Marilu Gomes
Almerinda Farias Gama: a mulher negra que a história política brasileira tentou esquecer
Almerinda Farias Gama: a sufragista negra esquecida pelo Brasil
por Marilu Gomes - Jornal Iconic
Jornalista, advogada e sindicalista, a alagoana enfrentou o racismo e o machismo, participou da luta pelo voto feminino e abriu caminhos para a presença das trabalhadoras na política brasileira
Quando se recorda a conquista do voto feminino no Brasil, alguns nomes são frequentemente mencionados. Outros, apesar de sua importância, permaneceram durante décadas à margem dos livros, das homenagens públicas e da memória nacional. Entre eles está o de Almerinda Farias Gama, uma mulher negra que participou ativamente das lutas feministas, sindicais e políticas nas primeiras décadas do século XX.
Jornalista, advogada, datilógrafa, sindicalista, escritora e militante, Almerinda enfrentou uma sociedade profundamente marcada pelo racismo e pelo machismo. Em uma época na qual as mulheres ainda precisavam disputar o direito de participar da vida pública, ela reivindicou não apenas o voto, mas também igualdade salarial, representação sindical e presença feminina nos espaços de decisão.
Sua trajetória demonstra que a luta das mulheres brasileiras pela cidadania nunca foi homogênea. Para mulheres negras e trabalhadoras, o caminho era, e continua sendo, atravessado por obstáculos adicionais.
De Maceió para a luta política
Almerinda Farias Gama nasceu em 16 de maio de 1899, em Maceió, Alagoas. Após a morte do pai, mudou-se ainda criança para Belém, no Pará, onde foi criada por familiares.
Na capital paraense, formou-se em datilografia e começou a escrever para a imprensa, publicando textos no jornal A Província. A escrita se tornaria uma das ferramentas utilizadas por ela para defender a emancipação feminina e questionar as desigualdades sociais.
Em 1929, mudou-se para o Rio de Janeiro, então capital federal. Um dos motivos teria sido a desigualdade salarial que enfrentava: um colega homem recebia mais para realizar o mesmo trabalho. A experiência pessoal ajudou a aproximá-la ainda mais das reivindicações trabalhistas.
No Rio de Janeiro, Almerinda atuou como escrevente, tradutora, jornalista e advogada. Também assumiu a presidência do Sindicato dos Datilógrafos, Taquígrafos e Secretárias do Distrito Federal, transformando sua atividade profissional em espaço de organização política.
Sua defesa da igualdade salarial aconteceu décadas antes de o tema receber maior atenção das instituições públicas. Para Almerinda, a autonomia feminina não dependia somente do direito ao voto, mas também do acesso ao trabalho digno e à independência econômica.
Uma mulher negra no movimento sufragista
Almerinda aproximou-se da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, uma das principais organizações sufragistas do país, e participou das mobilizações lideradas por mulheres como Bertha Lutz.
O movimento defendia o reconhecimento da mulher como cidadã e o direito de participar das eleições. Essa reivindicação enfrentava forte oposição. Parlamentares, juristas e setores conservadores alegavam que a política afastaria as mulheres de suas supostas “obrigações naturais” no lar.
O voto feminino foi incorporado ao Código Eleitoral brasileiro em 24 de fevereiro de 1932, durante o governo de Getúlio Vargas. A conquista, entretanto, não eliminou imediatamente todas as restrições nem garantiu igualdade de participação.
Mesmo dentro do movimento feminista, as experiências não eram iguais. Mulheres negras precisavam combater simultaneamente o preconceito de gênero, o racismo e as desigualdades de classe. A presença de Almerinda revelou que a emancipação feminina não poderia ser separada da realidade das trabalhadoras.
O voto histórico de 1933
Em 1933, Almerinda entrou definitivamente para a história política do Brasil. Indicada pelo sindicato que presidia e pela Federação do Trabalho do Distrito Federal, ela participou como delegada-eleitora na escolha dos representantes classistas para a Assembleia Nacional Constituinte.
Foi a única mulher a votar nessa eleição de delegados classistas. O momento foi registrado em uma fotografia histórica: Almerinda aparece depositando seu voto na urna, cercada por homens.
É importante explicar corretamente esse episódio. Ela não ocupou uma cadeira como deputada constituinte. Atuou como delegada-eleitora no processo que escolheu representantes das categorias profissionais para a Constituinte responsável pela elaboração da Constituição de 1934.
