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Pedra Bela,23/09/2026

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Brasil-China: o sorgo como metáfora da disputa por influência na América Latina

By Vieira Morais
Brasil-China: o sorgo como metáfora da disputa por influência na América Latina

A possibilidade de vender o cereal à China amplia as opções comerciais do Brasil, enquanto os Estados Unidos reforçam a cooperação militar na região. Entre os dois movimentos, a autonomia defendida por Lula na ONU dependerá de decisões concretas.

Por Carlos Silva - Jornal Iconic

O sorgo brasileiro ganhou espaço em uma disputa que vai muito além da agricultura. A China abriu seu mercado ao cereal, criando uma alternativa para produtores nacionais. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos ampliam iniciativas de segurança na América Latina, apresentadas como resposta ao narcotráfico e à imigração irregular. São movimentos distintos, mas ambos mostram o peso das grandes potências nas escolhas da região.

A abertura chinesa ainda não significa vendas em grande escala. O Brasil e a China têm um protocolo fitossanitário para o sorgo, e os estabelecimentos interessados precisam cumprir exigências de registro e habilitação. A Conab projetou 7,35 milhões de toneladas para a safra brasileira 2025/26, estimativa próxima, mas inferior, aos 7,5 milhões mencionados inicialmente nesta pauta. Produção projetada, porém, não equivale a volume disponível para exportação.

Do outro lado, o Comando Sul dos EUA relata a expansão de parcerias de defesa e de operações contra cartéis em países latino-americanos. Em suas próprias comunicações, associa o combate ao tráfico à redução da imigração irregular e à contenção de interferências geopolíticas externas. Essa combinação deixa claro que a agenda norte-americana envolve segurança e influência regional. A existência dessas parcerias, por si só, não demonstra subordinação militar dos países participantes; seus efeitos dependem dos acordos firmados e de quem define as prioridades das operações.

É nesse ponto que o sorgo se torna uma metáfora útil. Ter mais um comprador pode dar ao Brasil margem para negociar. Depender excessivamente de um único mercado, por sua vez, também pode limitar escolhas. A diversificação comercial só fortalece a autonomia se vier acompanhada de capacidade de produção, infraestrutura, agregação de valor e liberdade para decidir a política externa conforme os interesses nacionais.

Na Assembleia Geral da ONU, em 22 de setembro, Lula defendeu a soberania brasileira e rejeitou a ideia de que o país pertença à esfera de influência de outra potência. O discurso encontra, no campo e na diplomacia, seu teste prático: cooperar com diferentes parceiros sem entregar a nenhum deles o poder de determinar os rumos do Brasil.

Para a América Latina, a questão é ainda maior. Combater o crime organizado exige cooperação entre países; ampliar exportações exige acesso a mercados. A autonomia regional depende de estabelecer os termos dessas relações, com controle público sobre acordos de segurança e uma estratégia comercial que não troque uma dependência por outra. Essa é a interpretação política que conecta os dois movimentos; não há evidência de que a abertura chinesa ao sorgo seja uma resposta direta às iniciativas militares dos EUA.


Fontes: Conab — safra 2025/26; Ministério da Agricultura — protocolo do sorgo com a China; Comando Sul dos EUA — cooperação regional; Agência Brasil — discurso de Lula na ONU



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