Monica Vernechi
A conta do tarifaço de Trump chega às famílias americanas
Política comercial eleva custos e amplia disputas com parceiros dos Estados Unidos. Inflação e crescimento mais lento preocupam, mas os indicadores disponíveis não sustentam a descrição de uma economia em colapso.
Monica Vernechi | 24 de setembro de 2026
Donald Trump prometeu proteger a economia dos Estados Unidos com tarifas sobre produtos importados. O problema é que uma tarifa cobrada na entrada de uma mercadoria pode aparecer, mais tarde, no preço pago por empresas e consumidores americanos. Ao transformar o comércio exterior em instrumento permanente de pressão, o presidente cria custos dentro do próprio país que afirma defender.
A dimensão desse custo aparece nas estimativas do Budget Lab, da Universidade Yale. Em análise publicada em agosto de 2026, o centro calculou que a política tarifária então vigente poderia elevar os preços ao consumidor em aproximadamente 0,7% e representar um custo médio de cerca de US$ 1.100 por família ao ano. Trata-se de uma projeção dos efeitos das tarifas, não de uma conta já recebida, no mesmo valor, por cada família.
A CartaCapital noticiou a nova rodada de tarifas anunciada pelo governo Trump em julho e a retomada da guerra comercial com parceiros dos EUA. O Brasil 247 acompanhou, em setembro, as negociações para tentar resolver as sobretaxas impostas a produtos brasileiros e a reação do Canadá às medidas americanas. Esses episódios mostram o alcance internacional da política de Trump. Para os EUA, o risco é encarecer insumos, provocar retaliações e obrigar empresas a tomar decisões de investimento em meio à incerteza. Esses efeitos variam conforme o setor e não devem ser apresentados como perdas já medidas em toda a economia.
Os indicadores recentes justificam preocupação. O índice de preços ao consumidor subiu 3,4% nos 12 meses encerrados em agosto de 2026, segundo o Bureau of Labor Statistics. Já o crescimento do PIB foi de 1,5% em taxa anualizada no segundo trimestre, abaixo dos 2,1% do primeiro trimestre, conforme a segunda estimativa do Bureau of Economic Analysis. Esses números, isoladamente, não permitem atribuir toda a inflação ou a desaceleração a Trump: preços de energia, juros e outros fatores também influenciam a economia.
Também seria incorreto chamar a situação atual de “catastrófica” como se o colapso já estivesse comprovado. O país continuava criando empregos: foram 162 mil vagas em agosto, e a taxa de desemprego permaneceu em 4,1%. A economia crescia, embora mais devagar no segundo trimestre. Esses dados tornam a crítica à política econômica de Trump mais precisa: o dano mais claramente identificado está no custo projetado das tarifas para as famílias e no risco de prolongar pressões sobre preços e relações comerciais.
Na minha avaliação, é aí que está a contradição central do governo. Trump apresenta o tarifaço como proteção ao trabalhador americano, mas sua aplicação ampla pode cobrar desse mesmo trabalhador um preço maior no supermercado, nos bens de consumo e nos produtos que dependem de componentes importados. Defender empregos industriais é um objetivo legítimo; exigir que as famílias arquem com custos adicionais sem uma demonstração clara de benefícios duradouros é outra coisa.
A economia americana ainda não está em ruínas. O alerta é que decisões de Trump estão tornando mais cara e mais incerta a vida econômica que ele prometeu melhorar. Antes de celebrar novas tarifas como vitória, a Casa Branca deveria responder a uma pergunta simples: quem paga por elas e quem, de fato, se beneficia?
Fontes
- CartaCapital — nova rodada de tarifas do governo Trump
- Brasil 247 — negociações entre Brasil e EUA sobre tarifas
- Brasil 247 — reação do Canadá às tarifas americanas
- Budget Lab de Yale — estimativas do custo das tarifas
- Bureau of Labor Statistics — inflação e emprego
- Bureau of Economic Analysis — PIB do segundo trimestre de 2026



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