Regina Papini Steiner
"Eu disse não"
uma trincheira antigolpista
Ex-comandante da Aeronáutica revela em livro os bastidores da resistência a um golpe de Estado
Obra "Eu disse NÃO: uma trincheira antigolpista" chega às livrarias em setembro e traz relato inédito de quem esteve dentro do Ministério da Defesa durante a crise que antecedeu o 8 de janeiro.
Por Regina Papini Steiner - Jornal Iconic
O tenente-brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Junior, que comandou a Força Aérea Brasileira (FAB) entre abril de 2021 e janeiro de 2023, no governo Jair Bolsonaro, vai lançar em setembro o livro "Eu disse NÃO: uma trincheira antigolpista", pela Autêntica Editora. A publicação tem lançamento previsto para o dia 15 daquele mês e chega poucos meses antes das eleições de 2026.
A obra é apresentada como um relato inédito: pela primeira vez, um integrante da cúpula militar daquele período narra, de dentro do Ministério da Defesa, os episódios que precederam a tentativa de ruptura institucional que culminou nos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023.
Uma narrativa que começa em 2019
Segundo a apresentação da editora, o livro cobre um arco temporal amplo: começa no início do governo Bolsonaro, em 2019, passa pela gestão da pandemia de Covid-19 e chega à crise militar de 2021 — momento em que Bolsonaro trocou o então ministro da Defesa (substituído por Braga Netto), os três comandantes das Forças Armadas e o chefe do Estado-Maior Conjunto. A partir daí, o relato acompanha o período eleitoral de 2022, as pressões sobre o sistema eleitoral e as reuniões de alta tensão que marcaram os meses entre os dois turnos até a posse de Luiz Inácio Lula da Silva.
Os episódios centrais
De acordo com trechos já divulgados pela imprensa, Baptista Junior descreve com detalhes três momentos em que a tentativa de golpe teria sido frustrada. Ele afirma ter participado de encontros no Palácio da Alvorada e no Ministério da Defesa nos quais se discutiram medidas de exceção e os termos de uma minuta golpista documento que, segundo o autor, ele se recusou a receber.
O ex-comandante relata ainda que o general Freire Gomes, à frente do Exército na época, teria alertado Bolsonaro de que seria preso caso insistisse em um golpe para impedir a posse de Lula. Já o almirante Almir Garnier, então chefe da Marinha, teria colocado tropas da Força à disposição do plano de ruptura, segundo o relato do brigadeiro.
Outro trecho do livro trata do afastamento do general Laerte Santos, então chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas e defensor da manutenção da ordem constitucional, das chamadas reuniões de "análise de conjuntura" realizadas no Ministério da Defesa encontros que, segundo Baptista Junior, ganharam frequência e intensidade política à medida que o processo eleitoral de 2022 avançava. O autor diz ter questionado o então ministro da Defesa, general Paulo Sérgio Nogueira, sobre essa exclusão, sem obter uma resposta objetiva. Nogueira foi posteriormente condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a 19 anos de prisão no julgamento da trama golpista.
O testemunho ao STF e à PGR
Baptista Junior não é uma fonte anônima nos autos que investigaram a tentativa de golpe: ele foi arrolado como testemunha da Procuradoria-Geral da República (PGR) na ação penal que resultou na condenação de Bolsonaro e de outros integrantes do núcleo central da trama, e prestou depoimento ao STF em maio de 2025 no âmbito do processo. Ele também passou por doze horas de depoimento à Polícia Federal durante o inquérito.
Por que escrever agora
Em declarações à imprensa, o ex-comandante afirmou que a decisão de escrever o livro amadureceu a partir da constatação de um fenômeno social que considerou preocupante, apontado por duas pesquisas do instituto AtlasIntel. Segundo ele, a intenção foi reunir os fatos vividos para que ficassem documentados de forma mais clara para a população e para as gerações futuras um registro pessoal de um período que, em suas palavras, dependeu de decisões tomadas dentro dos quartéis para preservar a ordem democrática.
O contexto eleitoral
O lançamento do livro, marcado para as vésperas do período eleitoral de 2026, tem sido destacado por parte da imprensa como um fator político relevante. Analistas ponderam que a obra pode reforçar, no debate público, a associação entre o bolsonarismo e a tentativa de ruptura institucional — especialmente por vir de um relato militar interno, e não apenas de adversários políticos de Bolsonaro. Ao mesmo tempo, é preciso considerar que parte do eleitorado já formou opinião sobre o 8 de Janeiro após anos de cobertura da CPMI e do julgamento no STF, o que pode limitar o efeito de um novo relato sobre uma opinião pública já consolidada. O real impacto eleitoral do livro ainda é incerto e só poderá ser avaliado após seu lançamento e a repercussão que gerar.
Matéria elaborada com base em reportagens publicadas pela Revista Fórum, Diário do Grande ABC, Metrópoles, Jornal de Brasília e InfoMoney, entre 2 e 4 de agosto de 2026.



COMENTÁRIOS