Marilu Gomes
Rebeldes transformam combate ao Ebola em vitrine política no leste da República Democrática do Congo
AFC/M23 utiliza resposta sanitária para reforçar imagem de governo enquanto especialistas alertam para riscos da fragmentação no enfrentamento da epidemia
Em meio ao maior desafio sanitário enfrentado pela República Democrática do Congo (RDC) nos últimos anos, a resposta ao surto de Ebola ganhou um novo componente: a disputa política. O grupo rebelde AFC/M23, que controla parte significativa das províncias de Kivu do Norte e Kivu do Sul, passou a utilizar o combate à doença como uma oportunidade para demonstrar capacidade administrativa e fortalecer sua legitimidade diante da população local.
Segundo investigação da Reuters, o grupo organizou praticamente de forma independente toda a estrutura de resposta ao surto nas áreas sob seu domínio, criando centros de coordenação, mobilizando profissionais de saúde, monitorando centenas de contatos de pacientes infectados e impondo restrições de circulação entre os territórios controlados pelos rebeldes e as regiões administradas pelo governo central em Kinshasa.
Uma administração paralela
Desde a ofensiva iniciada em 2025, o AFC/M23 consolidou o controle sobre cidades estratégicas como Goma e Bukavu, ampliando sua influência política e administrativa no leste congolês.
Com o surgimento de casos de Ebola nessas regiões, os rebeldes passaram a coordenar praticamente toda a resposta sanitária local, operando paralelamente às autoridades nacionais.
Entre as medidas implementadas estão:
- isolamento imediato dos pacientes;
- rastreamento de aproximadamente 400 pessoas que tiveram contato com infectados;
- envio de especialistas em saúde;
- distribuição de medicamentos e equipamentos médicos;
- restrições de deslocamento para áreas controladas pelo governo central.
Os líderes do movimento afirmam que conseguiram controlar rapidamente os poucos casos registrados em seus territórios e chegaram a anunciar publicamente o encerramento do surto nessas áreas.
Saúde pública como instrumento de legitimidade
Especialistas em conflitos africanos observam que crises sanitárias frequentemente se tornam oportunidades para grupos armados demonstrarem capacidade de governança.
Ao organizar hospitais, controlar deslocamentos, distribuir suprimentos médicos e coordenar campanhas de prevenção, o AFC/M23 procura mostrar à população que consegue oferecer serviços públicos que, muitas vezes, o Estado congolês não consegue manter em regiões afetadas pela guerra.
Essa estratégia fortalece a narrativa do grupo de que seria capaz de administrar os territórios sob seu controle, indo além da atuação exclusivamente militar.
No entanto, analistas alertam que esse aparente sucesso pode refletir principalmente o fato de que o número de casos nas áreas controladas pelos rebeldes ainda permanece relativamente reduzido, diferentemente do restante do país.
Epidemia continua avançando
Enquanto os rebeldes comemoram resultados locais, a situação nacional permanece extremamente preocupante.
Dados do Instituto Nacional de Saúde Pública do Congo apontam que o atual surto já registra cerca de 1.926 casos confirmados e 702 mortes, tornando-se um dos maiores da história do país.
Nesta semana, o Ebola também foi confirmado nas províncias de Haut-Uele e Tshopo, demonstrando que a doença continua avançando para novas regiões.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) e especialistas internacionais acreditam que o número real de infecções pode ser significativamente maior, uma vez que muitos pacientes não apresentam ligação conhecida com casos anteriormente identificados, dificultando o rastreamento epidemiológico.
Guerra dificulta coordenação
O conflito armado representa um dos maiores obstáculos ao controle da epidemia.
Com diferentes territórios administrados por governos distintos — o oficial e a administração paralela do AFC/M23 —, torna-se muito mais difícil compartilhar informações, coordenar campanhas de vacinação, transportar pacientes e distribuir insumos médicos.
Além disso, aeroportos fechados, dificuldades bancárias, problemas logísticos e restrições de circulação complicam ainda mais a atuação de organizações humanitárias internacionais.
Desinformação e falta de recursos agravam cenário
Além da guerra, o Congo enfrenta outros desafios históricos no combate ao Ebola.
Equipes médicas relatam falta de profissionais, ambulâncias insuficientes, escassez de materiais para construir alas de isolamento e dificuldades para monitorar milhares de pessoas expostas ao vírus. Em algumas localidades, trabalhadores da saúde chegaram a entrar em greve devido ao atraso no pagamento de salários e benefícios, interrompendo temporariamente parte dos atendimentos.
A situação também é agravada pela desinformação e pela desconfiança de parte da população em relação às autoridades sanitárias, dificultando o rastreamento de contatos e a adoção de medidas preventivas.
Um desafio que vai além da saúde
A resposta ao Ebola no leste da República Democrática do Congo revela como crises sanitárias podem ultrapassar o campo da medicina e tornar-se instrumentos de disputa política e territorial.
Ao utilizar o combate à epidemia para reforçar sua imagem institucional, o AFC/M23 busca demonstrar eficiência administrativa e conquistar legitimidade perante os moradores das áreas sob seu controle. Entretanto, especialistas alertam que uma resposta fragmentada entre diferentes autoridades pode comprometer a contenção do vírus caso o surto continue se expandindo.
Enquanto isso, organizações internacionais reforçam que a prioridade permanece sendo salvar vidas e ampliar a cooperação entre todos os atores envolvidos, independentemente das disputas políticas, para impedir que a atual epidemia se transforme em uma das maiores tragédias sanitárias da história recente do continente africano.
por Marilu Gomes



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