Beto Guimarães Takeshi
Novas indústrias limpas emergentes
Novas indústrias limpas emergentes
O que vemos no Japão e na Austrália não é apenas “mais energia renovável”, mas o nascimento de uma nova geração industrial limpa que combina produção de hidrogénio, amoníaco, captura de carbono, materiais críticos e novas cadeias logísticas internacionais. Com muitos projetos iniciando em 2026, estamos diante de um momento de viragem, em que a transição climática vira também uma oportunidade industrial concreta.
Japão e Austrália aceleram a transição
Nos próximos anos, Japão e Austrália estão posicionando-se como protagonistas de uma nova onda industrial “limpa” que vai além de energia renovável convencional e entra em cadeias de valor de alta tecnologia, hidrogénio, amoníaco limpo, captura de carbono e materiais críticos para a transição.
Hidrogénio líquido e cadeias de abastecimento internacional
A gigante energética japonesa ENEOS Holdings anunciou que vai investir ¥20 biliões (~US$132 milhões) num projecto com início em fiscal 2026 na Austrália para produção de hidrogénio convertido em metilciclohexano (MCH), um portador líquido de H₂ mais fácil de transportar.
O plano prevê produzir cerca de 190 toneladas de hidrogénio e 3.000 toneladas de MCH por ano numa demonstração inicial, com objetivo futuro de 40.000 toneladas de MCH comerciais na década de 2030.
Essa iniciativa reflete um movimento mais amplo do Japão: sob sua estratégia de “Green Transformation” (GX), o país está trabalhando para construir cadeias de baixo-carbono que envolvem produção, transporte e utilização de hidrogénio e amoníaco limpos.Reciclagem de carbono e materiais críticos
Na Austrália, a empresa MCi Carbon está construindo uma planta industrial em Newcastle para transformar CO₂ em materiais de construção (economia circular) com forte investimento japonês via o banco Sumitomo Mitsui Trust Bank e corporações como ITOCHU Corporation.
Esse tipo de projeto representa uma nova indústria limpa: não apenas produzir energia renovável, mas reutilizar carbono e criar novos materiais com menor impacto climático.Minérios críticos e cadeia de suprimentos para tecnologia limpa
Outro destaque: um acordo entre a austríaca RZ Resources e a japonesa JX Advanced Metals para exploração/processamento de terras-raras, zircônio e titânio na Austrália, materiais essenciais para baterias, veículos eléctricos e semicondutores.
Isso mostra que a “indústria limpa” também significa movimentar cadeias de valor de matérias-primas, não apenas energia.
Por que 2026 é marco de viragem
A produção inicial de hidrogénio/MCH pela ENEOS está programada para começar a partir de fiscal 2026. O Japão está também prestes a lançar seu sistema de comércio de emissões (ETS) para apoiar a GX em 2026.
A Austrália, por meio de programas como o Australian Clean Hydrogen Trade Program, já está mobilizando investimento internacional para projetos de exportação de hidrogénio limpo.
Portanto, 2026 será o ano em que muitos desses projetos saem da fase de estudo/demonstração para a fase de escala ou implantação inicial o que marca o surgimento efetivo da nova “indústria limpa” entre os dois países.

Efeitos esperados e desafios
Efeitos positivos:
Criação de empregos qualificados em regiões da Austrália tradicionalmente dependentes de combustíveis fósseis.
Redução das emissões de carbono de forma estruturada, não apenas pontual.
Fortalecimento da segurança de matérias-primas (Japão diversificando, Austrália agregando valor).
Fortalecimento da cooperação bilateral Japão-Austrália em tecnologia limpa (hidrogénio, CCUS, etc.) somando esforços.
Desafios:
A economia da produção de hidrogénio e amoníaco limpos ainda enfrenta custo elevado e necessidade de escala.
A infraestrutura (transporte marítimo de hidrogénio, instalações de liquefação, etc) ainda está se desenvolvendo.
Existe risco de dependência de exportações de matérias-primas ou insumos sem criação local suficiente de valor agregado.
A necessidade de garantir que “limpo” realmente signifique baixa emissão existe debate sobre hidrogénio “azul” ou derivados de carvão com captura de carbono.

Em implementação Japão.



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