Regina Papini Steiner
Lula reforça campanha com foco em mulheres, soberania e defesa dos direitos sociais
Presidente intensifica viagens pelo país, amplia alianças estaduais e procura transformar as realizações do governo em propostas para um quarto mandato.
por Regina Papini Steiner - Jornal Iconic
A campanha de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República entrou em uma nova fase. Depois de iniciar oficialmente sua caminhada eleitoral no histórico Estádio 1º de Maio, em São Bernardo do Campo, o candidato à reeleição passou a intensificar as agendas nos estados, fortalecer os palanques regionais e apresentar as prioridades de seu programa de governo.
A escolha do ABC Paulista para a largada da campanha teve forte significado político. Foi naquela região, durante as grandes greves dos metalúrgicos do final da década de 1970, que Lula se projetou como liderança sindical e nacional. Agora, aos 80 anos, ele disputa sua sétima eleição presidencial e busca conquistar um quarto mandato , feito inédito na história brasileira.
Com Geraldo Alckmin novamente como candidato a vice-presidente, Lula lidera a coligação “O Brasil Pronto Pra Mais”, formada por PT, PCdoB, PV, PSB, PDT, PSOL e Rede. O projeto eleitoral combina a identidade histórica da esquerda com uma política de alianças mais ampla, construída para enfrentar o avanço da extrema direita e garantir sustentação parlamentar a um eventual novo governo.
Mulheres ganham centralidade na campanha
Uma das atualizações mais importantes ocorreu em 29 de agosto, durante o Ato Nacional Mulheres com Lula, realizado em Belo Horizonte. Segundo a organização, aproximadamente 7 mil mulheres participaram do encontro, que reuniu candidatas, ministras, representantes de movimentos sociais e lideranças políticas de diferentes regiões.
Durante o ato, Lula afirmou que as mulheres podem decidir o resultado da eleição e defendeu uma presença feminina maior no Congresso Nacional, nas assembleias legislativas e nos governos. O presidente também pediu que o eleitorado considere votar em candidatas comprometidas com os direitos das mulheres.
A defesa da participação política feminina não aparece isoladamente. O programa apresentado pela coligação prevê a continuidade do Pacto Nacional de Enfrentamento ao Feminicídio, a ampliação das Casas da Mulher Brasileira e a aplicação da Lei da Igualdade Salarial.
Lula também declarou que o Estado precisa assumir a responsabilidade pelo combate à violência de gênero. O discurso procura estabelecer um contraste direto com a extrema direita, especialmente em temas como autonomia econômica, respeito às mulheres e proteção das vítimas de violência. As informações sobre o encontro foram divulgadas pela Rede PT de Comunicação.
Soberania ocupa o centro do programa
Registrado na Justiça Eleitoral, o programa de governo de Lula e Alckmin possui 84 páginas e apresenta a soberania nacional como um de seus principais eixos. A palavra “soberania” aparece em 21 páginas do documento, segundo levantamento publicado pelo Brasil de Fato.
A proposta defende que os recursos naturais, energéticos, minerais e tecnológicos do Brasil sejam utilizados para promover desenvolvimento interno, industrialização e geração de empregos. O documento também aborda soberania alimentar, transição energética, proteção das empresas estratégicas e domínio das tecnologias digitais.
Essa orientação procura responder a um cenário internacional marcado por disputas comerciais, pressões estrangeiras e crescente concentração tecnológica nas mãos de grandes empresas. Para a campanha, defender a soberania significa impedir que o Brasil volte a ocupar uma posição subordinada na economia mundial.
O programa também inclui o fortalecimento da indústria nacional, investimentos em ciência e inteligência artificial, ampliação das políticas de cotas, titulação de territórios quilombolas e ações contra o racismo estrutural.
Educação, pessoas idosas e defesa nacional
Durante a convenção que oficializou sua candidatura, Lula apresentou cinco compromissos prioritários: soberania sobre os recursos estratégicos, enfrentamento à violência contra as mulheres, transformação da educação, criação de uma política nacional para as pessoas idosas e fortalecimento da defesa do país.
Na educação, o candidato defende investimentos na formação de cientistas, expansão do ensino público e preparação dos jovens para as transformações tecnológicas. Lula voltou a sustentar que educação deve ser tratada como investimento social e econômico, e não como despesa.
Outro ponto relativamente novo é a proposta de uma política nacional destinada à população idosa, com atividades físicas, culturais e sociais. O tema ganha importância diante do envelhecimento da população brasileira e da ausência de uma estrutura pública suficiente para atender pessoas idosas em situação de abandono ou vulnerabilidade. Os cinco compromissos foram detalhados pela CartaCapital.
Frente ampla nos estados
A estratégia eleitoral de Lula também está baseada na construção de uma extensa rede de alianças estaduais. O PT possui candidaturas próprias aos governos de 12 unidades da Federação, enquanto outros palanques são liderados por partidos aliados.
A campanha conseguiu organizar apoios em 25 estados e no Distrito Federal. Além dos partidos da esquerda, a composição inclui alianças regionais com PSD, MDB, PP e União Brasil. A exceção é Roraima, onde não há candidatura estadual formalmente alinhada a Lula.
Essa frente ampla aumenta a presença territorial da candidatura, mas também representa um desafio político. Ao aproximar-se de partidos de centro e até de setores conservadores, o PT precisará administrar diferenças sobre política econômica, direitos trabalhistas, meio ambiente e participação popular.
A lista dos palanques estaduais e das alianças foi apresentada pela CartaCapital.
Campanha aciona a Justiça Eleitoral
Em outra atualização, a coligação de Lula protocolou uma ação na Justiça Eleitoral pedindo a cassação do registro e a inelegibilidade de Flávio Bolsonaro. A campanha acusa o adversário de abuso de poder econômico durante sua participação na Festa do Peão de Barretos.
Segundo a representação, houve pedido de votos e utilização eleitoral de uma estrutura financiada por empresas e entidades públicas. Os advogados sustentam que o episódio teria funcionado como um “showmício disfarçado”.
É importante destacar que essas são alegações apresentadas pela coligação de Lula. Caberá à Justiça Eleitoral analisar as provas, ouvir os envolvidos e decidir se houve alguma irregularidade. Até que exista uma decisão, não se pode afirmar que o candidato adversário tenha cometido abuso eleitoral. A posição da campanha está publicada no site do Partido dos Trabalhadores.
A disputa permanece aberta
As pesquisas divulgadas desde o início oficial da campanha mostram Lula competitivo e liderando diferentes cenários, mas indicam uma eleição apertada. Em uma simulação recente de segundo turno, Lula apareceu com 47%, contra 43% de Flávio Bolsonaro, resultado considerado tecnicamente empatado dentro da margem de erro.
O cenário demonstra que a mobilização das ruas, o desempenho no horário eleitoral e a capacidade de dialogar com mulheres, jovens, trabalhadores informais, evangélicos e eleitores indecisos serão determinantes.
A candidatura de Lula procura apresentar a eleição de 2026 como uma escolha entre dois projetos: de um lado, a defesa da democracia, da soberania e das políticas públicas; de outro, a retomada de uma agenda de extrema direita. Entretanto, para ampliar sua vantagem, a campanha precisará ir além da comparação com seus adversários. Será necessário explicar de maneira concreta como pretende melhorar os salários, reduzir o custo de vida, enfrentar a escala 6×1, ampliar os serviços públicos e assegurar que o crescimento econômico alcance a população trabalhadora.
A trajetória de Lula continua sendo sua principal força política. O desafio da campanha será transformar essa história em uma proposta capaz de responder às novas necessidades do Brasil.



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