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Pedra Bela,22/08/2026

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Regina Papini Steiner

Cães reconhecem emoções humanas, revelam exames cerebrais

Foto By Regina Papini Steiner
Cães reconhecem emoções humanas, revelam exames cerebrais

Estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Viena mostra que os cães apresentam padrões cerebrais diferentes diante de rostos humanos felizes, tristes, assustados ou irritados.

por Regina Papini Steiner - Jornal Iconic

Quem convive com um cachorro provavelmente já viveu uma cena parecida: em um dia difícil, quando as palavras parecem faltar, o animal se aproxima devagar, encosta a cabeça nas pernas do tutor e permanece ali, em silêncio. Em momentos felizes, acompanha a alegria da casa, abana o rabo e busca participar da comemoração.

Durante muito tempo, essas atitudes foram interpretadas principalmente como demonstrações de carinho ou resultado da convivência. Agora, um estudo científico ajuda a compreender o que pode estar acontecendo dentro do cérebro dos cães quando eles observam nossas expressões.

Pesquisadores da Universidade de Viena, na Áustria, utilizaram exames de ressonância magnética funcional e técnicas de aprendizado de máquina para analisar como cães reagem a rostos humanos que demonstram felicidade, tristeza, medo e raiva. Os resultados indicam que os animais conseguem diferenciar algumas dessas expressões apenas observando o rosto das pessoas.

A pesquisa foi publicada na revista científica iScience e oferece novas evidências sobre a profunda ligação construída entre seres humanos e cães ao longo de milhares de anos de convivência.

Cães acordados durante os exames

Para realizar a pesquisa, os cães foram previamente treinados para permanecer acordados e imóveis dentro do aparelho de ressonância magnética. Não houve necessidade de sedação, permitindo que os cientistas observassem a atividade cerebral dos animais enquanto eles visualizavam fotografias de pessoas desconhecidas.

O estudo foi dividido em duas etapas. Na primeira, oito cães observaram imagens de rostos humanos com expressões felizes ou neutras. Os exames mostraram que os rostos felizes provocaram maior atividade no córtex temporal e no núcleo caudado.

O córtex temporal está relacionado ao processamento de informações visuais e sociais. O núcleo caudado, por sua vez, participa de processos ligados à aprendizagem, à motivação e à recompensa.

Para a pesquisadora Laura Cuaya, uma das responsáveis pelo estudo, a atividade observada no núcleo caudado sugere que os rostos humanos felizes podem possuir um significado emocional especial para os cães.

Isso não significa necessariamente que o animal compreenda um sorriso exatamente como uma pessoa. Entretanto, o cérebro canino parece tratar aquela expressão de maneira diferente, associando-a possivelmente a experiências positivas, segurança ou recompensa.

Felicidade, tristeza, medo e raiva

Na segunda etapa, 12 cães observaram fotografias de homens e mulheres demonstrando felicidade, tristeza, medo ou raiva. Os pesquisadores utilizaram aprendizado de máquina para identificar e comparar os padrões de atividade cerebral apresentados diante de cada expressão.

A análise mostrou que a rede formada pelo córtex temporal e pelo núcleo caudado respondeu de maneira particular às expressões felizes. Esse padrão permitiu diferenciar os sorrisos das três manifestações negativas apresentadas aos animais.

Quando os cientistas analisaram o cérebro inteiro, também encontraram padrões distintos diante de rostos assustados, tristes ou irritados. Os cães conseguiram diferenciar expressões de medo das de tristeza e raiva. A distinção entre rostos tristes e irritados, porém, não foi tão clara.

Os resultados representam, segundo os pesquisadores, a primeira evidência cerebral direta de que cães conseguem distinguir determinadas expressões negativas no rosto humano.

Uma possível explicação é que cada expressão tenha uma importância diferente para o animal. Um rosto assustado pode indicar a presença de algum perigo. A raiva pode representar ameaça ou necessidade de recuo. Já a tristeza pode desencadear uma resposta menos imediata.

Essa interpretação, porém, ainda precisa ser investigada em novos estudos.

Uma convivência que transformou duas espécies

Cães e seres humanos seguiram caminhos evolutivos diferentes, mas aprenderam a conviver, colaborar e se comunicar. Durante o processo de domesticação, os animais mais atentos aos gestos e sinais humanos podem ter desenvolvido vantagens para sobreviver e permanecer próximos das pessoas.

Ao contrário do que acontece na comparação entre humanos e outros primatas, essa capacidade não teria sido herdada diretamente de um ancestral próximo compartilhado. Ela pode ter sido fortalecida pela longa história de convivência entre as duas espécies.

