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Pedra Bela,01/09/2026

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Rubens Bernardo Tomas

“Um Olhar Transversal”: quando pessoas trans deixam de ser estatística e assumem o direito à própria história

Por Enrique Novas
“Um Olhar Transversal”: quando pessoas trans deixam de ser estatística e assumem o direito à própria história

“Um Olhar Transversal”: quando pessoas trans deixam de ser estatística e assumem o direito à própria história

Documentário dirigido por Regina Papini Steiner transforma o audiovisual em espaço de memória, escuta e afirmação das vidas de mulheres e homens trans

por Rubens Bernardo Tomas - Jornal Iconic

Durante muito tempo, mulheres trans, travestis e homens trans apareceram nos meios de comunicação principalmente em notícias relacionadas à violência, ao preconceito e à exclusão. Denunciar essas violações é indispensável, mas limitar pessoas trans ao sofrimento também produz uma forma de apagamento: desaparecem seus afetos, suas profissões, seus sonhos, suas famílias, suas conquistas e a diversidade de suas trajetórias.

É justamente contra esse olhar limitado que se posiciona o documentário “Um Olhar Transversal”, dirigido pela jornalista, diretora e documentarista Regina Papini Steiner e realizado pelo Instituto Omindaré. Lançada em agosto de 2026, na Casa Helô, no Bixiga, em São Paulo, a produção reúne relatos, experiências e reflexões sobre identidade, diversidade, direitos humanos e cidadania.

Mais do que falar sobre pessoas trans, o documentário procura criar um espaço no qual essas pessoas possam ser ouvidas a partir de suas próprias experiências. Essa diferença é fundamental: dar visibilidade não significa falar em nome de alguém, mas reconhecer o direito de cada pessoa narrar a própria vida.

Mulheres e homens trans não vivem uma única história

Um dos aspectos mais importantes de “Um Olhar Transversal” é mostrar que não existe uma experiência trans única. Mulheres trans, travestis e homens trans percorrem trajetórias diferentes, atravessadas por condições sociais, raciais, econômicas, familiares, territoriais e geracionais.

A experiência de uma mulher trans negra, moradora da periferia, por exemplo, pode ser profundamente diferente da vivência de uma mulher trans branca que teve apoio familiar e acesso à educação. Da mesma forma, homens trans enfrentam formas específicas de invisibilidade, inclusive dentro dos debates públicos sobre diversidade de gênero.

Muitas vezes, a sociedade sequer reconhece a existência dos homens trans. Essa falta de representação dificulta o acesso à informação, ao acolhimento familiar e aos serviços de saúde. Também produz isolamento, pois jovens transmasculinos podem crescer sem referências positivas com as quais possam se identificar.

Ao reunir diferentes histórias, o documentário rompe com a ideia de que todas as pessoas trans enfrentam os mesmos problemas ou fazem as mesmas escolhas. Cada relato apresenta uma vida completa, com dificuldades, contradições, desejos e possibilidades.

O direito de existir para além da violência

O Brasil permanece marcado por índices graves de violência contra pessoas trans. O monitoramento internacional realizado pela TGEU registrou 281 assassinatos de pessoas trans e de gênero diverso no mundo entre outubro de 2024 e setembro de 2025. O Brasil continuou ocupando uma posição dramática nesse levantamento, conforme análise da Associação Nacional de Travestis e Transexuais — Antra.

A violência, entretanto, não se manifesta somente nos casos extremos. Ela também aparece na rejeição familiar, na evasão escolar, na dificuldade de conseguir emprego formal, no desrespeito ao nome social e nas barreiras encontradas nos serviços de saúde.

O Escritório de Direitos Humanos das Nações Unidas reconhece que pessoas trans estão especialmente expostas à violência, à discriminação e a diferentes violações de direitos. A ONU também alerta que discursos políticos e coberturas midiáticas inflamadas podem reforçar a hostilidade contra essa população. As informações estão reunidas na página da organização sobre os direitos humanos das pessoas trans.

Diante desse cenário, contar histórias de vida torna-se um ato político. Não porque todas as pessoas trans sejam militantes, mas porque sua existência ainda é questionada por setores que tentam transformar identidades humanas em ameaças sociais.

