Regina Papini Steiner
O Itamaraty fez o que qualquer Estado soberano deveria fazer
Quandodefender a democracia deixa de ser opção e passa a ser obrigação
PorRegina Papini Steiner – Jornal Iconic
Há momentos em que a diplomacia precisa abandonar a linguagem protocolar para transmitir uma mensagem inequívoca ao mundo. A decisão do Itamaraty de negar vistos diplomáticos a auxiliares do presidente norte-americano Donald Trump foi um desses momentos.
Não se trata de um gesto contra os Estados Unidos. Tão pouco representa hostilidade ao povo americano. Trata-se, acima de tudo, da defesa de um princípio elementar do Direito Internacional: nenhum país tem o direito de interferir na organização política e eleitoral de outro Estado soberano.
Durante décadas, o Brasil consolidou uma tradição diplomática reconhecida internacionalmente por sua discrição, capacidade de diálogo e respeito ao multilateralismo. Essa tradição nunca significou submissão. Pelo contrário:sempre esteve fundamentada na defesa da autodeterminação dos povos e da não intervenção em assuntos internos, princípios inscritos na Constituição Federale na Carta das Nações Unidas.
Foi exatamente isso que o Itamaraty reafirmou. A intenção de integrantes do governo Trump de viajar ao Brasil para discutir o sistema eleitoral brasileiro ultrapassava os limites naturais da cooperação diplomática. O Tribunal Superior Eleitoral possui autonomia constitucional. As eleições brasileiras são organizadas por instituições nacionais e acompanhadas por missões internacionais convidadas oficialmente, dentro de regras previamente estabelecidas.
Não cabe a representantes políticos de governos estrangeiros atuar como fiscais informais de uma democracia que não lhes pertence.
Permitir esse tipo de iniciativa abriria um precedente extremamente perigoso.
Imagine se autoridades brasileiras decidissem enviar representantes para acompanhar ou questionar as eleições presidenciais dos Estados Unidos sem qualquer convite oficial. A reação de Washington seria imediata. Nenhuma potência aceita interferências dessa natureza em seu território. O Brasil também não deveaceitar.
Mais do que um ato administrativo, a negativa dos vistos tornou-se uma demonstração de maturidade institucional. O Itamaraty mostrou que a defesa da soberania nacional não depende do tamanho econômico ou militar de um país, mas da firmezacom que ele protege suas instituições.
É importante destacar que soberania não significa isolamento.
Brasil e Estados Unidos continuarão sendo parceiros comerciais, científicos, culturais e estratégicos. As relações diplomáticas entre os dois países, possuem mais de dois séculos de história e sobrevivem a mudanças de governo, diferenças ideológicas e disputas políticas.
Justamente por isso, o respeito precisa ser recíproco.
Nenhuma amizade internacional pode ser construída sobre a premissa de que uma das partes possui autoridade para interferir nas decisões internas da outra.Relações maduras exigem diálogo, mas também limites claros.
A decisão do Itamaraty também produz um efeito simbólico importante para a comunidade internacional. Em um período marcado pelo crescimento da desinformação, das campanhas de legitimação eleitoral e da polarização política em diversos países, o Brasil reafirma que a confiança em suas instituições será defendida pelo próprio Estado brasileiro.
Isso não significa que o sistema eleitoral seja perfeito ou imune a críticas. Em qualquer democracia, aperfeiçoamentos são naturais e desejáveis. Mas essas discussões pertencem exclusivamente à sociedade brasileira, ao Congresso Nacional, ao Poder Judiciário, aos partidos políticos e aos cidadãos do país.
Não sãomatéria de ingerência estrangeira.
Há quem veja a decisão do Itamaraty como um endurecimento diplomático. Talvez seja. Mas há momentos em que firmeza institucional é precisamente o que se espera de um Estado democrático.
Defender a soberania nacional não é um ato de alinhamento ideológico. Não é ser favorável ou contrário a Donald Trump, a Luiz Inácio Lula da Silva ou a qualquer outro líder político. É reconhecer que a independência das instituições brasileiras constitui um patrimônio da República e não pode ser relativizada por interesses externos.
Quando um país demonstra que suas fronteiras diplomáticas também protegem sua democracia,ele fortalece não apenas sua imagem internacional, mas a confiança de seus próprios cidadãos.
Neste episódio, o Itamaraty fez exatamente aquilo que se espera de uma diplomacia profissional: colocou os interesses do Estado brasileiro acima das conveniências políticas do momento.
E essa talvez seja a maior demonstração de soberania que uma nação pode oferecer ao mundo.



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