Marilu Gomes
Outubro e as atividades afro-brasileiras que antecedem o Mês da Consciência Negra
Outubro e as atividades afro-brasileiras que antecedem o Mês da Consciência Negra
O mês de outubro tem se consolidado como um período de aquecimento cultural e social para as celebrações de novembro, especialmente para o Dia da Consciência Negra, em 20 de novembro. Em diversas cidades brasileiras, o calendário de outubro é marcado por eventos, oficinas, feiras e mostras dedicadas à valorização da cultura afro-brasileira, abrindo espaço para artistas, empreendedores e lideranças comunitárias negras.
Em Salvador, por exemplo, grupos de samba-reggae e blocos afro, como Ilê Aiyê e Olodum, realizam oficinas de percussão e ensaios abertos, preparando o público para as grandes celebrações de novembro. Já em São Paulo, o Museu Afro Brasil e o Sesc promovem exposições e debates sobre identidade e representatividade, destacando o legado de intelectuais e artistas negros no país.
No Rio de Janeiro, rodas de jongo, capoeira e saraus poéticos ocupam praças e centros culturais, reforçando o papel das manifestações afro-brasileiras como pilares da identidade nacional. Além disso, o mês também é utilizado por muitas instituições de ensino para trabalhar temas relacionados à história e cultura afro-brasileira, conforme previsto na Lei 10.639/2003, que torna obrigatório o ensino dessas temáticas nas escolas.

Foto By Joshua Macnight
Outubro e o movimento cultural afro: preparação, fomento e visibilidade
Outubro tem se consolidado como um mês estratégico para o fortalecimento da cultura afro-brasileira, servindo como palco para o lançamento de iniciativas, editais e ações culturais que reposicionam a população negra no centro do debate público. Nesse período, agenda-se uma série de eventos, programas educativos e chamamentos oficiais que antecedem as celebrações do Novembro Negro e do Dia da Consciência Negra e que buscam manter viva a memória, estimular a produção artística e mobilizar redes de solidariedade cultural.
Editais e mecanismos de fomento público
Em 2025, a Fundação Cultural Palmares instituiu o Edital “Sementes da Ancestralidade”, com inscrições abertas entre 17 de setembro e 6 de outubro, para selecionar 25 projetos culturais afro-brasileiros que atuem em diferentes linguagens artísticas e territoriais. Esse edital reforça o compromisso da instituição com a descentralização do fomento cultural e com o reconhecimento de iniciativas negras em todo o país.
Além disso, em outubro, houve a divulgação de outro edital da Palmares para apoiar agentes culturais negros com recursos de até R$ 46 mil. Esse tipo de iniciativa visa estimular projetos de base local e dar visibilidade a artistas, coletivos e expressões culturais pouco reconhecidas nos circuitos mainstream.
Também importante é o papel da Fundação Cultural Palmares no oferecimento de auxílio financeiro através de editais e chamamentos públicos para promoção e preservação da cultura afro-brasileira. Organizações culturais elegíveis podem submeter propostas para seleção e execução de projetos de caráter cultural afro.
Esses mecanismos de fomento são uma engrenagem essencial para tornar viáveis iniciativas de base, especialmente em comunidades periféricas e territórios historicamente marginalizados. Ainda assim, o desafio persiste: ampliar o acesso a esses editais, garantir a estruturação dos projetos e assegurar que os recursos cheguem de forma eficiente e transparente.
Agenda cultural: encontros, mostras e programação afro
Em outubro, também se anunciam eventos que dialogam com a ancestralidade e a memória negra. Uma dessas ações foi divulgada pela Fundação Palmares: nos dias 29, 30 e 31 de outubro haverá um ciclo de celebrações com arte, literatura e música afro-brasileira. Essa programação permite que o público antecipe reflexões, vivências culturais e participação comunitária que reverberarão nas semanas seguintes até o Dia da Consciência Negra.
