Regina Papini Steiner
A canetada que dói na pele: o custo humano do nó orçamentário na saúde de São Paulo
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A canetada que dói na pele: o custo humano do nó orçamentário na saúde de São Paulo.
Por Regina Papini Steiner - Jornal Iconic
Atrás de cada planilha assinada nos gabinetes envidraçados da Prefeitura de São Paulo e do Palácio dos Bandeirantes, há uma fila que não anda. Quando os secretários municipais e estaduais justificam bloqueios fiscais e contingenciamentos em nome do equilíbrio de contas, o impacto real ignora a frieza dos números e ganha rostos, nomes e dores. Em São Paulo, os cortes orçamentários promovidos pelas gestões municipais e estaduais deixaram de ser um debate puramente econômico para se transformarem em uma crise humanitária silenciosa: o sucateamento planejado da saúde pública.
Para quem depende exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS), a "responsabilidade fiscal" dos governantes se traduz em angústia cotidiana. O desmonte promovido pelo governo estadual é visível nos corredores superlotados dos grandes hospitais gerais e na peregrinação exaustiva de pacientes que aguardam meses por exames de alta complexidade ou cirurgias eletivas. Na esfera municipal, o cenário não é diferente. A asfixia financeira nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e Assistências Médicas Ambulatoriais (AMAs) rompe o elo mais frágil e essencial do atendimento: o acolhimento preventivo nas periferias, deixando milhares de paulistanos desamparados logo na primeira porta de entrada do sistema.
Essa escassez de recursos não é um acidente, mas o reflexo de um modelo de gestão que escolheu transferir suas responsabilidades. Tanto o Estado quanto o Município têm acelerado a entrega de hospitais, prontos-socorros e UBSs para as Organizações Sociais de Saúde (OSS). Sob a falsa promessa de uma "eficiência privada", o que se observa na ponta é a precarização do atendimento, o esvaziamento da participação popular nos conselhos de saúde e a conversão de um direito constitucional em uma engrenagem terceirizada de metas numéricas, onde o paciente é tratado como estatística.
O Peso Invisível das Listas de Espera
Enquanto os relatórios oficiais de gestão buscam ressaltar reduções pontuais em programas de agendamento por mutirões de especialidades, a realidade macroeconômica e a dependência de plataformas digitais revelam um gargalo crônico. O absenteísmo estrutural na rede agravado por falhas de comunicação e infraestrutura atinge índices onde em até 25% dos pacientes agendados não conseguem comparecer ou confirmar os procedimentos na rede municipal. Esse desalinhamento entre a capacidade instalada e a demanda real gera um represamento crônico nas cirurgias eletivas e exames de média complexidade, transformando ferramentas digitais de agendamento em longas e silenciosas filas de espera digitais para os moradores das periferias paulistanas.
Quem sustenta o que resta desse sistema são os próprios trabalhadores da linha de frente. Médicos representados pelo Simesp e profissionais de enfermagem e apoio técnico do SinSaúdeSP enfrentam duplas jornadas, vínculos empregatícios frágeis e o esgotamento psicológico de ver pessoas sofrendo por falta de insumos básicos. Exigir um atendimento humanizado desses profissionais, enquanto o poder público corta verbas de medicamentos e infraestrutura, é uma crueldade administrativa que penaliza quem cuida e quem precisa de cuidado.
O orçamento público é, antes de tudo, uma declaração de prioridades morais de um governo. Escolher cortar na saúde para fechar contas políticas é decretar o abandono de quem mais precisa. Enquanto a Prefeitura e o Governo de São Paulo enxergarem a saúde pública como um gasto a ser podado, e não como o pilar de dignidade de uma sociedade, as planilhas continuarão fechando no azul, mas às custas de vidas severamente comprometidas na fila de espera.



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