Marilu Gomes
Dia da Consciência Negra: progresso real, mas a luta continua
Dia da Consciência Negra: progresso real, mas a luta continua
O Brasil avançou. Há feriado nacional, políticas estruturadas, reconhecimento cultural. Mas não podemos nos enganar: o fato de celebrarmos não significa que chegamos ao fim da jornada. Ao contrário, o Dia da Consciência Negra, em 2025 e além, deve ser menos festa e mais um chamado à ação para transformar avanços simbólicos em igualdade real e duradoura.
No Brasil, o 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, tornou-se mais do que uma efeméride simbólica é um momento profundo de reflexão sobre raça, história e justiça. Instituído como feriado nacional em 2023 pela Lei 14.759/23, o dia homenageia Zumbi dos Palmares, líder quilombola e símbolo da resistência negra contra a escravidão.
Reconhecimento institucional e cultural: avanços bem-vindos
Em primeiro lugar, é legítimo celebrar os ganhos simbólicos. Tornar o Dia da Consciência Negra feriado nacional significa reconhecer, oficialmente, que a trajetória negra é parte central da história do Brasil não um detalhe periférico.
Isso não é apenas uma homenagem: é uma afirmação política. A ministra da Cultura já destacou que a cultura negra música, literatura, religião, estética foi fundamental para a formação do Brasil e merece ser valorizada na agenda nacional.
Além disso, nas políticas públicas, há sinais positivos de avanço concreto. Um exemplo é o Plano Juventude Negra Viva, lançado em 2024, com orçamento de mais de R$ 700 milhões para ações em educação, segurança, saúde e cultura.
Também na saúde, o Ministério da Saúde implementou sua Estratégia Antirracista, com um plano de ação para 2025 que visa reduzir desigualdades no atendimento, padronizar dados raciais e reforçar ações afirmativas para populações vulneráveis como quilombolas.
Indicadores sociais: melhoras reais, mas insuficientes
Dados recentes mostram que há um certo progresso nas desigualdades. Segundo o Relatório do Observatório Brasileiro das Desigualdades (Dieese, 2025), alguns indicadores educação, emprego, meio ambiente apresentaram melhora.
Por outro lado, as desigualdades raciais ainda são profundas. Em estados como a Bahia, a população negra (pretos e pardos) representa quase 80%, mas persiste uma grande disparidade salarial e de acesso à educação plena.
No universo acadêmico, há também avanços: segundo a Fiocruz, os negros ultrapassaram os brancos em participação nas universidades públicas, mas nos cursos mais concorridos (Medicina, Engenharia, Direito) a sua presença ainda é muito menor. Da mesma forma, nas lideranças científicas, a participação de pesquisadores negros cresceu: desde 2000, o percentual de grupos de pesquisa liderados por negros saltou de 11,6% para 28,1%.
A persistência do racismo estrutural
Apesar das conquistas, o racismo estrutural não foi erradicado e isso exige honestidade na reflexão. A 5ª Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CONAPIR), realizada em 2025, reforçou demandas históricas: reparação, justiça racial, e atenção a formas modernas de discriminação, como o racismo ambiental.
No contexto do sistema prisional, por exemplo, negros continuam super-representados. Segundo o Ministério dos Direitos Humanos, a desigualdade racial é evidente na população encarcerada, o que reforça que nem todas as trajetórias simbólicas se traduzem em igualdade real.
Por que ainda precisamos celebrar e lutar
Meu ponto de vista é claro: o Dia da Consciência Negra é mais necessário do que nunca. Por quê?
A memória importa: afirmar Zumbi e a cultura negra é constante resistência contra narrativas que invisibilizam a escravidão ou tratando a abolição como simples “ato de misericórdia”.
Políticas afirmativas são válidas e urgentes: o progresso nos dados educacionais e de emprego só existe porque há políticas que consideram raça sem elas, muitos avanços recuariam.
Desigualdade continua cruel: o Brasil ainda é marcado por disparidades profundas nos salários, na vivência social e no poder institucional. O simples reconhecimento do feriado não resolve tudo.
A luta é coletiva: o enfrentamento ao racismo exige participação de todos governo, sociedade civil, empresas. As conferências, os planos e os debates públicos são essenciais para manter a pressão por justiça.
Por Marilu Gomes



COMENTÁRIOS