Sua participação, ainda assim, teve enorme valor político e simbólico. Almerinda representava trabalhadores e trabalhadoras em um espaço dominado por homens brancos, numa sociedade recém-saída de um sistema escravista e que ainda negava oportunidades básicas à população negra.
O registro desse momento encontra-se preservado no acervo do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil, da Fundação Getulio Vargas. Senado Federal
Candidatura e atuação partidária
Em 1934, Almerinda candidatou-se a deputada federal, mas não foi eleita. Também participou da direção do Partido Socialista Proletário do Brasil e fundou a Ala Moça do Brasil, organização voltada à formação de eleitores e à renovação da participação democrática.
Sua candidatura ocorreu em um período no qual a presença feminina nas eleições ainda era uma novidade. O fato de ser uma mulher negra, sindicalista e comprometida com as reivindicações trabalhistas tornava sua atuação ainda mais desafiadora.
Almerinda não limitava a cidadania ao comparecimento às urnas. Para ela, participar da política significava formar eleitores, organizar categorias profissionais, disputar cargos públicos e enfrentar as estruturas que mantinham mulheres e trabalhadores afastados do poder.
O apagamento de uma pioneira
Almerinda viveu praticamente todo o século XX e morreu em 1999, pouco antes de completar 100 anos. Apesar da extensão e da relevância de sua trajetória, passou grande parte da vida sem receber o reconhecimento correspondente à sua contribuição.
Esse apagamento não pode ser entendido apenas como um esquecimento acidental. A história oficial brasileira privilegiou durante muito tempo as trajetórias de homens brancos pertencentes às elites políticas e econômicas. Mulheres, negros, indígenas, trabalhadores e lideranças populares foram frequentemente tratados como personagens secundários, mesmo quando participaram diretamente das grandes transformações nacionais.
Até mesmo a narrativa sobre o movimento sufragista brasileiro concentrou-se em figuras de maior projeção social, deixando em segundo plano a participação das mulheres negras e trabalhadoras.
Resgatar a história de Almerinda não significa diminuir o papel de outras sufragistas. Significa ampliar a memória coletiva e reconhecer que a conquista do voto feminino foi resultado da mobilização de mulheres com diferentes origens, profissões e experiências sociais.
Uma história que dialoga com o presente
A trajetória de Almerinda permanece atual porque a igualdade formal conquistada pelas mulheres ainda não resultou em igualdade efetiva no poder.
As mulheres representam parcela majoritária do eleitorado brasileiro, mas continuam sub-representadas nos parlamentos, governos e direções partidárias. Para as mulheres negras, os obstáculos são ainda maiores. Além da violência política de gênero, elas enfrentam ataques racistas, menor acesso ao financiamento eleitoral e pouca visibilidade nos meios de comunicação.
Almerinda já defendia, no início do século passado, pautas que continuam presentes no debate nacional: igualdade salarial, valorização das trabalhadoras, participação política feminina e combate à discriminação.
Em 2025, foi apresentado na Câmara dos Deputados um projeto de lei para inscrever seu nome no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria. A proposta representa um reconhecimento tardio, mas importante, de sua contribuição para a democracia brasileira. Câmara dos Deputados — PL 4.268/2025
Recuperar a memória de Almerinda Farias Gama é também questionar quem escolhemos lembrar. Uma democracia não é construída somente pelos nomes que ocupam os cargos mais importantes, mas por todas as pessoas que enfrentam as estruturas de exclusão e abrem caminhos para as gerações seguintes.
Almerinda votou quando quase todos ao seu redor eram homens. Organizou trabalhadoras quando a palavra feminina tinha pouca força pública. Candidatou-se quando mulheres negras praticamente não apareciam na política institucional. Sua história não pertence apenas ao passado: ela continua presente em cada mulher que reivindica o direito de falar, decidir, representar e governar.
Fontes consultadas
- Senado Federal — A história de Almerinda Gama
- FGV — Negritude e sindicalismo aliados à causa feminista
- Brasiliana Fotográfica — Almerinda Farias Gama
- Câmara dos Deputados — A história de Almerinda
- Faperj — Cinebiografia resgata a trajetória de Almerinda Gama



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