Carmem de Lucca
UE e o desmatamento
A UE adia sua lei do desmatamento e alonga também suas contradições.
O Parlamento Europeu decidiu, nesta quarta-feira, conceder mais um ano de prazo para que empresas se adaptem à tão debatida lei de desmatamento da União Europeia. O adiamento, aprovado por maioria, oferece às corporações um período extra para cumprir as novas exigências ambientais, projetadas para impedir que produtos associados ao desmatamento entrem no mercado europeu.
A decisão, contudo, expõe uma contradição incômoda no discurso ambiental do bloco. A UE, que há anos se coloca como líder global nas políticas climáticas, agora recua justamente em um dos pilares mais simbólicos de sua estratégia de proteção florestal. O argumento oficial é pragmático: empresas, especialmente pequenas e médias, pediram tempo adicional para ajustar sistemas de rastreabilidade e cadeias de fornecimento. Mas a pergunta permanece até que ponto esse "pragmatismo" compromete o compromisso climático europeu?
Os críticos dizem que o adiamento oferece mais holgura para corporações que já tiveram tempo suficiente para se preparar. Para organizações ambientais, o risco é claro: prolongar a implementação significa também prolongar a entrada de produtos ligados ao desmatamento em um dos maiores mercados do mundo, com impacto direto em biomas sensíveis, especialmente fora da Europa.
Por outro lado, defensores do adiamento argumentam que uma adaptação apressada poderia gerar caos regulatório, prejudicar produtores menores e, paradoxalmente, estimular práticas comerciais informais que a lei pretende combater.
A UE, portanto, se vê novamente tentando equilibrar ambição ambiental e realismo econômico um exercício que, embora compreensível, pode enfraquecer sua autoridade moral na arena global. Em um momento em que a crise climática exige decisões firmes, o atraso da lei de desmatamento ecoa como um lembrete de que até mesmo os líderes verdes do mundo enfrentam dificuldades para transformar discurso em ação consistente.
Por Carmem de Lucca



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