“Por meio da domesticação, eles desenvolveram as habilidades sociais necessárias para nos compreender e cooperar conosco”, explicou Laura Cuaya em comunicado divulgado pela Universidade de Viena.

O primeiro autor do estudo, Raúl Hernández-Pérez, ressaltou que, assim como os seres humanos, os cães são capazes de perceber pequenos detalhes presentes no rosto. Para os pesquisadores, estudar o cérebro desses animais pode ajudar a compreender quais adaptações sustentam sua extraordinária capacidade de interação social.

O cachorro não observa somente o rosto

Embora os resultados sejam importantes, a vida real é muito mais complexa do que uma fotografia apresentada dentro de um aparelho de ressonância magnética.

Em casa, o cachorro não analisa apenas a expressão facial do tutor. Ele acompanha o movimento do corpo, percebe mudanças no tom de voz, sente odores e observa alterações na rotina. Todos esses sinais são combinados para interpretar o que está acontecendo.

Uma pessoa pode dizer que está bem, mas falar mais baixo, caminhar lentamente ou apresentar uma expressão tensa. Para o cachorro, o conjunto dessas informações pode ser mais importante do que qualquer palavra isolada.

Os próprios pesquisadores reconhecem essa limitação. O próximo passo será investigar como os cães combinam rostos, vozes, cheiros e linguagem corporal para compreender as pessoas ao redor.

Descoberta não permite humanizar todas as reações

O estudo não comprova que os cães experimentem ou compreendam emoções exatamente da mesma maneira que os seres humanos. Reconhecer que dois rostos produzem padrões cerebrais diferentes não significa conhecer o pensamento do animal nem afirmar que ele sente empatia nos mesmos termos que uma pessoa.

Também é necessário considerar que a pesquisa trabalhou com um grupo pequeno. Os participantes eram animais de estimação provenientes de famílias que cuidavam deles e, em sua maioria, estavam acostumados à convivência próxima com seres humanos.

Cães que vivem nas ruas, foram abandonados ou passaram por situações de violência podem interpretar expressões humanas de outra maneira. Raça, idade, personalidade, experiências anteriores e qualidade da relação com o tutor também podem influenciar as respostas.

Portanto, os resultados devem ser vistos como um avanço importante, mas não como uma explicação definitiva para todo o comportamento canino.

O que a descoberta ensina aos tutores

A pesquisa reforça a necessidade de observar como as pessoas se comunicam com seus animais. Gritos, gestos bruscos e expressões ameaçadoras podem afetar cães sensíveis, mesmo quando não são diretamente dirigidos a eles.

Da mesma forma, uma comunicação tranquila, coerente e respeitosa pode ajudar o animal a se sentir protegido. O cuidado não deve se limitar à alimentação, à vacinação e ao espaço físico. Também envolve segurança emocional, respeito aos limites e atenção aos sinais de medo, ansiedade ou desconforto.

Um cachorro que se afasta, abaixa o corpo, esconde o rabo, lambe excessivamente o focinho ou evita contato pode estar demonstrando tensão. Punir essas manifestações aumenta o medo e não ensina o comportamento desejado.

Os resultados também ajudam a lembrar que cada cachorro é um indivíduo. Alguns procuram contato quando percebem tristeza; outros preferem manter distância. Alguns se mostram expansivos diante de uma pessoa sorridente; outros precisam de mais tempo para confiar.

Mais do que animais de companhia

A ciência ainda não pode traduzir completamente o que se passa na mente de um cachorro. Entretanto, o novo estudo mostra que os animais não são indiferentes às expressões humanas. Seus cérebros respondem de maneiras diferentes às emoções estampadas em nossos rostos.

Talvez os cães não compreendam nossas tristezas, alegrias e medos como nós os compreendemos. Ainda assim, observam, aprendem e reagem ao mundo emocional que construímos ao redor deles.

Aquela aproximação silenciosa nos dias difíceis pode continuar cercada de perguntas científicas. Mas agora sabemos que, quando um cachorro olha atentamente para o rosto de uma pessoa, ele não está apenas vendo olhos, boca e movimentos. Seu cérebro está identificando diferenças e atribuindo importância aos sinais que recebe.

Reconhecer essa sensibilidade pode transformar a maneira como nos relacionamos com os animais. Afinal, se os cães passaram milhares de anos aprendendo a nos observar, talvez também seja nossa responsabilidade aprender a observá-los melhor.

Fontes: Universidade de Viena, estudo publicado na revista científica iScience e Reuters.



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