Ademais, organizações sociais, casas culturais negras e coletivos artísticos costumam promover oficinas de percussão, rodas de capoeira, saraus literários, palestras sobre história negra e lançamentos editoriais ao longo de outubro como estratégia de aquecimento cultural.
Políticas educacionais e institucionalização da cultura afro
A inserção da cultura afro-brasileira no ambiente escolar é respaldada pela Lei 10.639/2003, que tornou obrigatório o ensino de “História e Cultura Afro-Brasileira” nas escolas de Ensino Fundamental e Médio e instituiu o 20 de novembro como o Dia da Consciência Negra no calendário escolar. No mês de outubro, muitas escolas aproveitam para preparar conteúdos, projetos interdisciplinares e mostras de arte relacionadas à temática afro, antecipando reflexões que serão retomadas em novembro.
Na esfera acadêmica, as instituições federais e estaduais têm implementado NEABIs (Núcleos de Estudos, Pesquisa e Extensão Afro-Brasileiros e Indígenas), que fomentam debates e ações permanentes sobre identidades raciais e políticas afirmativas. Esses núcleos, estabelecidos em resposta às demandas do movimento negro, fortalecem a interlocução entre ensino, pesquisa e ativismo.
Contexto institucional e discursos públicos
A atuação governamental e ministerial também contribui para a agenda afro-cultural em outubro. O Ministério da Cultura, por meio da campanha “Cultura Negra Vive”, lançou uma iniciativa para denunciar o racismo contra tradições de matriz africana e incentivar o registro e visibilidade de ações culturais por todo o país. Essa campanha oferece um formulário para que instituições e cidadãos cadastrem projetos no Mapa Brasil pela Igualdade Racial, fortalecendo o mapeamento nacional das ações culturais negras. AlmaPreta
Em âmbito político e diplomático, o governo federal tem buscado estreitar o diálogo com a África como estratégia simbólica e cultural. Por exemplo, na Conferência da Diáspora Africana nas Américas, o ministro Silvio Almeida enfatizou a importância da reconexão institucional e cultural entre Brasil e África, afirmando que “precisamos nos reconectar para reconfigurar as discussões intelectuais e afro-brasileiras”. Agência Gov+1
Outra iniciativa de relevância é o projeto “Respeite meu Terreiro Racismo religioso contra os povos tradicionais de religiões de matriz africana”, impulsionado pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC). Ele consiste em uma consulta digital aos dirigentes de terreiros para mapear agressões racistas sofridas por esses espaços e construir políticas de proteção e visibilidade. Serviços e Informações do Brasil
Desafios e tensões
Apesar dos avanços nas políticas culturais e educacionais, persistem desafios estruturais. Entre eles, destacam-se:
A desigualdade no acesso aos editais: muitos interessados enfrentam dificuldades técnicas, burocráticas ou falta de informação para participar.
A sustentabilidade institucional dos projetos culturais afro, que dependem frequentemente de recursos instáveis e de curto prazo.
A necessidade de articulação entre diferentes esferas (governo, sociedade civil, coletivos culturais) para que as ações de outubro não se fragmentem, mas se consolidem como parte de um fluxo contínuo de valorização da cultura negra.
O risco de que as ações se limitem a simbologias em datas pontuais, sem avanço efetivo em políticas estruturantes para equiparar desigualdades históricas.
Outubro como campo de ação transformadora
Outubro vem sendo mais do que um preâmbulo: é um período de disparo simbólico, em que a cultura negra ocupa espaços com força, visibilidade e reivindicação. As iniciativas oficiais e voluntárias se entrelaçam para demonstrar que a cultura afro-brasileira não é um adendo, mas um elemento constitutivo da identidade nacional.
Para que esse potencial seja plenamente aproveitado, é fundamental que as ações de outubro não desapareçam com o fim do mês. Elas devem alimentar aprendizagens, redes e políticas que se estendam por todo o ano. A cultura afro resiste e é nas sementes plantadas em outubro que florescerá o protagonismo negro no 20 de novembro e além.



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