A diversidade brasileira e os esforços para preservá-la
O Brasil abriga uma das biodiversidades mais ricas do planeta: são inúmeros biomas (Amazônia, Mata Atlântica, Cerrado, Caatinga, Pantanal, Pampa) com flora e fauna que incluem espécies endêmicas, muitas ainda pouco estudadas. Essa diversidade repercute não apenas em valor ecológico, mas também em serviços ecossistêmicos fundamentais: regulação climática, manutenção do solo, regulação hídrica, entre outros. Porém, ao mesmo tempo, enfrenta ameaças severas: desmatamento, queimadas, doenças, atividades econômicas agressivas, mudanças climáticas, expansão urbana, pesca predatória.
Nos últimos anos, há sinais de mobilização crescente por parte do governo, organizações não governamentais, de comunidades tradicionais e do setor privado para proteger e restaurar essa riqueza natural. A seguir, os principais avanços, desafios e iniciativas em curso.
A diversidade da flora e fauna brasileiras é um patrimônio de escala global, que enfrenta ameaças sérias, mas também vê hoje um momento de reação e articulação crescente. O sucesso dessas ações dependerá tanto da vontade política como da mobilização social, científica e econômica bem como da capacidade de integrar diferentes atores: governo, comunidades locais, instituições financeiras, ONGs, setor privado. Se há uma direção clara, é a de que conservar não é apenas proteger espécies: é garantir bem-estar, segurança climática, qualidade de vida, para o Brasil e para o mundo.
O que tem sido feito
1. Metas nacionais de biodiversidade para 2030
O Brasil, por meio da Comissão Nacional de Biodiversidade (Conabio), definiu novas metas para o período 2025–2030, alinhadas ao Global Biodiversity Framework (GBF) de Kunming-Montreal (2022).
Entre essas metas estão a redução substancial da perda de biodiversidade, prevenção da extinção de espécies, conservação da diversidade genética, além de aumentar os recursos orçamentários para execução de políticas públicas, e estimular cooperação técnica e científica.
2. Expansão de unidades de conservação
No bioma Caatinga, por exemplo, estão sendo planejados e implementados 12 projetos prioritários para criar unidades federais de conservação, o que vai expandir a proteção em mais de um milhão de hectares nos estados de Piauí, Rio Grande do Norte e Ceará. Agência Brasil
Também importantes são as ações para valorizar terras indígenas, que contêm porções importantes de biomas diversos, com iniciativas para fortalecimento da gestão territorial, proteção e uso sustentável. Um exemplo é o projeto Ywy Ipuranguete, que atuará em 15 Terras Indígenas, totalizando cerca de 6 milhões de hectares distribuídos por Amazônia, Mata Atlântica, Cerrado, Caatinga e Pantanal.
3. Financiamento e iniciativas multissetoriais
A Brazil Restoration & Bioeconomy Finance Coalition (BRB Finance Coalition) foi lançada em 2024 com meta de mobilizar pelo menos US$ 10 bilhões até 2030 para conservação e restauração florestal, bioeconomia, e ações que beneficiem povos indígenas e comunidades locais.
O BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) destina recursos para vários projetos: proteção de ilhas oceânicas (proteção de ninhos de aves migratórias, combate a roedores invasores, etc.), restauração de recifes de corais, estudos de planejamento espacial marinho no litoral.
Nas iniciativas locais, há programas que pagam por serviços ambientais, como o Floresta+ Amazônia, que está remunerando agricultores familiares que preservam vegetação nativa, reconhecendo financeiramente o papel que essas famílias têm na proteção do bioma amazônico.
4. Monitoramento, tecnologia e transparência
O Instituto Chico Mendes para Conservação da Biodiversidade (ICMBio) lançou a plataforma “Salve”, que reúne dados sobre quase 15 mil espécies animais, permitindo o acompanhamento de populações, ameaças como desmatamento, incêndios ou caça, e auxiliando decisões de políticas públicas.
Ferramentas de detecção de desmatamento em tempo real, como o sistema DETER, têm sido validadas não apenas para controle ambiental, mas também como instrumento para reduzir violência em áreas da Amazônia, uma vez que aumentam a presença institucional e capacidade de fiscalização.
Desafios persistentes
Apesar dos avanços, os desafios continuam sendo fortes:
Financiamento adequado e sustentável: muitos projetos ainda dependem de recursos externos ou de doações, ou de repasses públicos que podem variar com mudanças políticas. Cumprir metas ambiciosas exige previsibilidade orçamentária.
Pressões econômicas e conflitos de uso da terra: expansão agropecuária, mineração, exploração ilegítima de madeira continuam sendo grandes vetores de destruição de habitat.
Legislação ambiental instável: alterações regulatórias ou leis que flexibilizam licenciamento ambiental, ou que diminuem restrições para uso de territórios protegidos ou indígenas, são preocupantes.
Mudanças climáticas: impactam padrões de chuva, aumento de desertificação, incêndios florestais e ameaçam biomas mais vulneráveis como Caatinga e Cerrado.
Inclusão efetiva de comunidades tradicionais e povos indígenas: embora muitas iniciativas prevejam participação, garantir autonomia, respeito ao conhecimento tradicional e reconhecimento legal e territorial ainda é desafio central.
Perspectivas
Para manter e ampliar a tendência de preservação, algumas direções parecem centrais:
Fortalecer políticas integradas de restauração reconectar fragmentos de vegetação por corredores ecológicos, restaurar rios e áreas degradadas.
Expandir e consolidar áreas protegidas, inclusive em biomas menos protegidos atualmente (como a Caatinga).
Estimular a bioeconomia de forma justa e sustentável: produtos que valorizem biodiversidade, com participação comunitária e mercado que pague pelos serviços ambientais.
Melhorar mecanismos de fiscalização, uso de ciência, dados geográficos, satélite, monitoramento em tempo real.
Garantir segurança jurídica e institucional, estabilidade das leis e regulações ambientais, para que projetos de longo prazo não sejam comprometidos por mudanças políticas.




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