Thiago Moreno
Muito além das quatro linhas: a lição de Isha Johansen sobre o poder transformador do futebol
Por Thiago Moreno – Colunista do Jornal ICONIC
Durante décadas, o futebol foi tratado apenas como entretenimento ou negócio. Mas, para algumas pessoas, ele representa algo muito maior: uma ferramenta de reconstrução social, educação e transformação política. Poucas trajetórias ilustram isso tão bem quanto a de Isha Johansen, ex-presidente da Federação de Futebol de Serra Leoa e primeira mulher da África Ocidental a integrar o Conselho da FIFA.
Em entrevista recente à Reuters, Johansen relembrou sua trajetória desde a fundação do FC Johansen, em 2004, criado logo após a devastadora guerra civil em Serra Leoa. O objetivo era simples e, ao mesmo tempo, revolucionário: retirar crianças das ruas e devolvê-las à escola utilizando o futebol como instrumento de inclusão social.
O que começou como um projeto comunitário tornou-se uma carreira internacional que a levou aos mais altos cargos do futebol mundial. Porém, sua caminhada também revelou um lado pouco discutido do esporte: a intensa disputa política que acontece longe dos gramados.
O futebol também é poder
Johansen relata em seu livro The Uncommon Enemy: A True Story of Football, Power and Betrayal ("O Inimigo Incomum: Uma História Real de Futebol, Poder e Traição") o período em que enfrentou acusações de corrupção em Serra Leoa. Segundo ela, as denúncias tinham motivação política. Após anos de investigações, foi completamente absolvida das acusações.
Sua experiência reforça uma realidade conhecida por quem acompanha os bastidores das grandes entidades esportivas: a corrupção existe no futebol, mas também existem acusações utilizadas como instrumentos de disputa pelo poder.
Na entrevista à Reuters, Johansen afirma que presenciou diversos episódios em que denúncias serviam como mecanismo para afastar dirigentes considerados inconvenientes. Ao mesmo tempo, reconhece que problemas de governança continuam sendo um dos maiores desafios do esporte mundial.
A Copa do Mundo como oportunidade
Outro ponto interessante da conversa foi sua defesa da ampliação da Copa do Mundo para 48 seleções.
Enquanto muitos críticos enxergam apenas um aumento no número de partidas, Johansen observa um impacto muito mais profundo: mais países passam a receber investimentos da FIFA em infraestrutura, categorias de base e desenvolvimento técnico.
Para nações africanas e outras economias emergentes, participar de uma Copa do Mundo representa não apenas visibilidade esportiva, mas investimentos que dificilmente chegariam por outros caminhos.
Ela também destacou iniciativas como o programa Football for Reform, desenvolvido em Serra Leoa, que utiliza o futebol em centros de reabilitação feminina como ferramenta de educação, disciplina e reinserção social.
Muito além do espetáculo
Existe uma tendência de reduzir o futebol profissional a cifras bilionárias, direitos de transmissão e salários astronômicos. Entretanto, histórias como a de Isha Johansen lembram que o esporte continua sendo uma poderosa ferramenta de transformação humana.
O futebol ainda é capaz de reunir comunidades, oferecer perspectivas para jovens em situação de vulnerabilidade e criar pontes entre culturas completamente diferentes.
Ao mesmo tempo, a entrevista também evidencia que o esporte não está isolado da política. Federações nacionais, confederações continentais e a própria FIFA convivem diariamente com disputas institucionais, interesses econômicos e pressões governamentais.
No Brasil, costuma-se dizer que o futebol é uma paixão nacional. Talvez seja hora de entendermos que ele também pode ser uma política pública.
Quando bem estruturado, um projeto esportivo reduz evasão escolar, combate a violência, promove saúde e fortalece o senso de pertencimento das comunidades. Não por acaso, os países que mais investem em esporte de base colhem resultados que vão muito além das medalhas.
A trajetória de Isha Johansen mostra que o futebol pode ser um agente de reconstrução social, mas também revela como interesses políticos podem ameaçar aqueles que tentam mudar estruturas tradicionais.
Talvez a maior lição de sua história seja justamente esta: o futebol continua sendo uma linguagem universal. A diferença está em como escolhemos utilizá-lo — apenas para disputar campeonatos ou também para transformar vidas.
Referências: Reuters – Isha Johansen on the Promise and Politics of Football (27 de junho de 2026); FIFA; Confederação Africana de Futebol (CAF).



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