Marilu Gomes
Terreiros de Candomblé enfrentam aumento da intolerância, mas ampliam reconhecimento cultural e jurídico no Brasil
Os terreiros de Candomblé vivem um momento de contrastes no Brasil. Enquanto crescem o reconhecimento institucional, as políticas de preservação do patrimônio cultural e a valorização das religiões de matriz africana, persistem episódios de intolerância religiosa, racismo e violência que atingem comunidades tradicionais em diferentes regiões do país. Especialistas apontam que os terreiros deixaram de ser vistos apenas como espaços religiosos para serem reconhecidos também como importantes centros de preservação da memória, da cultura afro-brasileira, da educação e da assistência comunitária.
O Candomblé, religião de origem africana desenvolvida no Brasil durante o período escravocrata, possui milhares de terreiros espalhados pelo país. Essas comunidades desempenham papel fundamental na preservação das tradições dos povos africanos, transmitindo conhecimentos sobre ancestralidade, música, dança, culinária, medicina tradicional e respeito à natureza.
Intolerância religiosa continua preocupando
Apesar da Constituição Federal garantir liberdade religiosa e de o Brasil ser oficialmente um Estado laico, ataques contra terreiros continuam sendo registrados por órgãos públicos e entidades de direitos humanos.
Os casos incluem invasões de templos, depredação de imagens sagradas, incêndios criminosos, ameaças a sacerdotes e discursos de ódio nas redes sociais. Especialistas ressaltam que boa parte dessas ocorrências está relacionada ao racismo religioso, conceito utilizado para caracterizar ataques direcionados especificamente às religiões de matriz africana devido à sua origem histórica e étnica.
O episódio envolvendo a ialorixá Mãe Gilda, na Bahia, tornou-se um dos principais símbolos dessa luta. Após sofrer intensa perseguição e ter seu terreiro atacado, sua morte motivou a criação do Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, celebrado em 21 de janeiro.
Muito além da religião
Para pesquisadores, reduzir os terreiros apenas ao aspecto religioso significa ignorar sua importância histórica e social.
Esses espaços funcionam como centros comunitários onde são desenvolvidas ações de acolhimento, distribuição de alimentos, preservação ambiental, transmissão de conhecimentos tradicionais e fortalecimento da identidade negra.
O próprio Governo Federal reconhece oficialmente os povos e comunidades de terreiro como povos tradicionais, assegurando acesso a políticas públicas específicas voltadas para segurança alimentar, cultura, direitos humanos e preservação de seus territórios culturais.
Patrimônio cultural brasileiro
Nos últimos anos, diversos terreiros passaram a receber reconhecimento como patrimônio histórico e cultural.
Em São Paulo, por exemplo, comunidades tradicionais foram tombadas pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico (Condephaat), garantindo maior proteção jurídica aos espaços considerados fundamentais para a preservação da memória afro-brasileira. Estudos antropológicos demonstram que esses locais representam importantes referências culturais para diversas gerações.
Além disso, iniciativas nacionais vêm mapeando milhares de terreiros brasileiros para fortalecer sua proteção, facilitar o acesso às políticas públicas e combater a invisibilidade dessas comunidades.
Desafios para o futuro
Pesquisadores afirmam que o principal desafio continua sendo combater a intolerância religiosa por meio da educação, do cumprimento da legislação e da valorização da diversidade cultural brasileira.
Organizações da sociedade civil defendem que políticas públicas voltadas ao reconhecimento dos povos de terreiro devem ser ampliadas, especialmente em áreas como segurança, preservação patrimonial, combate ao discurso de ódio e proteção dos líderes religiosos.
Ao mesmo tempo, cresce o entendimento de que os terreiros representam não apenas espaços de fé, mas também importantes guardiões da memória africana no Brasil, contribuindo para a construção da identidade nacional e para a promoção do respeito à diversidade religiosa.
Em um país marcado pela pluralidade cultural, especialistas lembram que proteger os terreiros significa também preservar parte da própria história brasileira e reafirmar um princípio fundamental da democracia: o direito de cada cidadão exercer livremente sua crença, sem discriminação ou violência.
Por Marilu Gomes



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