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Pedra Bela,23/09/2026

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Marilu Gomes

Ser Preto nos Estados Unidos ainda pode significar menos proteção e mais risco

Tima Miroshnichenko
Ser Preto nos Estados Unidos ainda pode significar menos proteção e mais risco

Abordagens policiais desiguais, discriminação cotidiana e uma diferença alarmante na mortalidade materna mostram que o racismo permanece presente na vida de milhões de afro-americanos.

Por Marilu Gomes - Jornal Iconic

Os Estados Unidos têm leis de direitos civis, uma longa história de mobilização negra e cidadãos afro-americanos em todas as áreas da vida pública. Ainda assim, a cor da pele continua a influenciar experiências tão básicas quanto circular pela cidade, ser atendida durante uma gravidez ou confiar que uma instituição tratará você com justiça. Chamar esses fatos de “casos isolados” já não é uma explicação aceitável.

Em pesquisa divulgada pelo Pew Research Center em 2024, três em cada quatro adultos negros disseram ter sofrido discriminação racial, regularmente ou de vez em quando. É um dado de percepção e experiência relatada, não um registro de todos os episódios ocorridos. Sua dimensão, porém, impede que o preconceito seja tratado como uma lembrança distante da segregação legal.

Quando a abordagem policial ameaça

Os números oficiais tornam a desigualdade ainda mais concreta. Em levantamento sobre contatos com a polícia em 2022, o Bureau of Justice Statistics constatou que 6% das pessoas negras relataram ameaça ou uso de força não letal no contato mais recente considerado pela pesquisa, ante 2% das pessoas brancas. A comparação se refere aos tipos de contato definidos pelo estudo; não significa que 6% de toda a população negra tenha sofrido violência policial naquele ano.

Investigações federais também identificaram discriminação em departamentos específicos. Em Minneapolis, o Departamento de Justiça concluiu, em 2023, que a polícia discriminava ilegalmente pessoas negras e indígenas em suas ações, inclusive no uso da força após abordagens. Em Lexington, no Mississippi, outra investigação apontou violações de direitos civis e informou que, em 2023, pessoas negras tinham uma probabilidade de prisão 17,6 vezes maior que pessoas brancas na cidade. Essas conclusões dizem respeito às localidades investigadas; não devem ser atribuídas automaticamente a toda polícia norte-americana. Revelam, contudo, que práticas racistas podem estar incorporadas ao funcionamento de instituições encarregadas de proteger a população.

A desigualdade que aparece na maternidade

O racismo também precisa ser discutido onde não há sirenes nem câmeras. Segundo os dados mais recentes do Centro Nacional de Estatísticas de Saúde dos EUA, a mortalidade materna em 2024 foi de 44,8 mortes por 100 mil nascidos vivos entre mulheres negras não hispânicas, contra 14,2 entre mulheres brancas não hispânicas. Trata-se de uma diferença de mais de três vezes. O indicador, sozinho, não determina a causa de cada morte, mas exige investigar o acesso ao atendimento, a qualidade do cuidado e as desigualdades que acompanham essas mulheres antes, durante e depois da gestação.

É por isso que considero insuficiente condenar apenas a ofensa racista explícita. Uma sociedade também precisa ser julgada pelos resultados de suas instituições. Quando uma mulher negra enfrenta um risco materno muito maior, quando uma abordagem policial tem maior chance de envolver força e quando tantas pessoas relatam discriminação, a resposta não pode se limitar a pedir que cada indivíduo seja menos preconceituoso.

Isso exige responsabilizar abusos, publicar dados confiáveis, corrigir práticas policiais discriminatórias e garantir atendimento de saúde capaz de proteger todas as gestantes. Exige também ouvir a população negra como protagonista das soluções, em vez de procurá-la apenas depois de uma tragédia.

George Floyd tornou mundialmente visível uma violência que comunidades negras já denunciavam havia décadas. Os dados posteriores mostram por que a indignação não pode terminar com o fim dos protestos. O direito à igualdade só se realiza quando a origem racial deixa de alterar as chances de alguém voltar para casa em segurança, receber cuidado adequado e ser tratado com dignidade.

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