Regina Papini Steiner
Saúde Mental.
A saúde mental, historicamente envolta em estigmas e interpretaçõesequivocadas, começa a ganhar espaço mais qualificado no debate público, masainda enfrenta barreiras profundas. A desinformação, muitas vezes reforçada pordiscursos simplistas, contribui para a marginalização de milhões de pessoas queconvivem com transtornos mentais em silêncio.
Dados da OrganizaçãoMundial da Saúde indicam que cerca de 1 em cada 8 pessoas no mundo vivecom algum transtorno mental. Entre os mais comuns estão a depressão e os transtornos de ansiedade, que, somados, representam uma dasmaiores causas globais de afastamento do trabalho e perda de produtividade.Ainda assim, estima-se que mais de 70% dessas pessoas não recebem tratamentoadequado, especialmente em países de média e baixa renda.
No Brasil, o cenário reflete essa realidade.Segundo o Ministério da Saúde, osatendimentos relacionados à saúde mental cresceram significativamente nosúltimos anos, especialmente após a pandemia de COVID-19, um evento classificadocomo Pandemia de COVID-19, queintensificou quadros de sofrimento psíquico em diferentes faixas etárias.Jovens e adolescentes, em particular, passaram a apresentar índices maiselevados de ansiedade, depressão e ideação negativa, exigindo respostas maisestruturadas do sistema público de saúde.
Um dos principais entraves para oenfrentamento do problema continua sendo o estigma. A ideia de que transtornosmentais são sinônimo de fraqueza pessoal ou falta de controle emocional aindapersiste, apesar do consenso científico contrário. Especialistas das áreas de psiquiatria e psicologiadestacam que esses transtornos resultam de uma complexa interação entre fatoresbiológicos, psicológicos e sociais incluindo predisposição genética, contextosde vulnerabilidade e eventos traumáticos.
Outro ponto crítico é a desinformação nasredes sociais. Conteúdos que banalizam diagnósticos ou romantizam o sofrimentomental têm ganhado visibilidade, criando uma percepção distorcida da realidadeclínica. Termos como “depressivo” ou “ansioso” são frequentemente utilizadosfora de contexto, reduzindo condições sérias a traços de personalidade. Essefenômeno não apenas compromete a compreensão pública, como pode atrasar a buscapor diagnóstico e tratamento adequados.
No campo do tratamento, também persistemmitos. O uso de medicamentos, como fluoxetinae sertralina, ainda é cercado porpreconceitos, apesar de sua eficácia comprovada em diversos estudos clínicos.Da mesma forma, a psicoterapia segue sendo subestimada por parte da população,embora seja considerada uma das principais estratégias no cuidado contínuo emsaúde mental.
A estrutura de atendimento, por sua vez,também enfrenta desafios. No Brasil, a política de atenção psicossocial,baseada em serviços comunitários como os Centros de Atenção Psicossocial(CAPS), busca substituir modelos hospitalocêntricospor abordagens mais integradas e humanizadas. No entanto, a cobertura ainda édesigual, e faltam investimentos consistentes para ampliar o acesso e aqualidade dos serviços.
Desmistificar a doença mental exige mais doque campanhas pontuais. Trata-se de um processo contínuo que envolve educação, responsabilidademidiática e políticas públicas eficazes. A imprensa, nesse contexto, desempenhapapel central ao tratar o tema com rigor, evitando tanto o sensacionalismoquanto a simplificação excessiva.
Aocompreender a saúde mental como parte indissociável da saúde geral, a sociedadedá um passo importante para reduzir desigualdades e promover dignidade. Afinal,transtornos mentais não são exceção são parte da realidade humana e devem serenfrentados com informação, empatia e compromisso coletivo.
Diante desse cenário, a pergunta que se impõe não é mais “se” devemos falarsobre saúde mental, mas “como” e “com que responsabilidade”. É urgente romper ociclo de silêncio e preconceito. Informar-se, acolher sem julgamento eincentivar a busca por ajuda são atitudes que podem salvar vidas.
Sevocê reconhece sinais de sofrimento em si ou em alguém próximo, não ignore.Procure orientação profissional, dialogue, compartilhe informação de qualidade.A saúde mental precisa sair do campo do tabu e ocupar o espaço que lhe édevido: o de prioridade pública e compromisso coletivo.
por Regina Papini Steiner



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