Visibilidade não pode significar exposição

Um documentário comprometido com os direitos humanos precisa considerar que visibilidade e exposição não são a mesma coisa. A visibilidade fortalece identidades, amplia referências e abre caminhos. A exposição irresponsável, ao contrário, pode transformar experiências íntimas em espetáculo ou colocar pessoas vulneráveis em risco.

“Um Olhar Transversal” propõe um encontro baseado na escuta e na humanização. O filme procura aproximar o público de histórias frequentemente afastadas das telas, sem reduzir seus participantes a personagens exóticos ou objetos de curiosidade.

Essa perspectiva ajuda a combater uma prática ainda comum: entrevistar pessoas trans apenas para perguntar sobre seus corpos, cirurgias, documentos ou antigas identidades. Mulheres e homens trans possuem opiniões sobre política, cultura, trabalho, família, espiritualidade, amor, educação e tantos outros assuntos. Sua participação na sociedade não pode ficar restrita às perguntas formuladas por pessoas que as enxergam somente pela transição de gênero.

Um instrumento para escolas e espaços culturais

Além de seu valor artístico, o documentário possui potencial educativo. A obra pode ser utilizada em escolas, universidades, centros culturais, coletivos, serviços públicos e atividades de formação profissional.

Uma exibição acompanhada de debate pode ajudar estudantes e educadores a compreender conceitos como identidade de gênero, nome social, respeito, inclusão e direitos fundamentais. Também pode contribuir para preparar profissionais da saúde, assistência social, cultura, segurança pública e comunicação.

Para jovens trans, encontrar histórias semelhantes às suas pode representar acolhimento e esperança. Para familiares, pode ser uma oportunidade de substituir o medo e a desinformação pelo diálogo. Para quem nunca teve contato consciente com uma pessoa trans, o documentário pode aproximar realidades e desfazer preconceitos construídos socialmente.

O filme não deve ser tratado como uma explicação definitiva sobre a população trans. Nenhuma obra poderia cumprir essa função. Seu valor está justamente em abrir perguntas, estimular a escuta e mostrar que existem muitas maneiras de viver uma identidade de gênero.

Memória também é um direito

Registrar as histórias de pessoas trans é preservar uma parte da memória brasileira que raramente recebeu espaço nos arquivos oficiais. Durante décadas, muitas dessas trajetórias sobreviveram apenas em fotografias particulares, relatos orais e lembranças compartilhadas entre amigos.

Quando essas pessoas morrem, parte dessa memória também pode desaparecer. O audiovisual ajuda a interromper esse apagamento ao registrar vozes, gestos, experiências e formas de resistência.

Preservar essas histórias permite que futuras gerações conheçam não somente a violência enfrentada, mas também a contribuição de pessoas trans para a arte, a cultura, o trabalho, a política e a construção dos movimentos sociais.

O Instituto Omindaré apresenta “Um Olhar Transversal” como um convite para enxergar o mundo por outro ângulo, “sentir o invisível” e questionar certezas. A instituição atua com cultura, educação, inclusão e projetos voltados à população LGBTQIA+. Informações sobre a produção estão disponíveis na página oficial do documentário.

Importância para toda a população LGBTQIA+

Embora o documentário tenha como centro as histórias de mulheres e homens trans, sua mensagem alcança toda a população LGBTQIA+. O direito à identidade, à memória e à representação está ligado à defesa mais ampla da diversidade sexual e de gênero.

Ao tornar visíveis experiências que permanecem à margem, a produção contribui para enfrentar a transfobia e fortalecer a solidariedade dentro do próprio movimento LGBTQIA+. Também recorda que determinadas letras da sigla ainda recebem menos espaço, recursos e proteção.

A democracia não se limita ao direito de votar. Ela depende da possibilidade de cada pessoa existir, circular, estudar, trabalhar, amar e construir sua história sem ser perseguida por aquilo que é.

“Um Olhar Transversal” apresenta o audiovisual como uma ponte entre mundos que, muitas vezes, permanecem separados pelo desconhecimento. Ao substituir o preconceito pela escuta e a caricatura pela complexidade humana, o filme reafirma uma ideia simples, mas ainda urgente: pessoas trans não são apenas números, corpos em disputa ou vítimas de violência. São pessoas com passado, presente, sonhos e direito ao futuro.

O documentário pode ser assistido gratuitamente no YouTube ( mediante assinatura)



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