria companhia apresenta essa estratégia como o início de uma relação “segura e colaborativa” entre humanos e robôs. O sindicato, entretanto, cobra que essa promessa seja transformada em compromissos trabalhistas concretos. Hyundai — estratégia de robótica e inteligência artificial

A inteligência artificial pode atingir também os engenheiros

A automação das montadoras não ameaça apenas os trabalhadores diretamente ligados às linhas de produção. Representantes sindicais alertam que ferramentas de inteligência artificial poderão modificar ou eliminar atividades administrativas, técnicas, de pesquisa, desenvolvimento e engenharia.

Esse é um ponto importante da mobilização. Durante décadas, o debate sobre automação concentrou-se nos trabalhos manuais e repetitivos. Com a inteligência artificial generativa e os sistemas autônomos, a transformação alcança também funções que exigem formação universitária e conhecimento especializado.

Isso significa que desenhistas, programadores, analistas, engenheiros, profissionais administrativos e pesquisadores também poderão ter suas rotinas reorganizadas. Em alguns casos, a IA poderá servir como ferramenta de apoio; em outros, poderá ser utilizada para reduzir equipes e aumentar a carga de trabalho dos profissionais que permanecerem.

A disputa, portanto, não se resume a ser contra ou a favor da tecnologia. O que está em discussão é a forma como ela será introduzida e quem terá poder para decidir sobre seus impactos.

Receita recorde, mas lucro menor

A Hyundai encerrou o segundo trimestre de 2026 com receita recorde de 49,22 trilhões de won, crescimento de 1,9% na comparação anual. O resultado foi impulsionado principalmente pelas vendas de veículos híbridos e pelo desempenho da empresa na América do Norte.

O lucro operacional, porém, caiu 20,8%, para 2,85 trilhões de won. A montadora atribuiu a redução às dificuldades com fornecedores, ao aumento dos custos das matérias-primas e à concorrência internacional. As vendas globais também recuaram 6,9%, enquanto o volume comercializado na Coreia do Sul diminuiu 16,4%.

Os números mostram uma situação mais complexa do que a simples oposição entre “empresa lucrativa” e “trabalhadores insatisfeitos”. A Hyundai mantém receita elevada, paga dividendos e investe bilhões em inteligência artificial, eletrificação e robótica, mas enfrenta queda nas margens e concorrência crescente das montadoras chinesas.

Para o sindicato, mesmo nesse cenário, os trabalhadores não podem ser obrigados a assumir sozinhos os custos da transição tecnológica. Hyundai — resultados do segundo trimestre de 2026

Paralisações já atingiram mais de 55 mil veículos

Antes da paralisação integral de 21 de agosto, os trabalhadores vinham realizando interrupções parciais desde o fim de julho. Segundo estimativa da agência sul-coreana Yonhap, essas mobilizações afetaram a fabricação de aproximadamente 55,2 mil veículos, avaliados em mais de 2,3 trilhões de won — cerca de US$ 1,67 bilhão.

A greve integral alcançou todas as jornadas de trabalho e foi acompanhada por uma manifestação em frente à sede da Hyundai, em Seul. Além dos funcionários da montadora, participaram trabalhadores da Kia, de empresas fornecedoras e integrantes da Federação Coreana dos Trabalhadores Metalúrgicos.

A Hyundai declarou que permanece comprometida com a busca de uma solução por meio do diálogo. Segundo a empresa, novas paralisações poderão afetar consumidores, fornecedores e operações justamente em um momento de transformação da indústria automobilística.

O sindicato, por sua vez, informou que decidirá sobre novas mobilizações de acordo com o conteúdo das propostas apresentadas pela direção. Reuters — greve e reivindicações dos trabalhadores

Quem ficará com os ganhos da tecnologia?

A tecnologia pode retirar trabalhadores de atividades perigosas, reduzir o esforço físico e aumentar a eficiência das fábricas. Contudo, sem negociação e proteção social, os mesmos recursos podem concentrar renda, reduzir postos de trabalho e transferir os ganhos de produtividade exclusivamente para acionistas e executivos.

Se um robô permite fabricar mais veículos em menos tempo, diferentes caminhos são possíveis. A empresa pode reduzir o número de funcionários e aumentar seus resultados financeiros. Mas também pode diminuir a jornada sem reduzir salários, qualificar os trabalhadores para novas funções, melhorar as condições de trabalho e distribuir parte dos ganhos de produtividade.

É exatamente essa escolha política e econômica que a greve da Hyundai coloca em evidência.

Os trabalhadores não reivindicam apenas a conservação indefinida de todas as funções existentes. Eles querem participar das decisões sobre a transformação do trabalho e exigem garantias de que não serão tratados como descartáveis depois de décadas contribuindo para o crescimento da companhia.

Uma disputa com alcance mundial

O que acontece na Coreia do Sul pode influenciar negociações trabalhistas em outras montadoras. Hyundai e Kia mantêm fábricas e fornecedores em diversos países, inclusive no Brasil, e suas decisões tecnológicas tendem a ser reproduzidas ao longo das cadeias globais de produção.

Caso o sindicato consiga estabelecer regras de proteção, consulta prévia, qualificação profissional e distribuição dos benefícios da automação, o acordo poderá servir de referência internacional. Se a adoção da tecnologia ocorrer sem contrapartidas, poderá estimular outras empresas a conduzir processos semelhantes sem participação dos trabalhadores.

A greve da Hyundai apresenta, assim, uma pergunta decisiva para o futuro: a inteligência artificial será utilizada para libertar as pessoas de atividades exaustivas e melhorar suas vidas ou para ampliar a insegurança, a precarização e a desigualdade?










































A resposta não será dada apenas nos laboratórios de tecnologia. Ela também será construída nas fábricas, nos sindicatos, nas negociações coletivas e nas decisões dos governos.




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